A Concubina
Morris West

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Quando acordou, j a tarde ia a meio.
A primeira coisa que viu foi a ventoinha antiquada a girar lenta e inutilmente no ar pesado. No produzia a menor ventilao, apenas um zumbido abafado como se o
eixo necessitasse de lubrificao. Depois, apercebeu-se do sol que
penetrava atravs das frestas das persianas de bambu.
Era o suficiente para um comeo.
Estava na cama, num quarto com uma ventoinha. Era dia. O resto podia esperar at que se sentisse suficientemente forte para poder preocupar-se. Tornou a fechar os
olhos. Tinha a boca ressequida e sentia um gosto amargo, metlico, na lngua. A pele estava pegajosa e com um odor acentuado. Ao tentar
mover-se, apercebeu-se de que os msculos estavam frouxos e relutantes.
Recordou-se de que tivera febre.
Pensou vagamente quanto tempo teria durado a febre e se algum teria tratado dele. Certamente que sim. Tinham-lhe tirado a roupa e estava completamente nu sob os
lenis. Escutara vozes indistintas e sentira mos a enxugar-lhe a testa, amparando-o, enquanto outras mos lhe encostavam um copo aos
lbios trmulos. Mos e vozes, mas nunca um nome ou um rosto.
Cautelosamente, abriu os olhos e virou a cabea. Viu uma mesinha de madeira vermelha trabalhada, um jarro de vidro com gua pelo meio e um copo. Conseguiu

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sentar-se e encher o copo. As mos tremiam-lhe e o jarro bateu no copo fazendo entornar gua na mesinha.
A gua decepcionou-o. Estava morna, inspida, e no conseguiu
tirar-lhe o gosto amargo da boca. Largou o copo e comeou a
examinar cuidadosamente o quarto: uma longa janela de batente
protegida por persianas de bambu; paredes brancas; um
guarda-loua pregado na parede, um toucador, uma escrivaninha,
tudo da mesma madeira vermelha; uma poltrona estofada com
tecido estampado; duas portas, uma delas com um aviso
emoldurado.
Agora lembrava-se do resto.
Estava num hotel - o Hotel TanjiI, de Jacarta. Viajara de
avio de Pakanbaru, na ilha Sumatra. A febre acometera-o uma
hora aps a sua chegada - uma agonia violenta de calafrios que
terminara em trevas. Chamava-se Mike McCreary. Trabalhava em
petrleo e estava desempregado.
Bebeu outro copo de gua, afastou a coberta e levantou-se,
apoiando-se  mesinha at lhe passar a primeira tontura.
Depois atravessou lentamente o quarto encerado e entrou na
casa de banho. No espelho, um rosto magro e amarelado
encarava-o: uma fisionomia irlandesa, de olhos brilhantes e
espertos profundamente engastados em rbitas escuras, nariz
petulante e boca larga, de lbios finos, que sorria de modo
cativante quando ele estava satisfeito e se fechava como uma
armadilha quando se encontrava de mau humor, como acontecia
naquele momento.
Porque a verdade era que ele estava desempregado, sem um
tosto, sem perspectivas e longe, muito longe de Kerry, a sua
terra.
Fez a barba cuidadosamente e depois ps loo no rosto. Em
seguida, abriu o chuveiro e permaneceu durante muito tempo sob
o jacto de gua, ensaboando-se, lavando-se at eliminar o
ltimo vestgio de febre e sentir-se de novo bem. Voltou nu
para o quarto e secou-se sob a ventoinha recalcitrante e
montona. Mal acabara

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de o fazer, estava outra vez a transpirar; depois de algumas
tentativas desistiu e comeou a vestir-se enquanto assobiava
uma verso deturpada de Raftery Little Red Fox, cano criada
em Kerry pelo grande Raftery, que tinha sido um homem livre,
um aventureiro.

Bateram  porta e McCreary, parando de assobiar, disse:

- Entre.
A porta abriu-se para dar passagem ao capito Nasa.
Era um javans de baixa estatura, macio, de sorriso evasivo e
suave. Vestia um fato cinzento de corte militar e usava na
cabea um fez escuro colocado ligeiramente de lado. Fechou a
porta e inclinou-se cerimoniosamente.
- Boa tarde, senhor McCreary.
McCreary respondeu-lhe com outro "boa-tarde" e continuou a
fazer o n da gravata.
O capito Nasa pegou num cigarro, bateu-o na unha do polegar e
acendeu-o. Atravs do fumo, sorriu para McCreary.
- Esteve bastante doente, meu amigo. Como se sente agora?
McCreary encolheu os ombros.
- Ainda no sei. Acabei de sair da cama.
- Sente-se fraco?
- No  natural?
O capito Nasa sorriu, deu um estalo com a lngua e continuou
a fumar o cigarro.
- Amanh sentir-se- melhor.
- Espero que sim - disse McCreary sem convico.
- Ento virei busc-lo ao
meio-dia e lev-lo-ei ao aeroporto.
McCreary voltou-se e olhou-o de frente.
- Est com pressa de ver-se livre de mim, no est?
- A ordem de extradio j est em vigor h alguns dias - disse Nasa
suavemente. - Estou encarregado de a cumprir logo que
possvel. Entretanto - olhou para as costas das mos pequenas
e morenas ------ entretanto
acho melhor no sair do hotel. No  aconselhvel um europeu
andar pela cidade sem ter os documentos em
ordem.
- Tambm acho - concordou McCreary.
- Ento amanh ao meio-dia?
- Estarei  espera.
- Passe bem, senhor McCreary.
- V para o inferno, capito! - respondeu McCreary em voz
baixa.
Nasa curvou-se novamente e saiu devagar, nas pontas dos ps,
como um bailarino. McCreary esperou que a porta se fechasse
e, ento, desatou a praguejar fluente e obscenamente. Nasa
era um polcia, um representante da lei e da ordem - mas a lei
assumia formas estranhas e tortuosas naquela republicazinha
que se estendia por trs mil ilhas com setenta e nove milhes
de almas. Funcionava melhor se se "lubrificasse" um pouco a
engrenagem, mas tudo o que McCreary possua era uma passagem
de avio para Singapura, um ms de ordenado em rupias
indonsias e a boa estrela dos irlandeses.
A passagem de avio transport-lo-ia de uma praia para outra.
As rupias perderiam vinte por cento do valor depois de os
"tubares" do cmbio terem levado o seu quinho. Quanto 
sorte dos irlandeses, parecia que se tinha esgotado.
McCreary vestiu o casaco, desceu ao salo do hotel, pediu um
gin-sling e um exemplar do Strait Time S. Chegara a altura de
procurar trabalho em Singapura.
Antes de abrir o jornal ele j sabia que ia perder o seu tempo. Singapura, Saigo, Banguecoque, Hong-Kong eram cidades
de comerciantes, entrepostos porturios. Nada ali lhe
interessava.
Nada lhe interessava em parte alguma, a no ser onde as
grandes estruturas de ao se erguiam para o cu e as brocas
estridentes mergulhavam no solo atravs das rochas at
atingirem as areias negras nas entranhas da terra. Era um
homem de petrleo e no um funcionrio ou um negociante. Era
um perfurador de terra e o seu lugar

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era ali, naquelas ilhas, ou nas Amricas, ou na Nova Guin, ou
at mesmo na orla do deserto australiano.
Contudo, o petrleo era um negcio traioeiro - um negcio de
fundo poltico. As grandes companhias dependiam, para obterem
as suas concesses, dos favores de governos estrangeiros e da
dispendiosa cooperao de funcionrios locais. Costumavam
evitar homens que no soubessem controlar os punhos e a
lngua. Depois do incidente em Pakaribaru, o seu nome deveria
estar na lista negra e ele teria de recorrer a uma das
companhias menores que fazem sondagens de petrleo nos
territrios marginais - isto , se conseguisse l chegar.
Desistiu de ler os anncios e concentrou-se na meia pgina que
apresentava a nova danarina de leque que acabara de se
estrear no Drago Dourado. Mas nem uma danarina de leque
euro-asitica podia resistir  bebida, ao ar hmido e 
sonolncia das ventoinhas. O anncio danava-lhe  frente dos
olhos e a verbosidade do anunciante no fazia o mnimo
sentido.
De repente, algum lhe dirigiu a palavra em ingls: uma voz
estridente e fina como um guincho de morcego.
O senhor chama-se McCreary?
Ele ergueu os olhos, surpreendido, e viu um homem gordo,
atarracado, que vestia um fato de seda. Tinha cabelos pretos,
olhos verde-acinzentados. O nariz parecia o bico de uma ave
de rapina e a boca, sobre o queixo quadrado, era pequena e
vermelha como a de uma mulher. O rosto era de uma palidez
mortal excepto na zona do queixo, onde o sombreado da barba se
fazia notar. As mos pequenas e grossas eram cobertas de
plos pretos e espessos. Uma figura que dificilmente se
conciliava com aquela voz esganiada. McCreary olhou-o por um
momento antes de responder.
Sou o prprio. O senhor quem ?
Rubensohn. Posso sentar-me?
Sente-se.
Sentou-se e limpou o rosto e as mos com um leno

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e oferece
de seda. Tirou uma embalagem de charutos u

um a McCreary.
- No, obrigado. Prefiro cigarros.
Rubensohn voltou a colocar a embalagem no bolso. Ps as mos
grossas sobre a mesa, com as palmas viradas para baixo,
recostou-se na cadeira e sorriu para McCreary.
Ouvi dizer que est em dificuldades, meu amigo.
No me diga - replicou McCreary calmamente O que foi que
ouviu? Onde?
- Soube que estava a fazer prefuraes para a Palmex em
Pakanbaru e que deu uma sova a um rapaz sudans que se foi
queixar  Polcia. A companhia no quis assumir a
responsabilidade e a Polcia expediu uma ordem de extradio.
Soube tambm que h trs dias que est doente e que deve
partir amanh de Jacarta para Garuda no avio das duas horas.
Correcto9 - Isso  uma parte da histria.
- Qual  o resto?
- Bem, se lhe interessa saber - disse McCreary no seu sotaque
suave de Kerry -, o rapaz estragou uma broca nova de dez
metros de revestimento por puro desleixo. Atrasou mais de um
ms as nossas actividades. J o tinha avisado suficientes
vezes. Dessa vez, tive de lhe dar um murro.
- Um desabafo caro.
- Talvez, mas  minha custa. Por que  que se preocupa?
No estou preocupado, senhor McCreary, apenas

interessado.
- Porqu?
- Gostaria de lhe oferecer trabalho. McCreary fitou-o
perplexo.
- No estou a compreender.
- Est interessado?
- Certamente. Mas que tipo de trabalho? E onde? - Ofereo-lhe
uma bebida, est bem? - disse Rubensohn com voz aguda e
aflautada.

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Bateu as palmas. Um nativo de barrete na cabea e de sarong
estampado correu a atend-los. Enquanto esperavam pelas
bebidas, McCreary acendeu um cigarro. Rubensohn observava-o
com ironia, divertido. Inesperadamente, perguntou:
- Quantos anos tem, McCreary?
- Trinta e oito.
- Casado?
- No.
- Tem vcios?
- Os do costume.
- De temperamento um tanto incontrolvel?
- No tolero idiotas. No gosto de trabalho mal feito.
Rubensohn baixou a cabea, concordando. - Isso abonar a seu
favor. Diga-me, qual  a sua maior ambio?
McCreary sorriu por trs do fumo do cigarro. - A est a
pergunta mais difcil que jamais me fizeram.
- No tem nenhuma ambio? - Claro que tenho, mas no creio
que a entendesse se eu lhe contasse qual .
- Experimente.
Os olhos de McCreary enevoaram-se. Com um gesto sbito,
esmagou o cigarro e curvou-se sobre a mesa.
- No o conheo, Rubensohn, nem sei o que deseja. No sei e
no me importo muito se a resposta lhe desagradar. Mas ei-la.
Sou um irlands muito idiota, de ps irrequietos, que carrega
s costas o seu lar. O meu nico talento consiste em fazer
buracos na terra a fim de descobrir petrleo. A minha
verdadeira ambio  ganhar dinheiro suficiente para poder
comprar um pequenino haras a trinta quilmetros de Dublin e
ver se consigo criar o vencedor do grande prmio. A tem.
Ria, se quiser.
- No vejo porqu - disse Rubensohn. - Nesse caso, est
interessado em ganhar dinheiro, no ? McCreary encolheu os
ombros.
Quem no est?

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O empregado voltou com as bebidas. Rubensohn pagou a conta e
esperou que ele se afastasse. Levantou o
copo e disse:
- Boa sorte, McCreary!
- Slainte!
Rubensohn bebeu um golo e limpou os lbios vermelhos. Depois
disse com circunspeco:
- O dinheiro  a coisa menos importante do mundo.
- Quando se tem - replicou McCreary.
- Exactamente. Quando se tem e se sabe o que ele  realmente:
um bocado de papel sujo, um pouco de metal ordinrio, um
smbolo imundo de algo muito mais importante, o crdito. Eu,
por exemplo - bateu no peito rolio -, nunca trago mais do que
o necessrio para enfrentar despesas imediatas. No entanto,
tenho crdito em toda a parte.. . Jacarta, Hong-Kong, Nova
Iorque, Paris, Londres.
- Felizardo - disse McCreary secamente.
Rubensohn no deu importncia  interrupo e prosseguiu:
- Com crdito eu posso negociar com o mundo inteiro, que ,
alis, o que realmente fao. Para ganhar cinquenta e cinco mil libras
basta-me pegar no telefone. Posso especular em borracha de
Singapura e em pimenta das ilhas Celebes. Fao as aces da
Palmex baixarem trs pontos numa tarde. E tambm posso fazer
as suas subir vertiginosamente.
- No tenho aces - disse McCreary.
- Poder t-las - replicou Rubensohn na sua voz
aguda e inadequada - se aceitar a minha proposta.
De que se trata?
Rubensohn sorriu e sacudiu a cabea.
- Aqui no, McCreary. H muita gente a falar e a escutar. O
melhor negcio  o que  feito em particular.
Olhe, para usar as suas prprias palavras, voc  um
homem de ps irrequietos e que carrega as costas o seu lar. Pois bem,
ofereo-lhe trs mil dlares para vir comigo ver do que se
trata. Se no lhe agradar, ainda fica

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a ganhar. Se gostar, fica com o dinheiro e poder ganhar
mais, muito mais. Que acha?
- Onde vamos?
- Bastante longe. As ilhas Celebes.
- Fazem parte da Repblica da Indonsia e eu vou ser expulso
do Pas. A Polcia reteve o meu passaporte e s MO devolver
amanh quando eu tomar o avio.
Rubensohn sorriu mansamente e enfiou a mo no bolso interior
do casaco. Tirou uma pequena carteira com as armas da
Repblica da Irlanda estampadas na capa e colocou-a sobre a
mesa, entre ambos.
Ao v-la, McCreary esbugalhou os olhos.
- Mas  o meu passaporte! Como  que voc...
Rubensohn fez um gesto depreciativo com a mo. - Crdito, meu
caro.  til em todos os sectores. O capito Nasa compreende
isso bem. Ele est muito mais interessado num aumento
inesperado da sua conta bancria do que em si. Est disposto
a concordar com um outro meio de transporte para si e a no
fazer muitas perguntas sobre o seu paradeiro.
- E ento?
- Se concordar, partiremos  meia-noite, para aproveitar a
mar cheia.
McCreary fitou-o intrigado e pensativo. Abanou a cabea.
- No estou a compreender, Rubensohn. No estou a compreender
nada. Como homem de negcios, voc h-de querer ter lucro.
No  dos que fazem caridade. Porqu eu, um perfurador
desempregado? Que lucro espera ter comigo?
- Neste momento - disse Rubensohn lentamente - preciso de um
homem para me tratar de um determinado assunto na parte
oriental desta repblica. Tenho urgncia. Tinha um homem em
vista em Singapura, mas afinal ele j no pode vir. Voc est
disponvel e eu arrisco. Est disposto a fazer o mesmo?
- Por trs mil dlares?
- E muito mais em perspectiva.

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McCreary olhou-o por um momento e, em seguida o seu rosto
magro abriu-se num meio sorriso.
- Um de ns  um grande idiota, Rubensohn. Tenho a impresso
de que sou eu .
 a boa estrela dos irlandeses? McCreary encolheu os ombros e
estendeu-lhe a mo. - Quem sabe? Muito bem, Rubensohn, j
arranjou companhia.
O aperto de mo de Rubensohn foi displicente, mas nos seus
olhos verde-acinzentados brilhava o interesse. A encerrar o
assunto, disse:
ptimo. Estamos conversados. Agora vamos para o meu quarto
tratar de negcios.
Levantaram-se.
McCreary, movido por uma curiosa argcia cltica, olhou para o
relgio. Eram quatro e meia do dia 10 de Julho. Se havia
pressgios por trs disso ele no o sabia. E no havia
profetas perto para gritarem ao viajante.
Saram juntos da sala.
O quarto de Rubensohn era espaoso e fresco, com mveis de
teca esculpida. Portas envidraados davam para um terrao
gradeado e nas paredes estavam penduradas telas de pintores
javaneses: cumes enevoados de montanhas, campos tranquilos
animados por pessoas que passeavam, praias compridas e
douradas, entre as colinas e o mar brilhante.
Mas os quadros ficavam sem cor e sem vida ao p daquela jovem.
Pequenina, de busto alto, parecia uma boneca de cera. De
cabelos muito negros, a pele tinha aquele morno colorido de
mel caracterstico dos mestios - a estranha fluorescncia
produzida pelo cruzamento do Ocidente com o Oriente. Usava um
vestido verdejado de brocado com gola alta. Trazia jias nos
dedos - um diamante e um rubi cor de sangue. Nos ps sem
meias viam-se sandlias de salto alto, abertas, confeccionadas
por um arteso chins.

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Quando entraram, ela estava a arranjar-se ao espelho.
Virou-se e olhou-os com curiosidade mas em silncio. McCreary
sorriu-lhe mas os seus olhos escuros no mostraram o menor
interesse. Rubensohn apresentou-os negligentemente.
Esta  Lisette. Lisette, o senhor McCreary, um novo scio.
Ele vai viajar connosco.
- Muito prazer em conhec-la, minha senhora - disse McCreary
rebuscadamente.
Ela permaneceu calada e Rubensohn esboou um sorriso.
McCreary sentiu-se ligeiramente ridculo.
Rubensohn apontou com o polegar para as portas envidraadas.
- Saia, Lisette. Espere por ns.
Ela encolheu os ombros e abandonou o espelho. Dirigiu-se 
porta e abriu-a. McCreary pde ver uma chaise-longue sob as
trepadeiras que cobriam as grades. A rapariga saiu e fechou a
porta.
-  muito bonita - disse McCreary.
-  minha - respondeu Rubensohn com naturalidade. - Gosto de
mulheres decorativas.
- Tem a sorte de as poder manter.
Rubensohn encolheu os ombros com indiferena. Dirigiu-se a um
armrio, abriu uma gaveta e tirou dela uma pequena sacola de
pele de porco. Abriu-a e retirou um rolo comprido de papel
transparente que esticou cuidadosamente sobre o tampo da mesa.
- Veja isto, McCreary.
Este debruou-se sobre a planta e assobiou silenciosamente.
Era um mapa elaborado por uma famosa companhia americana de
estudos geolgicos. Estava assinado pelo seu melhor tcnico.
McCreary conhecia-os. Rubensohn observava-o com ateno.
- Percebe disso?
- Claro que sim.
- De que se trata?
- De um levantamento topogrfico de petrleo.
- E que deduz dele?

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- Se for autntico...
- . custou-me vinte mil dlares.
- Barato - disse McCreary. - Deve haver petrleo
 farta.
O dedo grosso de Rubensohn apontou para um stio
no mapa.
- Quanto tempo seria necessrio para abrir aqui um
poo?
- Espere a, Rubensohn! - McCreary endireitou-se e fitou-o. Vamos esclarecer bem as coisas. Um levantamento  uma coisa,
abrir um poo  outra, completamente diferente
- Porqu?
- Um agrimensor - explicou McCreary com clareza -  um homem e
no uma toupeira. Vive  superfcie. No consegue ver o que
h l por baixo. Com a ajuda da tcnica e com habilidade, ele
pode prestar uma srie de informaes a respeito da terra e
das formaes rochosas. Pode detectar, como este tipo fez, um
anticlinal prometedor, onde tudo indica que deve haver
petrleo. Mas no pode afirmar que ele existe. A  que
entra o risco, para os financiadores e para os perfuradores.
Rubensohn concordou com a cabea. A resposta parecia ter-lhe
agradado. Fez outra pergunta.
- Estou disposto a arriscar. Mas quero ainda outra resposta.
Suponhamos que existe petrleo no anticlinal. A profundidade
indicada neste levantamento, quanto tempo levaria a extra-lo?
McCreary considerou a pergunta.
- O terreno est desobstrudo?
- Est.
- Qual o tipo de equipamento?
- O que h de melhor.
- Ento eu diria que devem ser necessrias uma a duas semanas
para erguer a armao e comear a cavar.
este tipo no se enganou, deDepois mais um ms. Se
veremos encontrar areia entre trezentos e quinhentos

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metros de profundidade. D-me seis semanas ao todo e eu
dar-lhe-ei uma resposta: positiva ou negativa.
- ptimo!
McCreary olhou-o penetrantemente.
- Compreenda, Rubensohn! No lhe estou a prometer nada. No
posso evitar falhas humanas nem a interferncia divina.
- Eu sei. De que tipo de mo-de-obra vai precisar?
- Para j, de um mecnico que seja capaz de zelar pelo bom funcionamento
de tudo, que saiba conservar as ferramentas e fazer reparaes
de oficina. Do resto encarrego-me eu, com ajuda de gente do
local, desde que tenha carta branca.
- Mecnico ja eu tenho. No lugar para onde vamos,
voc dispor de todo o pessoal que quiser e tambm ter carta
branca.
- Onde ?
Rubensohn sorriu e sacudiu a cabea.
-  segredo, McCreary. Isso ser revelado apenas no terceiro
dia de viagem.
- Para mim vem a dar ao mesmo, Rubensohn. Voc  que paga, voc  que manda. Mas h uma coisa.
- O qu?
- Assim que comearmos a trabalhar, eu  que darei as ordens.
Conheo a minha profisso e no gosto de interferncias.
- Perfeitamente.
Rubensohn enrolou o mapa, colocou-o de novo na sacola e
fechou-a no armrio. Virou-se para McCreary. Os seus olhos
brilhavam de satisfao e a boca vermelha sorria brandamente:
- Voc agrada-me, McCreary. Acho que, juntos, ns os dois
podemos ir longe.
McCreary enfiou as mos nos bolsos e encostou-se  mesa.
Disse suavemente.
- Antes de mais nada, Rubensohn...
- O qu?

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Quero saber quanto vou ganhar, alm do adiantamento.
Sem hesitar um momento, Rubensohn exps as condies.
- Trs mil dlares adiantados, trezentos por semana durante a
perfurao e um bnus de dez mil com a concluso do poo, ou o
equivalente em aces de uma companhia que viermos a formar.
Durante esse perodo de trabalho, todas as suas despesas sero
por minha conta e no final ter uma passagem para qualquer
porto do mundo. A no ser, claro, que decida continuar a
trabalhar para mim. Que tal?
- Serve - disse McCreary friamente.
- Quer por escrito?
McCreary abanou a cabea.
- Basta-me a sua palavra.
Rubensohn olhou-o com estranheza e franziu o sobrolho.
Nunca confie na palavra de ningum em assuntos de dinheiro,
McCreary.
McCreary ps um cigarro no canto da boca e sorriu para
Rubensohn por entre as primeiras colunas de fumo.
- Se a palavra de um homem no vale, a sua assinatura muito
menos. Mas, se me quiser preparar um contrato, estou de
acordo. A rapariga servir de testemunha.
- Prefiro assim - disse Rubensohn com calma. - Chame-a, McCreary, e mande vir uma bebida para ns. E,
McCreary... - j a meio caminho da porta, este virou-se;
Rubensohn sorria, mas havia dureza no seu olhar - a Lisette 
minha. Nunca se esquea disso.
- Com todo o seu dinheiro - disse McCreary suavemente - no
vejo nenhuma razo para se preocupar.
Abriu os batentes e ficou a olhar para a jovem. Parecia um
pssaro, pensou, um brilhante pssaro verde e dourado debaixo
de trepadeiras ondulantes.

2

As oito horas dessa mesma noite, McCreary meteu tudo o que
tinha numa sacola de lona, pagou a conta e mergulhou nas
sombras mornas da noite.
As estrelas brilhavam a pouca altura num cu aveludado e as
luzes da cidade espalhavam-se a seus ps milhares delas;
brilhantes  volta da cidade nova e intermitentes no bairro
residencial, onde os bungalows dos chineses ricos se
refugiavam por detrs da densa vegetao; amarelas nos
kampongs; escassas e irregulares nos barcos de pesca para l
do porto de Tanjung Perink.
Podia sentir o cheiro da cidade, mesmo ali no terreno elevado,
longe da baixa doentia e dos canais da cidade velha, onde se
agitava a populao escura, chafurdando e despejando os seus
detritos nos canais estagnados. Era um odor estranho,
extico, feito de condimentos, vegetao apodrecido, peixe
ressequido, gua pantanosa e a emanao de dois milhes de
corpos a suar no ar parado. Penetrava pelas narinas, enjoava o
paladar e impregnava-se nas roupas. No se podia remov-lo.
Quando nos amos embora, permanecia como uma lembrana
perturbadora, atraindo-nos para voltar.
McCreary pousou a sacola e encostou-se por instantes ao tronco
de uma grande figueira para acender um cigarro. Antes de ter
apagado o isqueiro, aproximaram-se trs betjaks a puxar os
seus veculos e a tocar furiosamente

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as campainhas. Comearam a puxar-lhe as mangas,
anunciando, como papagaios em malaio, a velocidade e a limpeza
dos seus respectivos veculos. McCreary sorriu, empurrou-os
para trs, ergueu a sacola e colocou-a no assento do carro que
tinha chegado primeiro. O condutor riu e troou dos seus
rivais com um palavro e um gesto obsceno. Da a pouco, iam
todos estrada abaixo com os penachos a baloiar, as campainhas
a tocar e o ar assobiando nas tiras de borracha esticadas sob o assento.
O trnsito era reduzido na cidade nova. McCreary recostou-se
no banco e deixou o vento fustigar-lhe o rosto. As pernas
esquelticas do condutor pedalavam para cima e para baixo
enquanto ele cantava, gritava, ria e tocava a campainha em
cada cruzamento e a cada carro
que passava.
Era uma gente estranha, pensou McCreary: at pareciam
irlandeses. Simples, educados, amantes das cores e da msica.
Andavam como bailarinos e falavam como poetas. Mas o
fermentozinho da loucura estava nos seus crnios escuros e,
como os irlandeses, estavam sempre sujeitos a enlouquecer com
a bebida, com o amor ou com as mais simples frustraes
quotidianas. Chamavam a isso Amok - e quando um homem ficava
Amok a segurar uma machadinha ou a brandir um kris, era morto
rapidamente num canto escuro ou num calabouo.
Para ele no havia salvao.

Ao chegarem  cidade velha, diminuram a velocidade.As casas dos antigos
colonizadores holandeses tinham sido dispostas entre as
rvores, mas agora dormiam quatro famlias javanesas em cada
quarto e os jardins estavam atravancados de barracas de onde a
vida se derramava para as ruas apertadas - crianas  bulha,
galinhas  procura de alimentos e vendedores com cestos de
feijo e arroz cozido, peixe frito e condimentos picantes.
Rolos de batik espalhavam-se sob esteiras protectoras. Um
escultor de madeira estava agachado entre os seus pssaros
esculpidos e as suas pequeninas figuras

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femininas de busto direito. Por uma porta aberta saa o
tilintar da msica do gamelan e McCreary conseguiu ver l
dentro, por cima das cabeas dos espectadores agachados, os
fantoches grotescos de um teatro de sombras.
O homem do veculo desviava-se, tocava a campainha e enxotava
as crianas do caminho; dez minutos mais tarde atingiam a zona
desobstruda  volta do porto de Tanjung Perink. McCreary
pagou ao betjak, encaminhou-se para o cais e ficou a olhar
para a gua oleosa da enseada.
Estavam ali navios de todas as nacionalidades: petroleiros de
Balikpapan; barcos costeiros enferrujados do Mar da China; um
grande vapor branco italiano com vigias resplandecentes
regressando de Sidney com veraneantes; juncos - embarcaes
chinesas de popas altas; um navio mercante de mastros muito
inclinados vindo de Yokohama; e os pequenos e bem alinhados
paquetes da esquadra da nova repblica, com o pssaro garuda
de asas abertas, como uma guia, sobre as placas com os
respectivos nomes.
Havia luzes, o arrastar de amarras e o ranger da grande draga
que tirava lodo do canal. Ouvia-se o agitar de uma lancha da
Polcia e a lenta aproximao do prau de um pescador, o baque
de barcaas contra o casco de um navio recm-chegado.
Encontrou ento o que procurava.
Estava atracado a um dos cais oleosos, a uns duzentos metros
de distncia, na curva noroeste do porto - um casco longo e
branco com o formato de uma corveta, o que provavelmente era.
Estava iluminado da proa  popa e ele podia ver as figuras
apressadas dos malaios a cuidar das mangueiras pretas que
mergulhavam nos depsitos de combustvel.
A proa, um nome: Corsrio, Panam.
Pegou na sacola e ps-se a andar rapidamente ao longo do cais.
Um serang malaio acenou-lhe do alto da prancha de desembarque
e, ao chegar ao cimo, um jovem oficial

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saudou-o, cumprimentando-o com elegncia e perguntando-lhe,
num ingls razovel, o que desejava.
- Chamo-me McCreary.
- Estvamos  sua espera. Soube que vai viajar connosco.
- Chamo-me Arturo Caracciolo, segundo-oficial.
- Muito prazer em conhec-lo, Arturo. Onde posso encontrar o
senhor Rubensohn?
- No salo. Est  sua espera para jantar.
-  muito amvel da parte dele. Como se vai para
l?
- Por aqui.
Pegou na sacola de McCreary e conduziu-o pela pequena escada.
McCreary reparou que os tabiques tinham sido pintados
recentemente e que o corredor estava revestido de uma nova
passadeira de borracha. Arturo abriu a porta de um camarote e
ps-se de lado para o deixar passar. McCreary
assobiou de surpresa.
O camarote era grande como um salo. Tinha uma cama, uma
escrivaninha e uma chaise-longue aparafusada ao cho;
aguarelas italianas de cores vivas nas paredes; na cama e nas
vigias, tecidos de padres modernos. Inclua, ainda, um
pequeno compartimento com um chuveiro e um armrio espaoso.
- Sim senhor - disse McCreary num tom baixo - a viagem promete!
Arturo sorriu, satisfeito como uma criana.
- Foi construido em Inglaterra e sofreu adaptaes em Gnova.
Ns temos muito orgulho nele.
McCreary olhou para o rapaz. Simptico, pensou. Recm-sado
da escola de Marinha Mercante, a julgar pela aparncia.
Inocentemente, perguntou:
- "Ns", quem?
- A tripulao, senhor. O comandante  holands e os oficiais
so italianos.
- E os outros?
- No convs, temos malaios; na sala de mquinas, indianos; e
chineses na cozinha.
McCreary abanou a cabea. Este Rubensohn  esperto,

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pensou. At nos mnimos pormenores. Dividir para reinar.
Haveria poucas oportunidades para sarilhos com uma tripulao
assim. Atirou a sacola para cima da cama e foi ao pequeno
compartimento arranjar-se para o jantar. Arturo levou-o ao
salo e anunciou-o.
- Comandante Janzoon, senhor Rubensohn... o senhor McCreary.
Levantaram-se para o receber. O comandante, um louco
agigantado com cabelo  escovinha e barba, Rubensohn e a
rapariga.
Rubensohn cumprimentou-o com uma efuso estudada. A jovem
dirigiu-lhe um vago aceno de cabea. O comandante Janzoon
esmagou-lhe a mo dentro da sua, grande como um presunto,
bateu-lhe no ombro e gracejou no seu ingls spero e asmtico:
- McCreary, hem? O irlands selvagem. Parecemos uma Liga das
Naes: holands, italiano, ingls e uma bela mulher que ...
A voz fria de Rubensohn interrompeu o monlogo.
- Uma bebida para McCreary, comandante.
Janzoon corou, mas calou-se. Despejou dois dedos de usque
num copo e entregou-o a McCreary, que o temperou
cuidadosamente com gua, levantando-o em seguida num brinde.
Janzoon e Rubensohn acompanharam-no. A rapariga fumava um
cigarro escuro numa longa boquilha de ouro com ponta de jade.
Rubensohn pousou o copo na mesa e disse bruscamente:
- Tenho de lhe dizer uma coisa, McCreary.
- O que ?
- Ns os quatro aqui presentes somos os nicos envolvidos
nesta... nesta aventura. Os outros foram contratados para
tomar conta do barco e no sabem de nada. Ficou bem claro?
- Para mim, est claro como a minha conscincia - respondeu
McCreary. - Mais alguma coisa?
- De momento, no. Gostou do navio?
- Do pouco que vi, gostei. Acho que me vou divertir.
- Vinte ns - disse Janzoon na sua voz spera.

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Trs mil milhas martimas percorridas. Tem de ver a minha
ponte de comando. Do ltimo modelo! Da melhor qualidade! - disse - Compro sempre o que h de melhor
- Temos sorte com o patro - disse McCreary a rir.
Pela primeira vez um relmpago de interesse faiscou
nos olhos escuros de Lisette, mas McCreary no reparou.
Naquele momento um criado chins aproximou-se e Rubensohn
falou-lhe em cantons. Quando saiu, Ouviram-no fazer soar o
seu pequeno gongo de bronze, para cima e para baixo, pelos
corredores e pelo convs.
- O jantar ser servido dentro de quinze minutos.
Com licena. Vamos, Lisette!
Virou-se e saiu do salo. A rapariga seguiu-o, silenciosa,
sem um olhar sequer para McCreary ou Janzoon. Os dois
viram-na partir. Se havia provocao no andar, eles no a
notaram. Era bela e fria como uma boneca de
cera.
McCreary e Janzoon entreolharam-se. O rosto de
McCreary abriu-se num sorriso e Janzoon deu a sua habitual gargalhada gutural.
- Que acha dela, hem, McCreary?
- No posso achar - respondeu. - Avisaram-me para no me meter no seu caminho.
Por baixo das sobrancelhas espessas, Janzoon lanou-lhe um olhar rpido e astuto.
- Temos de nos conhecer melhor. Acho que podemos vir a ser bons amigos.
- Acredito que sim .
Janzoon despejou mais usque nos dois copos e ao oferecer um a McCreary perguntou-lhe de um modo casual:
- Conhece Rubensohn h muito tempo?
- Umas quatro ou cinco horas. Porqu?
- Ele tem-no em boa conta.
- Que simptico
- O que  que voc sabe a respeito dele?

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- Nada alm do que ele prprio me contou.
Janzoon bebeu o usque de uma s vez e limpou os lbios com as
costas das mos. Disse ento com aspereza: - Ainda tem muito
que aprender, meu amigo.
McCreary sorriu tranquilamente e respondeu no seu
modo suave:
- Eu aprendo com rapidez. Especialmente quando me pagam para
isso.
- Ele  um grande homem - disse Janzoon ponderadamente. - Sabe
o que quer e como consegui-lo. Tem uma fortuna imensa. Basta
pronunciar o seu nome para se abrirem portas em Roma, Paris,
Genebra e Nova Iorque. Este navio comprou-o ele como sucata
por trinta mil libras esterlinas e gastou cinquenta mil a
transform-lo no que  hoje. Tem vistas largas. No poupa
dinheiro num projecto e paga bem por bons servios prestados.
- Qual  o verdadeiro negcio dele? - perguntou McCreary
cuidadosamente.
Janzoon encolheu os ombros.
- Um homem assim interessa-se por tudo o que d dinheiro, seja
onde for. Hoje  petrleo. Amanh podero ser armas, ou
ouro, ou algodo. Age de acordo com o mercado. Financia uma
nova firma aqui, adquire outra, mais antiga, acol. Em
resumo, tudo aquilo em que toca transforma-se em ouro.
- Est com ele h muito tempo?
- Desde que o Corsrio foi oficializado, h cerca de trs
anos. Antes disso eu comandava petroleiros para a Bataafsche
Petroleum. Este  o melhor barco que eu j tive. Bom
pagamento e biscates ainda melhores.
McCreary olhou-o intrigado.
- Uma parte das sobras do ouro, hem?
- As vezes.
- Uma ideia prometedora, Para o homem certo - disse Janzoon suavemente
-, mais do que prometedora: uma certeza.
McCreary sorriu e enfiou o nariz no copo. Janzoon

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estava a sond-lo, mas ele no iria cair na rede. J tinha
mordido suficientemente o "anzol". Agora era cumprir a sua
tarefa, receber o que lhe deviam e ir para casa; e o pirata
que fosse para o inferno com o seu riso barulhento como um
sino e aqueles olhos frios e calculistas.
Ocorreu-lhe, ento, que no tinha lar, apenas o vago sonho de
uma casa de pedra, toda cinzenta, e vastos pastos verdejantes
cheios de garanhes a bater com os cascos. Via-se vestido com
um fato de montar, a andar como um autntico criador de
cavalos, a falar delicadamente com o treinador e os
tratadores. A ironia desse pensamento apanhou-o de surpresa e
ps-se de repente a rir, engasgando-se com o usque, enquanto
Janzoon o olhava intrigado e hostil.
- Eu disse alguma piada, por acaso?
- Nada! Absolutamente nada - disse McCreary, enquanto enxugava
a boca e a frente da camisa. - Uma piada particular, sem
qualquer malcia.
Janzoon sacudiu a cabea.
- Aproveito a ocasio para o avisar de que Rubensohn no gosta
de piadas, especialmente as que no pode compreender.
- Tanto pior para ele - disse McCreary. - Triste vida leva
aquele que no sabe rir.
- Uma vida muito melhor do que a sua ou a minha - disse
Janzoon com uma certa amargura -, com dinheiro, uma mulher
como aquela e poder suficiente para arruinar uma dzia de
homens em dez minutos.
- Mas para que lhe serve isso tudo, se ele no sabe apreciar a
vida? - e McCreary encolheu os ombros e ps um cigarro no
canto da boca.
Janzoon inclinou-se, de isqueiro na mo. Estava ainda um
tanto confuso, mas nos seus olhos havia admirao e um
certo respeito relutante por aquele homem magro de sorriso
oblquo. Disse com seriedade:
- Aprecio um homem que sabe rir mesmo de um superior. Mas
aconselho-o a nunca se rir de Rubensohn. E nunca o provoque
em frente dela. Ele precisa de sentir-se

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importante o tempo todo. Observe-o durante o jantar.
Observe-o sempre que houver outras pessoas no grupo. Ele
precisa de chamar as atenes sobre si, como se estivesse no
centro de um palco.
McCreary encolheu os ombros e deu uma passa no cigarro.
- No que me diz respeito, pode continuar assim. Obrigado pelo
conselho.
Janzoon teve um gesto expansivo de protesto.
- No me agradea, McCreary. S o quero ajudar. J lhe disse
que devamos ser bons amigos. E agora vamos jantar. Convm
tambm lembrar-se que Rubensohn gosta de pontualidade.
McCreary olhou  volta, perplexo. A mesa estava posta no
salo e um criado chins estava perfilado na passagem que dava
para a cozinha do navio.
- Pensei que amos jantar aqui.
- Ah, no, meu amigo! - Janzoon voltou a rir entre dentes e
conduziu-o pela porta do lado oposto. - Ali  para os
oficiais. Ns somos hspedes do grande homem. Jantamos no
seu camarote e tendo por companhia a encantadora Lisette.
- Quem  ela?
A pergunta sara sem querer, e Janzoon lanou-lhe um olhar
rpido, enviesado, que contradizia a sua resposta indiferente.
- Lisette? Uma mestia de Saigo, a julgar pela cor da pele e
pelo sotaque. Mas se veio de um palcio ou da sarjeta, isso
ningum sabe. Ela  agora o que Rubensohn moldou.  produto
seu, propriedade sua.
- Foi o que ele me disse - declarou McCreary suavemente. - No
sei se ela pensa da mesma forma.
Janzoon parou de repente. Segurou McCreary pelo brao,
fazendo-o rodopiar e bater com fora contra a divisria de
ao. A sua barba pontiaguda roou o rosto de McCreary. Com
voz baixa e irritada, disse:
- Escute o que eu lhe digo, seu irlands! H dez milhes de
mulheres bonitas entre Jacarta e Dili. Por

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mim, pode ficar com todas. Mas nesta no vai tocar. Ela
pertence ao grande homem e f-lo feliz. Enquanto ele se
sentir feliz, ns podemos viver confortavelmente e enriquecer.
Se voc lhe dirigir um sorriso que seja, ter duas facas
enfiadas na garganta: a dele e a minha! Entendeu?
O sorriso de McCreary foi terno como o de uma criana e a sua
voz macia como manteiga.
- Claro que entendi. Mas por que haveria eu de me interessar
por uma mulher fria como ela? Sou um sujeito muito afectivo e
gosto de um sorriso e s vezes de umas palavras doces  hora
de me deitar.
- No se esquea - resmungou Janzoon num tom
azedo, largando o brao de McCreary.
McCreary encarou-o de frente. Na boca ainda havia aquele
sorriso enviesado, mas a raiva chamejava-lhe no olhar. Disse
friamente:
- Quero dizer-lhe uma palavrinha ao ouvido, comandante.
- O qu?
- Daqui em diante, mantenha as suas mos nos bolsos. Se
voltar a tocar-me, parto-lhe esse maldito pescoo!
Boquiaberto de surpresa, Janzoon girou nos calcanhares e, sem
dizer uma palavra, seguiu para o camarote de
Rubensohn.
Ao entrarem, viram Lisette sentada languidamente num sof
debaixo de um flamejante nu de D'Arezzo. O seu corpo mido e
escultural estava envolto num tecido prateado e usava jias de
jade e esmeralda. Fumava um cigarro e folheava com
indiferena uma revista francesa de modas. Ergueu os olhos,
murmurou um cumprimento
e voltou-se novamente para a revista.
"Nem que fssemos leiteiros, pensou McCreary
mal-humorado, "homens do lixo ou limpadores de esgotos. Mas em
meia hora  luz das estrelas eu conseguiria
faz-la mudar de atitude."
Lembrando-se das recomendaes que recebera, voltou a sua
ateno para Rubensohn.

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Este estava to meticulosamente vestido como se fosse para um
jantar de gala, mas a impresso que dava era a de um sapo de
ccoras comprimido dentro da roupa de um cavalheiro. O rosto
estava ainda mais plido, depois de o ter barbeado e coberto
de pomadas. A pequena boca vermelha parecia uma cereja
debaixo do nariz protuberante. Cumprimentou-os com
vivacidade.
- Sentem-se, meus senhores. Dispomos ainda de alguns minutos
antes de chegar o outro convidado e tenho uma coisa para vos
dizer.
Janzoon levantou os olhos, surpreendido. Era evidente que,
pelo menos ele, no esperava mais ningum antes de levantar
ncora. Disse abruptamente:
Nenhum problema, espero.
Rubensohn olhou-o com frieza e desprezo.
- Problemas, comandante? Porqu? Partimos  meia-noite, os
documentos esto em ordem, o piloto j est contratado. A
menos, naturalmente, que se tenha esquecido de alguma coisa?
- No, no, no me esqueci. Foi um palpite infeliz. - O nosso
convidado  um amigo aqui do senhor McCreary.
- No me diga! Qual  o nome dele?
- Capito Nasa.
McCreary quase pulou da cadeira.
- Nasa! Olhe l, Rubensohn, se isso  uma brincadeira...
- De maneira nenhuma, senhor McCreary. Uma simples transaco
comercial. O capito Nasa vem receber o pagamento por
servios prestados.
- Bem, o barco  seu - disse McCreary sem entusiasmo. - Se fosse
meu, no deixaria aquele patife aproximar-se. Dava-lhe o
dinheiro num canto escuro e ainda um soco nos dentes para o
ensinar.
- Para depois os seus serem tambm quebrados numa priso de
Jacarta? Acredite, McCreary, os meus mtodos do melhores
resultados.
McCreary sorriu.

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- Isso tambm creio. O seu dinheiro est a para o provar.
- ptimo! - exclamou Rubensohn com animao.
Agora falemos de negcios. O capito Nasa vem receber.
Infelizmente, ele agora est a exigir mais do que tnhamos
combinado, mais do que eu estou disposto a pagar. Portanto,
preciso de conversar com ele em particular. Jantaremos com
calma e depois do caf o senhor, comandante, ir tratar dos
seus afazeres na ponte de comando. Quanto a si, McCreary,
leve a Lisette para o salo e converse um bocado com ela.
Quando eu acabar a minha conversa com o capito Nasa
mand-lo-ei chamar. Entendido?
- Parece que vai ser uma noite muito agradvel! disse
McCreary.
- Espero que sim, para seu prprio bem - murmurou Rubensohn
secamente.
McCreary olhou para ele energicamente.
- O que quer dizer com isso?
Rubensohn encolheu os ombros e sorriu contrariado: - Que, se
eu no me entender com o capito Nasa, voc ficar de novo
desempregado.
- Quer que eu o atire ao mar por si? - perguntou McCreary com
ironia.
- Talvez mais tarde. Por agora, trate da Lisette e deixe-o
comigo.
- Se quiser, ser um prazer!
Virando-se, fez uma inclinao exagerada na direco de
Lisette. Ela ainda estava a folhear a revista onde todas as
mulheres tinham fisionomias como a sua: frias, belas e
inexpressivas.
Cinco minutos mais tarde, o capito Nasa chegou e teve incio
o jantar.
Foi uma refeio incmoda. O pequeno javans mostrava-se
prudente e desconfiado, reagindo s perguntas mais simples com
um sorriso equvoco. Janzoon estava nitidamente contrariado.
Era um comandante holands e estava num pas que os seus
compatriotas em tempos

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tinham dominado e onde agora eram tratados com desprezo e, s
vezes, com uma hostilidade ostensiva. Tinha sob o seu comando
um barco de grande tonelagem e ansiava por deixar para trs as
luzes do canal e por se ver bem longe dos limites
territoriais.
Lisette no tivera a mnima participao na conversa e
McCreary via-se assaltado pela tentao cltica de apoquentar
o polcia que estava sentado e sorridente, desdenhando dos
ocidentais que tinham de lhe pagar os menores prstimos.
S Rubensohn estava senhor da situao. Conduzia-os, como a
uma orquestra de cmara, atravs das amenidades de uma
refeio. A sua voz fina e aguda s elogiava e lisonjeava;
lanava um assunto aps outro  volta da mesa, de modo que a
hostilidade e o conflito deram lugar a uma espcie de harmonia
ilusria e passageira, mas suficiente para resistirem at ao
caf e ao primeiro conhaque. Ento, Rubensohn despachou-se
com naturalidade.
- Lisette, meus senhores, desculpem-nos por uns instantes, mas
o capito Nasa e eu temos um assunto a tratar.
Janzoon deixou-os sem dizer uma palavra. McCreary e a
rapariga subiram a escada para o convs da r.
O ar estava tpido, impregnado do cheiro da cidade e da
floresta, mas Lisette estremeceu quando McCreary lhe deu o
brao. Enquanto ele a conduzia  amurada, as suas sandlias
ressoavam secamente nas chapas de ao do convs. Ali ficaram,
debruados, a observar as luzes que se reflectiam nas guas
paradas e oleosas. McCreary sentia a pele sedosa do brao
dela colada  sua, mas no havia vibrao nem correspondncia
 presso dos seus dedos. Perguntou com ternura:
- Est com frio?
- No. Estou muito bem, obrigada.
A voz dela possua o timbre alto dos mestios, mas tambm nela
no havia vida. Era como o som dos pequenos sinos de vidro
que se baloiavam  porta dos

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santurios dos antigos deuses. McCreary imaginou como seria
ela a rir e h quanto tempo no era atingida pela paixo ou
pelas lgrimas. Perguntou-lhe, de novo, no sotaque macio e
doce dos habitantes de Kerry:
- No acha que poderia sorrir de vez em quando e conversar um
bocado para ajudar a passar o tempo? Parece que vamos ter de
conviver durante muito tempo.
- Que diferena lhe faz eu sorrir ou ficar sria?
- Sentir-me-ia melhor - disse McCreary alegremente. - Um
pouco mais humano, talvez, e no como um cigano vagabundo que
no tem uma lareira para aquecer os ps, nem uma esposa para
aquecer a cama.
- J sou paga para fazer isso a um homem. A
dois, seria de mais.
Ela falou com simplicidade, sem medir as palavras, enquanto
olhava atravs das guas para as luzes difusas de um
petroleiro que passava.
- No se trata de pagar - replicou McCreary com um sorriso
alvar. - Sou um pobretanas, portanto o que consigo  por amor
e o que dou sai de um corao cheio e de um bolso vazio. Isso
est, pois, fora de questo. Existe alguma razo para no me
dar o prazer de um sorriso de vez em quando? Ser que o mundo
 to triste que nada a faz rir? Veja ali... - e apontou para
o lado oposto da baa, onde os rebocadores estavam a puxar o
grande navio branco italiano para dentro do canal.
Veja que espectculo! Sabe para onde  que ele vai? Primeiro
para Singapura, depois para a Colmbia e mais tarde para
Npoles...
- J estive em Npoles...
- Sim? E certamente ficou num hotel de luxo, na praia, na
melhor suite que o dinheiro do Rubensohn conseguiu.
- Justamente.
- Com todos os malditos criados a atropelarem-se para a servir
e todos os malditos vendedores a tentar impingir-lhe as suas
bugigangas.
- Isso mesmo.

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- Onde  que j esteve mais?
Ela ergueu levemente os ombros e enumerou os locais:
- Ah, em muitos stios ... Nova Iorque, Londres, Paris, Canes,
Madrid, Viena.
- E parecem-se todos uns com os outros, no ?
- Sem dvida.
- No v, ento, que no gozou nenhum desses momentos? Voc
no conhece o mundo, nem o sabor da felicidade.
- Felicidade? - ela alongou a palavra quase com escrnio. - No, a felicidade no conheo. Mas o mundo, esse conheo-o
muitssimo melhor do que voc, McCreary.
- Como  isso possvel se desde os dezasseis anos que eu
vagueio pelo mundo?
- Eu no precisei disso. O mundo  que veio at mim.
- E por que no? Com toda essa beleza morena e
enigmtica.
Ela no correspondeu ao galanteio como outra mulher teria
feito. A sua mo permaneceu frouxa e insensvel dentro da
dele. Disse simplesmente:
- No Pavilho do Pavo no havia segredos. Bastava um homem
ter dinheiro para todas as portas se lhe abrirem.
- Onde era isso?
- Em Saigo.
- Como  que foi l parar? Foi l que Rubensohn a
descobriu?
- Foi. Eu agradava-lhe, parece, e ele no  fcil de
contentar. Talvez seja por isso que sente tanta satisfao em
apresentar-me a pessoas respeitveis, em ver homens beijar a
minha mo e mulheres admirar os meus vestidos e as minhas
jias, enquanto s ele sabe que eu sou uma mulher que ele
tirou da sarjeta de Saigo.
- E voc?
- Eu? - ele distinguiu de novo na voz dela a msica

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irritante dos deuses antigos e feios. - Estou satisfeita.
E por que no haveria de estar? No Pavilho do Pavo ramos
duzentas mulheres. Aqui sou a nica, e muito mais bem paga do
que elas.
- At Rubensohn se cansar de si.
- Voc poderia fazer mais por mim, McCreary?
- Talvez - respondeu ele serenamente -, se nos apaixonssemos
e fssemos para longe comear uma vida nova.
Pela primeira vez, ele ouviu-a rir. Mas no havia alegria no
riso dela.
- Voc  um tolo, McCreary.
- Sei isso h muito tempo, mas prefiro a minha tolice 
sabedoria de Rubensohn.
- Por que se juntou a ele?
- Porque me ofereceu uma boa soma
para eu fazer a nica coisa que sei: perfurar poos de
petrleo.
- S por isso?
- Por que mais poderia ser?
- Estava com medo do capito Nasa.
Foi a vez de McCreary rir - uma gargalhada que ecoou pelo
porto, sobressaltando os pescadores que chegavam e as aves
empoleiradas nas bias. Lisette, afastou-se, espantada.
- Medo dele? Por que teria eu medo de um tipo como ele? O
mximo que ele podia fazer era despachar-me de avio para
Singapura. Eu j estava  espera disso, portanto no havia
razo para ter medo. Foi nessa altura que Rubensohn apareceu
e me fez uma proposta. Disse-me que convenceria Nasa a
permitir a minha extradio a bordo do Corsrio. Nem sequer
era ilegal, embora no duvide de que Nasa tenha feito isso
parecer uma concesso especial para pedir muito dinheiro.
- Mas se no  por sua causa, por que  que Nasa veio hoje
aqui?
- Seja qual for o motivo, diga Rubensohn o que disser, ele no
veio por minha causa.
- Ento porqu?

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Havia na voz dela um tom estranho que o intrigou, embora os
olhos e o rosto de boneca nada demonstrassem. Encostando-se
 amurada, riu-se para ela.
- E o que  que isso lhe importa? Ou a mim?  um assunto de
Rubensohn, e o dinheiro tambm  dele. Desde que nos paguem,
que importa? De uma coisa pode estar certa: Nasa est a lucrar
mais do que qualquer um de ns.. . excepto eu.
Ento tomou-a nos braos e beijou-a, enquanto ela lhe batia no
peito com as suas mos pequenas e frgeis. Manteve-a apertada
contra si at sentir toda a sua frieza desvanecer-se e os
lbios dela corresponderem ao calor dos seus.

Parecia ter decorrido muito tempo. Estavam ambos sentados na
cobertura de lona da escotilha. McCreary fumava calmamente,
enquanto Lisette compunha os cabelos e retocava o bton.
McCreary disse suavemente:
- Agora j sabemos.
O rosto dela estava na sombra, sem que ele conseguisse
perceber se sorria ou franzia o sobrolho, mas abaixa voz ao responder-lhe j no
era irritadia, mas sim forada.
- J sabemos o qu? Que se entusiasma com facilidade por uma
mulher?
- E que voc me entusiasma.
- Est bem. Mas que podemos esperar?
- O que voc quiser. Podemos descer e voltar para a
cidade.  um bom comeo.
- Com a Polcia atrs de si e sem dinheiro no bolso .
A mo dele procurou-a na escurido, mas ela afastou-se.
- Ento ficaremos aqui, desejando-nos um ao outro, eu a tentar
dia e noite manter as minhas mos e os meus olhos afastados de
si, e voc na cama de outro homem, s porque ele tem mais
dinheiro do que eu.  isso que quer?
- No  o que eu quero, McCreary.  o que eu tenho. Pretendo
conserv-lo at algum me oferecer algo melhor.

36

- E o amor no  melhor? Mesmo com todos os
riscos?
- Amor? - a palavra foi dita em tom de troa. -
Chama a isto amor? Voc no  o nico homem por quem eu me
senti assim, nem eu a nica mulher que o entusiasmou. Seja
sincero, McCreary, como eu estou a ser.
- Ento, Rubensohn  de facto o seu dono.
- Ele s  dono do que paga, nada mais. Escute, McCreary - a
voz tornou-se-lhe mais doce e ela ps a mo pequenina sobre a
dele -, noutra altura, noutro lugar, talvez houvesse esperana
para ns. Mas aqui, com ele, no  possvel. No compreende?
Se ele soubesse o que acabou de se passar entre ns, faria
tudo o que estivesse ao seu alcance, para nos ferir, para nos
humilhar... at mesmo para nos destruir.
- Seria preciso um homem mais forte que Rubensohn para isso - ponderou McCreary.
- Acha? No o conhece como eu. Nada o detm quando quer
alguma coisa.
- Eu tambm sou um homem decidido - disse McCreary vivamente.
- Voc  mais tolo do que eu pensava - disse ela.
Antes que ele lhe pudesse responder, um criado chins surgiu
silenciosamente no convs e informou que Rubensohn os
aguardava.
A primeira coisa que viram ao entrar no camarote de Rubensohn
foi o capito Nasa deitado sobre a mesa, a ressonar
ruidosamente. Perto do seu cotovelo, um balde de gelo com uma
garrafa de champanhe e  frente dele um copo entornado.
Um fio de bebida escorria-lhe da borda da mesa para o colo.
Rubensohn estava de p, perto da vigia, a fumar um dos seus
grossos charutos.
Lisette olhou espantada para Nasa. McCreary praguejou em voz
baixa:
- Santo Deus! Est fora de combate! Bbado que nem um cacho!
Rubensohn sorriu.

37

- Um bom muulmano nunca toca em lcool . Nasa ignorou a sua
crena e a tem o resultado.
- Terminou o seu negcio com ele? - perguntou
McCreary.
- Terminei. Ambas as partes ficaram satisfeitas. Mandei
servir champanhe para comemorar mas bem podia t-lo
economizado.
- Ele no precisou de muito para ficar neste estado.
- Estivemos longe s uma meia hora.
Rubensohn lanou-lhe um olhar penetrante, mas os olhos
inocentes de McCreary no denotavam qualquer
malcia.
- Esses tipos no tm muita resistncia  bebida - afirmou
Rubensohn categoricamente. - Agora ele deixa-nos com outro
problema: como lev-lo para casa?
-  muito simples - disse McCreary prontamente.
Chame um betjak, atire-o l para dentro e diga ao motorista
para o levar  esquadra da Polcia.
- No  assim to simples, McCreary.
- Porqu?
Rubensohn fez um gesto de impacincia.
- Porque ele veio c, sem que os seus superiores soubessem,
para negociar um suborno. Se ns chamarmos um betjak ao
barco, o condutor saber de onde ele saiu. Se ele for
interrogado, acabaremos por tambm o ser... e temos de partir
daqui a uma hora.
- Ele no est em condies de ir sozinho para casa - observou
McCreary, sorridente.
- No, mas podemos lev-lo daqui at  zona do mercado. A
podemos met-lo num txi e mand-lo embora.
-  verdade.
- Ento - disse Rubensohn - sugiro que o tire daqui
o mais depressa possvel. J empestou de mais o ambiente.
- Espere a! - disse McCreary - Porqu eu, e no um dos seus
tripulantes, um marinheiro?
Rubensohn sorriu levemente.

38

- Porque agora eles esto a preparar o barco para largar. So
uns tipos ignorantes e no compreenderiam por que  que era
preciso tomar conta de um polcia bbado. Alm disso,
McCreary, voc est em dvida para comigo e peo-lhe apenas
este pequeno favor. - Deu uma gargalhada abafada e continuou
com a sua voz esganiada de pssaro: - E, finalmente, porque
tem agora a oportunidade de o atirar ao mar, se tiver vontade.
McCreary olhou-o por um momento, considerando a questo.
Depois disse friamente:
- Foram quatro as razes que me apresentou, Rubensohn, e a
nica vlida  que estou em dvida para consigo.  por isso
que eu vou.
Debruou-se sobre o capito, que ressonava, enfiou-lhe um
brao sob o ombro e ergueu-o vigorosamente da cadeira. O peso
de Nasa em cima dele parecia-lhe o de um saco de carvo.
- Coloque-lhe o fez, Rubensohn, e ampare-o enquanto o levanto.
Preciso de ajuda at chegar  escada.
Rubensohn enterrou o fez na cabea oscilante de Nasa, enquanto
McCreary, ora fazendo-o andar ora arrastando-o, o levou at 
porta como a um velho amigo que chega a casa depois de uma
farra.
Lisette desviou-se para os deixar passar e observou-os a
cambalearem pelo corredor at  escada.
- Leve-o para bem longe da praia - disse Rubensohn. - Se der
muito trabalho, atire-o ao canal.
- Eu tambm j estive bbado - disse McCreary - e no faria isso
nem ao meu pior inimigo. Vamos, Nasa, meu velho, veja se
consegue andar um bocado e aliviar o peso dos meus ombros.
E, assobiando desafinadamente, foi tropeando escada abaixo,
enquanto o capito Nasa respirava forte e ruidosamente sobre o
seu pescoo.
A tripulao estava demasiadamente atarefada a desengatar as
mangueiras para lhes dirigir mais do que um simples olhar, e
quando se afastaram do Corsrio as docas estavam quase
desertas. Mas havia sempre o perigo

39

de serem encontrados por uma patrulha em ronda pelo cais, e
McCreary decidiu entrar directamente pelo bloco de armazns a
fim de, embora dando uma volta mais larga, ir ter ao princpio
da zona do mercado, onde os betjaks estacionavam.
Inicialmente, tentou forar Nasa a andar, mas as pernas do
homenzinho balouavam, frouxas como as de um fantoche, e os
seus sapatos de verniz arrastavam-se na poeira enquanto
McCreary o carregava pelas sombras das rampas de carga dos
armazns. Por mais de uma vez teve de parar e encostar-se a
um muro de madeira ou a um poste de cimento para respirar
fundo e aliviar a carga dos ombros. Tinha os olhos e os
ouvidos sempre alerta e imaginou o que responderia se fosse
abordado pela Polcia do cais.
Finalmente, passou os armazns e chegou a um caminho estreito,
com vegetao dos dois lados, em cuja extremidade podia
distinguir a silhueta de uma ponte de bambu, o brilho da gua
de um canal e um grupo de luzes amarelas. A julgar pelo
cheiro e pelo rumor distante de vozes e latidos de ces, o
mercado nocturno estava em plena actividade.
Decidiu que seria prefervel desistir de fazer o capito andar
e em vez disso, carreg-lo aos ombros - o que era bastante
mais fcil do que arrastar um peso morto, como vinha a fazer
nos ltimos quinze minutos.
Protegido pela sombra de uma grande figueira, parou e deixou o
capito escorregar at ao cho. Respirou fundo, massajou os
msculos e alargou a gravata. Percebeu que tinha as roupas
encharcadas de suor, pegadas ao corpo. E percebeu ainda outra
coisa.
Nasa j no ressonava. Nem sequer respirava.
Baixou-se rapidamente e encostou o ouvido ao peito do capito.
No sentia o corao a bater. Tomou-lhe o pulso. Nada. As
mos estavam frias, embora o ar estivesse quente. McCreary
procurou atrapalhadamente o isqueiro no bolso, acendeu-o e
aproximou-o do rosto de Nasa. Os olhos estavam abertos,
fixos. A boca estava

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frouxa e um fio de saliva tinha secado no queixo. Pelos
sinais mais elementares, o capito Nasa estava morto.
Rapidamente, esvaziou-lhe os bolsos. No de cima encontrou uma
carteira. No das calas havia uma srie de notas de baixo
valor. Um leno, um mao de cigarros americanos e um isqueiro
japons barato. McCreary abriu a carteira e verificou
rapidamente o contedo. Cartas, um carto da Polcia, um
retrato de uma mulher com o filho, quinhentas rupias em notas
e nada mais. Limpou a carteira com o leno e voltou a
coloc-la cuidadosamente no mesmo lugar. Obedecendo a um
impulso brusco, passou o isqueiro e os cigarros para o seu
prprio bolso.
Seguidamente, levantou o corpo de Nasa, segurando-o por baixo
dos braos, e arrastou-o para trs do tronco da figueira. O
fez tinha cado. Apanhou-o do cho, sacudiu-lhe
cuidadosamente a poeira e colocou-o na cabea de Nasa, por
cima dos seus olhos fixos. Limpou as mos ao leno e recuou
para a viela. A passos largos, retomou o caminho por onde
viera.
Ao atingir a proteco das sombras dos armazns, parou,
protegeu-se num canto recuado e acendeu um cigarro: o cigarro
e o isqueiro de um morto. As mos tremiam-lhe e a pequena
chama amarelada balouava  frente do seu nariz. Um calafrio
percorreu-o, como se algum tivesse passado por cima da sua
sepultura. Sentiu que o suor do corpo tinha arrefecido, como
se a febre estivesse a voltar. Encostou-se  parede e fumou o
cigarro, lutando para colocar os pensamentos em ordem.
"Pensa, McCreary! Pensa! Pensa! No fiques para a parado como
um idiota. Um homem morreu nos teus braos. Ests enrascado
at ao pescoo. Nasa morreu, mas ningum morre por causa de
meia garrafa de champanhe. Muitos nem sequer chegam a
embebedar-se a ponto de ressonarem.  uma grandessssima
mentira daquele maldito Rubensohn. E ainda h outra: que Nasa
foi receber. Rubensohn disse que lhe tinha pago, mas tu s
encontraste nos bolsos uns trocos que no do para

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pagar a quem alterou um pedido de extradio, nem mesmo para
pagar metade de quaisquer outros servios que Rubensohn tenha
obtido dele. Outros servios? Quais? Importantes a ponto de
terem feito com que Nasa. aumentasse a parada. Rubensohn lida
com petrleo. O petrleo  um negcio traioeiro.  preciso
ter conhecimentos em certos sectores do Governo. Um polcia
no tem amigos, mas tem poder... poder de mais numa repblica
vistosa mas de pouco valor como esta, onde a extorso e o
suborno esto na ordem do dia. Ele, ento, aumentou a parada.
E Rubensohn matou-o. Envenenou-lhe a bebida, ou talvez o
tivesse forado sob a mira de um revlver a engolir o veneno,
pois  sempre mais fcil para um homem morrer inconsciente do
que sentir uma bala dilacerar-lhe as entranhas. O resto foi
pura encenao: champanhe entornado pelo queixo e pela camisa
e conversa suficiente para que um irlands impulsivo como tu o
livrasse do tipo. Se surgissem complicaes, tu serias
responsabilizado: mataste-o para recuperar o teu passaporte;
j havia uma acusao contra ti em Pakanbaru. Se tudo
corresse bem, irias com ele para perfurar o poo e
entregar-lhe um milho numa salva de prata. Que tipo to
esperto, esse Rubensohn... A rapariga  que tinha razo,
MeCreary, tu s muito mais idiota do que pareces."
Fumou o cigarro quase at queimar os dedos. Atirou-o para o
cho e esmagou-o com o salto do sapato. Acendeu outro
cigarro. As mos estavam agora mais firmes e a cabea menos
confusa. Viu claramente o que
tinha de decidir.
Podia abandonar Rubensohn imediatamente. Voltaria para a
cidade, tomaria no dia seguinte o avio das duas para
Singapura, esperando que a Polcia no o apanhasse entretanto.
Contudo, era provvel que o apanhassem. Nessa altura,
atir-lo-iam para uma priso e comeariam a "trabalh-lo" 
maneira impiedosa e brutal dos asiticos, usando varas de
junco, at o matarem ou lhe arrancarem uma confisso  fora.
Depois, mat-lo-iam do mesmo modo.

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Nada teria a ganhar com isso. Entretanto, com Rubensohn,
talvez obtivesse algum lucro. Se conseguisse arranjar foras
suficientes para sorrir e andar com firmeza, podia voltar para
o barco e dizer a Rubensohn que Nasa estava a caminho de casa,
ressonando, e Rubensohn acreditaria, porque lhe convinha
acreditar nele. E depois?... Faria o servio para o qual
tinha sido contratado. Observaria e encaminharia as coisas
para um dia ter Rubensohn onde desejava, a olhar para o cano
de um revlver e a implorar piedade. Levaria Lisette e o
dinheiro e faria Rubensohn lembrar-se de Nasa, deixando-lhe
aquele isqueiro ordinrio como recordao.
Sabia que era uma esperana louca. Chegou a sentir vontade de
rir daquele projecto. Contudo, era um pretexto para fazer
planos, empenhar-se e - o que um celta desabrido necessitava
acima de tudo - lutar contra algum.
Lentamente e com prazer, fumou o resto do cigarro. Comps a
gravata, alisou o bluso amarrotado e regressou com passos
enrgicos para o Corsrio, assobiando a marcha de
Brian-na-KoppIe, que tinha sido o maior de todos os lutadores
de Kerry.
Quando chegou, encontrou Rubensohn a caminhar pelo convs, com
um charuto na boca e as mos atrs das costas, na atitude de
um Napoleo meditativo. McCreary ps-se a andar ao seu lado,
enquanto Rubensohn o interrogava.
- Voltou mais cedo do que eu esperava. Deu muito trabalho?
- Nenhum - o seu tom de voz era absolutamente natural. - Empurrei-o para dentro de um betjak e paguei ao homem para ir
andando at ele acordar. Ameacei-o com uma sova se largasse
Nasa antes de ele estar no seu perfeito juzo.
- Magnfico, McCreary, magnfico! Quando ele acordar j
estaremos a sair do canal para leste.
- Espero que estejamos bastante mais longe do que isso - replicou McCreary.

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Rubensohn no percebeu a ironia. Andava agora mais depressa,
com a cabea projectada para a frente, como se estivesse a
abrir caminho para uma nova conquista. Tirou o charuto da
boca e apontou com ele para o mar.
- Temos grandes perspectivas  nossa frente, McCreary, maiores
do que voc imagina. Sabe por que  que estou aqui, nestas
guas nojentas do fim do mundo? Por dinheiro? Estou a
abarrotar de dinheiro. Enquanto viver, posso ter tudo, e do
melhor, sem precisar de mexer um dedo. Mas isso no basta.
Um homem precisa de mais do que isso. Precisa de se sentir
desafiado, de ser estimulado para pr em aco as foras que
tem dentro de si. E, aqui - abriu os braos num gesto teatral
- este mar de trs mil ilhas  um dos poucos lugares do mundo
onde ainda se pode fazer isso. A riqueza da Europa foi
construda aqui por portugueses, holandeses e ingleses. Agora
a Europa est agonizante, asfixiada pelo formalismo, pela
diplomacia e pelos controlos que os seres humanos impem uns
aos outros por uma v iluso de segurana. Sabe o que eu sou,
McCreary?
- Ainda no encontrei a palavra exacta - respondeu
ele mansamente.
- Pois vou-lhe dizer. Sou um pirata, um corsrio, o que de mais
prximo existe dos prncipes mercadores que contratavam
mercenrios, faziam as suas armas e navegavam por todos os
portos do mundo sob as suas bandeiras. Estas ilhas e talvez a
Amrica do Sul so os nicos lugares do mundo onde um homem
tem liberdade para respirar e construir o seu imprio com o
seu prprio talento, coragem e dinheiro. Compreende?
- Creio que sim.  uma ideia complicada.  preciso tempo para
reflectir.
Rubensohn atirou a cabea para trs e riu naquele seu tom
agudo e sibilante.
- Ter tempo, McCreary. Vou mostrar-lhe coisas que superam as
das Mil e Uma Noites de Harum al Rschid. Ver um prncipe em
cujos rios correm jias, que come em pratos de ouro e mantm
quinhentas mulheres

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s para seu prazer. Ver a rota dos escravos, onde a beleza
do mundo  posta  venda. Eu ensinar-lhe-ei a multiplicar o
dinheiro, como sonham todos os jogadores.
Calou-se de repente, por um momento, como se estivesse
embriagado com a sua prpria eloquncia. A iluminao da
ponte de comando batia-lhe em cheio no rosto e, ao fit-lo,
McCreary reconheceu os olhos brilhantes de loucura de um
visionrio e a boca franzida e cruel de um califa. Era bvio
que ele acreditava nas suas prprias palavras, e McCreary
sentia-se inclinado a aceit-las tambm.
Subitamente, a exaltao cessou e Rubensohn voltou a ser o
mesmo, o homem de olhar duro e esperto que dava instrues ao
seu subordinado.
- Perfure-me um poo, McCreary, o mais depressa possvel, que
no se arrepender. J h um equipamento completo e uma srie
enorme de peas sobressalentes encaixotadas no poro. Pode
comear a trabalhar assim que desembarcarmos.
- Quando ser isso?
Rubensohn riu e abanou a cabea.
- Ao fim de trs dias, no alto mar, mostrar-lhe-ei o mapa.
- No confia muito nos outros, pois no? - observou McCreary.
Rubensohn olhou-o ironicamente:
- No que diz respeito a dinheiro e a mulheres, no confio em
ningum.
- E espera que o seu pessoal confie em si?
A resposta de Rubensohn veio cortante como uma lmina.
- No me interessa que confiem ou no, McCreary. Espero que
produzam em proporo ao que lhes pago. Se no o fizerem, eu
desforro-me...na prpria altura ou dez anos mais tarde. Tenho
uma excelente memria. Est bem claro?
- Bastante - respondeu McCreary despreocupadamente. -  que
eu sou novo aqui e gosto de saber as

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regras do jogo. No tenho um temperamento agressivo, mas no
gosto de pensar que os outros me esto a passar a perna.
Rubensohn sacudiu os ombros e afastou-se. A conversa estava
encerrada. O assunto era banal e j no lhe interessava.
McCreary sufocou a clera, encostou-se  amurada e ficou a
observar a reduzida actividade no cais.
Viu a tripulao recolher as mangueiras e, depois, afastar-se.
Viu as pequenas figuras escuras paradas ao lado dos postes de
amarrao, aguardando o momento de safar as amarras. Viu o
piloto subir a bordo. Era um javans, que se assemelhava
incrivelmente ao capito Nasa. A prancha de desembarque
estava a ser levantada e os marinheiros aguardavam no convs
junto ao oficial de planto.
Sentiu o lento estremecer dos motores em funcionamento, ouviu
o som estridente do apito do contramestre e a agitao da gua
quando as hlices se movimentaram.
Lenta e cuidadosamente, comearam a percorrer o canal,
deixando para trs os vultos escuros dos bar cos de pesca, e
ultrapassaram as luzes bamboleantes das bias, tomando a
direco da lua nascente, a leste, rumo a uma ilha e um mar
desconhecidos.
O ar estava carregado e McCreary sentiu-se subitamente frio e
desamparado. Pensou no capito Nasa morto, estendido sobre as
razes da figueira. Quando um marujo descalo, com passos
abafados, passou por ele no convs, pareceu-lhe que algum
caminhava sobre a sua prpria sepultura.

4

O cu estava deslumbrantemente azul; o mar, um espelho liso
rompido apenas pela agitao provocado pela passagem do barco.
Java estava bastante longe, a sul, ao longo do nono paralelo.
A bombordo, via-se um amontoado de ilhas, meio encobertas
devido  neblina. Os seus nomes encerravam mistrios
exticos: Pulau Pulau, Kemudjan, e o elevado pico que se
reflectia na gua denominava-se Karimunjawa. Com os binculos
podia ver a plumagem verde do interior, a faixa dourada
formada pelas praias e as pequenas canoas dos nativos com a
forma de aves.
Avanavam para leste, sobre o sexto paralelo, em direco ao
estreito de Macassar e  extremidade sul das ilhas Celebes.
Os motores roncavam regular e ininterruptamente. Era um dia
claro mas indolentemente montono. Um toldo tinha sido
estendido sobre o convs posterior e uma piscina de lona
armada um pouco mais adiante.
McCreary e Lisette passaram a maior parte do primeiro dia
estendidos sobre toalhas, debaixo do toldo, em fatos de banho,
mas Rubensohn tinha ficado sentado numa cadeira, imaculado na
sua camisa de seda e calas de linho, como se tivesse medo ou
vergonha de expor a sua pele branca e flcida. Um criado
chins aparecia de vez em quando para servir cerveja gelada, e
o jovem Arturo, quando terminou o seu turno, vestiu tambm um
short e reuniu-se ao pequeno grupo sob o toldo.

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Com franca admirao, olhou para o corpo esguio e perfeito de
Lisette e tentou, a princpio, cortej-la com os elogios
tpicos dos latinos. Mas, ao pressentir o olhar glacial de
Rubensohn, corou e enveredou, embaraado, por uma conversa
trivial. Por sua vez, Lisette mantinha-se indiferente e
serena. McCreary sentia-lhe o desdm silencioso pelo jovem
pretendente e pelo prprio Rubensohn.
Desde aquele breve interldio da noite anterior, no tinham
tido mais nenhum contacto ou intimidade. Mesmo ao nadarem
juntos na piscina, os olhos frios de Rubensohn observavam-nos.
Quando estavam sob o toldo, Rubensohn dominava a conversa e
afastava todo o assunto em que no participava, entremeando
cada incidente com uma referncia que lhe dizia respeito.
Aquilo irritava McCreary, mas j aprendera a controlar-se.
Queria que Rubensohn se sentisse satisfeito e no suspeitasse
de nada. Queria tambm Lisette, mas sabia que tinha de
aguentar o momento propcio.
Entretanto, decidira travar relaes diplomticas com os
oficiais italianos: o jovem Arturo, de olhos brilhantes e sem
malcia, orgulhoso do seu primeiro posto; Agnello, florentino
de rosto de cavalo, que cuidava dos motores, um tipo tristonho
que vagueava pelo convs a tomar ar com um pano de algodo nas
mos e o macaco encharcado de suor e leo; Guido, napolitano
baixo e rechonchudo, de olhos buliosos e rosto moreno de
rabe.
Guido era o radiotelegrafista e McCreary dedicou-lhe especial
ateno, rindo-se das suas primeiras piadas obscenas, s quais
acrescentou uma ou duas do seu repertrio. Guido possua o
entusiasmo peculiar dos napolitanos pela obscenidade, e
McCreary tencionava dar uma espreitadela discreta na cabina de
rdio do Corsrio. J com Alfieri, primeiro-oficial de bordo,
no fora to bem sucedido. Era um veneziana alto, soturno,
que administrava o barco com fria eficincia e s tinha boas
maneiras para com Rubensohn ou Lisette. McCreary

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considerava-o um ambicioso, dos que no escolhem os meios para
atingir os fins.
Janzoon, por seu lado, esforava-se por reatar relaes com
ele. Na tarde do primeiro dia, desculpou-se desajeitadamente;
depois levou McCreary at  ponte de comando e fez-lhe uma
preleco, como se faz a um turista, sobre o equipamento;
depois convidou-o a ir ao seu camarote, serviu-lhe uma dose
dupla de usque com soda e, falando sagaz e comedidamente,
sondou-o sobre uma possvel aliana.
- Acho que j est a perceber como so as coisas aqui, hem?
McCreary encolheu os ombros e sorriu-lhe por cima
do copo.
- Estou a aprender. Uma coisa aqui, outra ali, compreende...
- Claro que compreendo - disse Janzoon. - A gente aprende que
o grande homem faz o que quer e no d cavaco a ningum. E 
ciumento do seu orgulho e da sua pequena. A que mais liga
ele?
- A mais nada.
- Exacto! - disse Janzoon com voz grossa e enftica. Portanto, voc faz aquilo que lhe pagam para fazer e, no tempo
que sobra, um negociozinho  parte,  ou no ?
McCreary fez uma careta de pesar.
- Nunca fui bom comerciante, Janzoon. Se fosse, teria agora
muito mais dinheiro. O meu bisav foi negociante de cavalos
l em Kerry, mas infelizmente eu no herdei essa habilidade.
O enorme punho de Janzoon gesticulou no espao, afastando o
argumento.
- No  preciso habilidade, somente prtica. Olhe, vou-lhe
mostrar.
Levantou-se e abriu um armrio por trs da cadeira de
McCreary. Tirou da prateleira de cima uma meia dzia de maos
de notas e brandiu-as sob o nariz de McCreary.
- Sabe o que  isto?

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- Dinheiro - respondeu McCreary - Conheo-o pelo
cheiro.
-- Papel! - declarou Janzoon com um desdm turbulento -, a menos
que saiba onde o gastar. Rupias indonsias. No chegariam
nem para um copo de cerveja em Singapura. Em Londres s
serviriam para limpar o traseiro. Mas l nas ilhas pode
comprar ouro e jade com elas, se souber onde procurar, e
diamantes trazidos pelos rios do interior. Com essas coisas
consegue-se dlares garantidos ou francos suos.  assim que
se faz.
- Eu sei - disse McCreary -, mas no vejo para que quer um
scio. Alm do mais, o meu compromisso com Rubensohn  por
muito pouco tempo. Assim que
terminar, vou-me embora.
Janzoon inclinou-se. A sua voz baixou para um sussurro
confidencial e bateu com o dedo rolio no joelho de McCreary.
- Por que razo pensa que eu lhe falei do mercado e das
oportunidades que se tem aqui? Para lhe mostrar por que deve
ficar.
- Depende de Rubensohn, no ?
- Depende de si - disse Janzoon com nfase.
- Rubensohn precisa de quem o ajude. Ele no confessa, mas
precisa. Se ele verificar que voc age da maneira que ele
quer, ficando calado e mantendo-se afastado da rapariga, no
h nada que voce no possa obter. Acredite em mim, McCreary!
Ergueu-se de novo; desta vez trouxe do armrio um saco de
camura maior do que o seu punho e despejou o contedo sobre a
mesa. McCreary viu uma miscelnea de pedras, lapidadas e em
bruto, faiscando sob o raio de sol que se escoava da
escotilha. Janzoon segurou-as nas mos e depois deixou-as
escorregar lentamente para a mesa.
- Ainda tenho mais dois sacos destes, obtidos numa nica
viagem. Lucro de cem por cento por comprar pechinchas nos
bazares e especular margem de lucro no mercado de dinheiro.

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- Ento por que  que quer dividir comigo?
Janzoon no se atrapalhou com a pergunta, como se estivesse 
espera de a ouvir, pensou McCreary. Respondeu
arrebatadamente:
- Porque dois homens juntos valem por trs ou quatro.  tudo
uma questo de tempo. Sou comandante de navio. O tempo a que
tenho direito para permanecer nos portos a tratar de assuntos
particulares  metade do de um oficial comum ou de um marujo.
Tendo algum como voce com liberdade de aco para estabelecer
contactos, podemos conseguir grandes negcios. Mesmo muito
grandes.
McCreary sorriu satisfeito e serviu-se de outra dose de usque
do comandante.
- Gostei da ideia, Janzoon, mas no percebo COMO vou arranjar
tempo para negcios quando devo estar a fazer perfuraes.
- Para conseguir petrleo, gastar uns dois ou trs meses.
Depois far o que decidir.
- Vou pensar nisso - declarou McCreary cordialmente. - Vou
pensar com muita ateno. Obrigado pela sugesto.
- De nada - disse Janzoon. - A ajuda  mtua. Sade!
- Sade!
Beberam juntos como um par de conspiradores, e McCreary saiu
para o convs, onde o sol estava abrasador, com duas novas
ideias a zumbir na cabea. A primeira era que Rubensohn
estava a tentar, por intermdio de Janzoon, conquistar a sua
simpatia para o tornar membro permanente do clube. Aquela
conversa sobre dinheiro fcil era pouco natural e no estava
de acordo com a ndole dos dois homens. A segunda, e mais
importante, era que aquela aventura petrolfera representava
um projecto de curta durao - seis semanas, dois ou trs
meses no mximo. S isso era motivo para desconfiana. No
era assim que se fazia. O petrleo era um negcio de vulto,
um negcio em expanso.

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Abria-se um poo, depois perfuravam-se outros. Comeava-se a
expandir as propriedades e a desobstruir novas reas.
Pensava-se em termos de oleodutos e armazenagem de reservas,
de contactos com petroleiros e ancoradouros, de proteco
poltica e questes de capital. O petrleo era um negcio
para uma vida inteira, mesmo para as empresas aventureiras.
Entretanto, ali falava-se era de abrir um poo dentro de dois
meses, e depois regatear moedas e pedras nos bazares dos
portos. No fazia sentido. Ou ser que fazia?
Encostou-se  amurada e ficou a contemplar longamente o rasto
de espuma e o bater da gua contra o casco do Corsrio. Achou
que no lhe davam o seu verdadeiro valor. Era um irlands
obstinado com sede de viagens e uma preferncia pelo lado mais
agradvel da vida e do amor. No o comprariam com umas
quantas notas sujas. Ele via to longe como os outros.
Comeava agora a compreender por que tinham matado o capito
Nasa.
Atirou o cigarro por cima da amurada e observou-o a rodopiar
nas guas esverdeadas e na espuma branca. Lentamente,
caminhou para a popa do barco a fim de se reunir a Rubensohn e
a Lisette sob o toldo.
Para sua surpresa, Lisette estava s, sentada numa
chaise-longue s riscas, a folhear uma revista. Os seus olhos
estavam encobertos por uns elegantes culos escuros.
Instalou-se confortavelmente na poltrona ao lado e indagou em
tom despreocupado:
- Onde est Rubensohn?
Sem levantar a cabea da revista, ela respondeu
inexpressivamente:
- Foi para o camarote. Achou que o calor era demasiado.
Disse que ia descansar at  hora do jantar.
- Optimo. Assim podemos conversar um bocado.
- S por um instante. Eu tambm vou descer.
- Escute! - a sua voz denotava insistncia e raiva. - J
ensaimos esse texto, lembra-se? Conheo o dilogo de cor. J
estamos no segundo acto, cenrio novo,

52

aco nova, complicaes novas. Voc toma parte nele, quer
queira quer no.
- J lho tinha dito, McCreary. No estou interessada. No me
quero comprometer. Sabe bem porqu.
-  fantstico, querida - disse McCreary suavemente.
Pela reaco dela, parecia que lhe tinha acabado de dizer as
horas. Tranquilamente, ela virou outra pgina da revista e
continuou a olhar para as fotografias e para as legendas.
Disse simplesmente:
- Seja o que for,  coisa que no me diz respeito.
- Escute, Lisette. Ontem  noite... - Foi um momento de loucura que 
melhor esquecer. - Voc disse que eu era um tolo e...
- E agora descobriu que  verdade? Por favor, no me inclua nas
suas loucuras. Agora, McCreary, vai-se embora daqui ou vou
eu?
- Eu vou. - Levantou-se da cadeira e ficou um instante a
contempl-la. O tom spero da sua voz denotava decepo e
frustrao: - Passou por maus bocados, Lisette, e tem medo de
perder o pouco que conseguiu. Mas ainda vai ter bocados
piores pela frente e ver que ento Rubensohn no lhe dar
nenhuma ajuda. Ele atir-la- s feras e ainda ficar a
assistir ao espectculo. Ento lembrar-se- do que eu disse.
Estou a tentar ajud-la, mas no o conseguirei se no contar
com a sua colaborao.
Pela primeira vez, ela tirou os culos escuros, e ele viu como
os seus olhos estavam sombrios e rebeldes. Fitou-o por algum
tempo e balouou a cabea lentamente.
- Ningum o pode ajudar, McCreary. Nem a mim, sequer.
Estamos ambos perdidos. A nica diferena entre ns  que eu
sei isso e voc no. Agora deixe-me em Paz, pelo amor de
Deus!
Ele girou sobre os calcanhares e saiu a praguejar em voz
baixa. Ela viu-o percorrer rapidamente o convs e galgar a
escada que conduzia  cabina do radiotelegrafista. A revista
caiu-lhe das mos e ela continuou sentada

53

por muito tempo, paralisada e de olhar fixo, enquanto o
calor lhe fugia do corpo dourado e o frio comeava a
envolver-lhe o corao assustado.
Guido, o telegrafista de bordo, estava confortavelmente
sentado  espera do boletim da rdio de Singapura. Quando
McCreary introduziu a cabea na cabina, ergueu os olhos e o
rosto trigueiro abriu-se-lhe num sorriso de boas-vindas.
- Entre, amico! Entre! S'accomodi! Esteja  vontade. Aceita uma bebida?
- No  m ideia, Guido - e McCreary sentou-se no beliche
enquanto o outro abria uma garrafa de Pilsener e enchia um
copo. - No est muito ocupado?
- Ocupado? - Guido gesticulou exageradamente e pegou noutra
garrafa de Pilsener. - Nada de importncia... o noticirio em
ingls transmitido de Singapura. Depois no h mais nada a
no ser o boletim meteorolgico das sete e a confirmao s
onze. A menos que algum queira telegrafar ou telefonar 
namorada.
- Eu no - disse McCreary com convico. Desisti disso.
Salute, Guido!
- O que  que disse? - Guido estava to espantado com o que
tinha ouvido que se esqueceu de corresponder ao brinde. O
copo de cerveja parara no ar, a meio caminho dos lbios. Desistiu das mulheres?! Impossvel. Isso no  normal. J
tentei. No resulta. A nica maneira de me poupar 
embarcar. Mas, mesmo aqui, tenho de me lembrar que ainda sou
um homem. Veja!
McCreary virou-se e admirou a dupla fileira de fotografias de
artistas de cinema com seios volumosos coladas no tabique aos
ps do beliche.
- Gosta?
- Assim, pelo menos, no do tantas dores de cabea - comentou McCreary pesarosamente.
- Menos dores de cabea sim, mas tambm menos prazer. Non 
vero?
McCreary soltou uma gargalhada. Depois do duelo

54

com Lisette, a obscenidade cmica do pequeno napolitano era
uma mudana refrescante.
Guido inclinou a cabea e olhou para ele como um papagaio
curioso. Intencionalmente, indicou com o polegar o convs de
r.
- Por falar em mulheres, essa que a est... que acha dela?
- Fria - disse McCreary com convico. - Fria como um peixe.
No vale a pena.
Guido concordou vigorosamente com a cabea e esfregou a ponta
do polegar na do indicador no gesto que significa "dinheiro".
-  a nica coisa que as aquece, amico. Por isso  que no
servem para tipos como eu ou voc, que apreciamos um pouco de
amor sincero, sem termos de pagar por cada beijo e cada gesto.
Tinha uma mida l em Reggio que...
- Talvez... - cortou McCreary rapidamente. Talvez pudssemos
ouvir as notcias de Singapura, hem?
- Claro, claro! Vou passar para o altifalante.
- ptimo.
Guido ligou o interruptor e uns minutos depois ouviu-se a voz
do locutor:
"... e no se registaram manifestaes estudantis. Um ltimo
comunicado do nosso correspondente em Jacarta refere que as
autoridades policiais indonsias esto a tentar localizar um
antigo empregado de uma companhia petrolfera, Michael
Aloysius McCreary, implicado no assassnio de um oficial da
Polcia de Jacarta. McCreary, que devia ser extraditado por
causa de uma infraco cometida na zona de Pakanbaru, foi dado
como desaparecido. Est a ser feita uma busca contnua no
aeroporto e nas docas, a fim de evitar que McCreary abandone o
pas... "
McCreary adiantou-se e desligou o aparelho, calando o locutor.
Guido olhou para ele.

55

-  de si que esto a falar, hem?
- Eu prprio, Guido.
- Matou um "chui", hem? Caramba! - No fundo, metade da
populao de Npoles tem uma grande admirao por bandidos, e
os olhos de Guido arregalaram-se. - Que aconteceu, amico? Ele
roubou-lhe a namorada
ou qu?
- Eu no o matei, Guido.
- Voc l sabe, compar!  um assunto exclusivamente seu. Pode
confiar no Guido.
McCreary virou-se subitamente e encarou-o.
- Posso mesmo? ptimo! Posso confiar em si para no contar a
ningum o que acabou de ouvir, por uns dois dias?
- Confiar em mim? Senz'altro! Podia at jurar pelas cinzas da
minha me, se soubesse quem ela foi.
- Basta-me a sua palavra, Guido - disse McCreary com um
sorriso. - Mas repito que no fui eu quem o
matou.
Levantou-se e bateu com o punho fechado na palma da outra mo.
Agora estava de facto em maus lenis. O seu nome seria
transmitido a todas as esquadras de Polcia do Oriente como o
de um criminoso. Quisesse ou no, tinha passado a fazer parte
do "Clube dos Prias". Estava na altura de aprender o
regulamento e comear a segui-lo  risca.

5

Na manh do terceiro dia, Rubensohn chamou McCreary ao seu
camarote. O comandante j l estava, assim como Lisette.
Rubensohn estava debruado sobre
um mapa estendido na mesa.
Cumprimentou-o efusivamente e apontou para o mapa.
- O grande dia das revelaes, McCreary. Chegue-se para aqui e veja.
Curvaram-se os trs sobre o mapa, enquanto Rubensohn indicava
o percurso da ltima parte da viagem. Na sua voz havia um
ligeiro tom de triunfo.
- Neste momento estamos aqui, Sulawesi a norte, Sumbawa
bastante para o sul. A nossa frente, esta ilha comprida aqui,
est Selajar, que  a entrada para o mar de Banda. O
comandante Janzoon informou-me que chegaremos  extremidade
sul l para o meio-dia de hoje. Por aqui... - avanou o dedo
ligeiramente para norte, seguindo uma linha que se afastava do
amontoado de ilhas na extremidade sul de Sulawesi, parando
quase no centro do mar de Banda; com um lpis, fez um crculo
 volta dessa rea; McCreary viu que era um pequeno
arquiplago em cujo centro havia uma ilha um pouco maior e
tentou ler a caligrafia minscula do mapa, mas Rubensohn
adiantou-lhe o nome -... chegamos ao nosso destino, a ilha de
Karang Sharo.
- Fica bastante afastada de tudo - observou
McCreary.

57

- Uma vantagem que no me passou despercebida - replicou
Rubensohn. - Tecnicamente, a ilha  territrio indonsio.
Para todos os efeitos prticos,  controlada por um sulto
hereditrio cujo poder  absoluto em Karang Sharo e nas ilhas
circunvizinhas.
- Foi aqui que fizeram aquele levantamento?
- Exactamente.
- Como soube que l havia petrleo?
Rubensohn respondeu sem hesitar:
- Devo-o ao comandante Janzoon. L pela dcada de trinta, a
ilha tinha sido classificada como zona de pesquisas
prometedora pela Bataafsche Petroleum Maatshappij. Com a
ecloso da guerra e o posterior cancelamento do alvar da
Bataafsche por parte da Repblica Indonsia, nada mais foi
feito. O caso foi arquivado e esquecido. Quando Janzoon
chamou a minha ateno para isso, fiz uma proposta ao sulto,
obtive a sua permisso para um levantamento e depois consegui
a concesso, em bases bastante favorveis, do Governo de
Jacarta.
- Essa parte interessa-me bastante - disse McCreary
serenamente. - Como conseguiu isso? No se esquea de que eu
sou um homem do petrleo e sei como  difcil, mesmo para as
grandes empresas, ampliar as suas concesses.
- Questo de prestgio, McCreary. Amigos poderosos, sabe como
.
- Sei - disse McCreary despreocupadamente.
Foi de facto uma pergunta idiota. A propsito, e como 
o porto nesse lugar?
Rubensohn observava-o e replicou num tom suspeito: - Por que 
- que pergunta?
McCreary encolheu os ombros.
- Estava a pensar no futuro: instalaes na praia, tanques
para armazenamento, ancoradouro para petroleiros. Bombear
petrleo  uma coisa. Mas ele tem depois de ser transportado
para ser colocado no mercado. Num lugar destes, no fim do
mundo,  uma questo de suma importncia.

58

Rubensohn franziu o sobrolho e disse categoricamente:
- O problema no  seu nem meu. A nossa tarefa  cavar um
poo.
- Depois passa-o adiante como um negcio em pleno funcionamento,
hem?
- Voc  esperto -- disse Rubensohn. - Mesmo muito esperto.
Parece que escolhemos o homem certo, hem, Janzoon?
Janzoon soltou uma gargalhada asmtica e bateu com o enorme
punho no ombro de McCreary.
- Foi o que eu disse assim que o vi, no foi, Rubensohn? Bom
tipo, inteligente e com viso.
- Gosto de saber com que linhas me coso - disse McCreary com
naturalidade. - Quem  o comprador, Rubensohn?  evidente que
deve ter um. De contrrio no estaria a ter todo este trabalho. #
Rubensohn deixou de sorrir. Os seus lbios estavam
comprimidos. Os olhos restavam sem expresso e enevoados como
os de um pssaro. A raiva tornou a sua voz de morcego ainda
mais estridente.
- Isso  comigo, McCreary.
- No! - a palavra saiu-lhe cortante como uma chicotada. Tambm me diz respeito, Rubensohn. Quero saber.
Janzoon ficou boquiaberto. Os olhos de Lisette dilataram-se
de espanto.
Rubensohn e McCreary olharam-se sem sorrir, tensos, por cima
da mesa. Finalmente Rubensohn falou. As palavras saam-lhe
cuidadosa e deliberadamente calculadas como se fossem fichas
numa mesa de jogo.
- Voc  um perfurador, McCreary.  pago para escavar o solo.
O controlo de qualquer empresa  mantido pelos accionistas e
directores. Se tem outras ideias a esse respeito, gostaria de
as ouvir agora.
- Est bem. Vou diz-las. Voc contratou-me como perfurador.
Eu fazia o meu servio e voc pagava. No se faziam
perguntas. ptimo! Acontece que entretanto me encarregou de
outro servio que no fazia de maneira

59

nenhuma parte da combinao. Na minha opinio, preciso de
um novo contrato.
- No compreendo o que est a querer insinuar.
- Quer que eu me explique aqui - perguntou serenamente
McCreary - ou prefere que o faa em particular?
- Aqui, neste instante.
- Pois bem! Quem lhe conseguiu a concesso em Jacarta foi o
capito Nasa. No sei quais os documentos que ele arranjou,
nem sei se tm algum valor, mas acredito que valham o
suficiente para voc trespassar o negcio e desaparecer. Nasa
tentou elevar o preo e voc acabou por envenen-lo. Levei-o
para fora do navio e ele morreu nos meus braos. Deixei-o
debaixo de uma figueira, mais ou menos a um quilmetro do
cais. Para terminar, a Rdio de Singapura citou o meu nome
como suspeito do assassnio. Isto no me agrada. No gosto
de me ver na mira do cano de uma espingarda como um incauto.
Acho que deve rasgar o contrato actual e redigir um novo.
Os olhos de Rubensohn no tinham, nem por um segundo,
abandonado o rosto de McCreary.
- Saia, Lisette! Espere no convs que eu a mande chamar - ordenou ele.
Ela saiu rapidamente. McCreary abriu-lhe a porta e fechou-a
depois de ela passar. Quando se virou, viu que Rubensohn
empunhava uma arma. O cano parecia um olho preto, imvel,
fixando o seu corao. Rubensohn sorria apaticamente.
- Agora est na mira de uma espingarda, McCreary. A morte
est muito prxima de si. Tem mais alguma coisa a declarar?
McCreary sorriu com desdm. Pegou num cigarro, bateu uma das
pontas na unha do polegar e acendeu-o com o isqueiro de Nasa.
Atirou uma baforada de fumo para o rosto de Rubensohn e
murmurou:
- Guarde isso, homem, e falemos de negcios. Cometeu um erro.
Por que no o reconhece e comeamos tudo de novo?

60

- E se eu no concordar?
- Bem, provavelmente, rebentar-me- os miolos. Mas... - e
apontou para o mapa - ter de procurar muito para encontrar um
novo perfurador.
Janzoon limpou o rosto com o leno e disse resolutamente:
- Ele tem razo, Rubensohn. Precisamos dele, de contrrio os
nossos planos sero prejudicados. Que mal h em conversarmos?
Lenta, muito lentamente, a tenso foi-se atenuando. Rubensohn
ps a arma sobre a mesa e sentou-se numa cadeira. Janzoon
tambm se sentou e, finalmente, McCreary fez o mesmo.
Recostaram-se, as mos nas bordas da mesa e os olhos baixos,
cada um  espera que o outro mostrasse o jogo. Janzoon foi o
primeiro a falar. A sua voz grossa denunciava insegurana e
embarao, mas por fim conseguiu pronunciar as palavras:
- E se McCreary nos dissesse o que pretende? Podemos partir
da.
- Est bem. Fale, McCreary.
McCreary fumou placidamente por uns instantes e depois
comeou:
- Em primeiro lugar, quero estar inteiramente a par do
projecto, ver os documentos da concesso e examinar toda a
correspondncia trocada. Assim, passaro a saber que no
estou a trabalhar s escuras. Depois, quero fazer parte da
sociedade ou empresa que existe para controlar a concesso e o
seu funcionamento.
- Quanto? - perguntou Rubensohn, positivo.
- Quanto  que Janzoon vai receber?
- Vinte por cento.
- Eu quero trinta - declarou McCreary Jovialmente. - Mesmo
assim, voc ter a maioria, Rubensohn.
- Mais alguma coisa?
- Sim. Quero participar em todas as negociaes de vendas e
retirar a minha parte directamente dos compradores.
- Como  que pensa impor as suas exigncias?

61

McCreary ergueu os ombros e abriu as mos num gesto eloquente.
- Faclimo. Se no concordar, no ter o seu petrleo. Se me
tentar ludibriar, contarei aos compradores uma certa histria
sobre um polcia que foi subornado e mais tarde assassinado.
Podem no acreditar logo de incio, mas ficaro alerta e faro investigaes junto do ministrio, em Jacarta. A vero ento que voc no tinha
nada para lhes vender - e sorriu amavelmente por trs do fumo.
- Acho que isso no lhes convm.
A boca vermelha de Rubensohn retorceu-se num sorriso forado.
- Muito bem, McCreary. Mas esqueceu-se de um pormenor: voc 
um fugitivo. Est a ser procurado por
assassnio.
- Tambm voc - replicou McCreary calmamente - embora seja
talvez mais difcil prov-lo.
- Isto  de mais! - explodiu
Janzoon na sua voz gutural. - Ele chegou depois de mim e s
com uma ameaa j quer receber mais do que eu ... eu que...
- Cale-se, Janzoon! - O tom peremptrio de Rubensohn
interrompeu-o bruscamente. - McCreary sabe negociar. Sabe que
se deve pedir sempre mais do que o que se est disposto a
receber. Digamos vinte por cento, McCreary, e estamos
conversados.
- Digamos vinte e cinco por cento e esquecer-me-ei do prejuzo
grave que foi causado  minha reputao.
- No! - Janzoon esticou a cabea, enraivecido.
- Negcio fechado - disse Rubensohn. - As aces no so suas,
Janzoon, so minhas.
Janzoon retomou hostilmente o silncio.
- Vou ter todas as informaes e ver os documentos?
Rubensohn concordou com a cabea:
- Vou dar-lhe uma pasta cheia deles. Pode examin-los com calma.
- Como  da praxe, vamos passar para o papel o que ficou
combinado, no ?

62

- Sim, antes de atracarmos em Karang Sharo. Mais
alguma coisa?
- No. Creio que est tudo.
- Bem - disse Rubensohn animadamente. - Agora vamos ento
conversar sobre o que nos trouxe aqui. O que ir acontecer
quando chegarmos  ilha.
Enquanto Rubensohn prosseguia nos detalhes da aco a ser
levada a cabo, McCreary escutava com apenas parte da sua
ateno. A outra estava tomada por uma pergunta que o
intrigava e preocupava: por que  que Rubensohn lhe entregava
com tanta facilidade uma fortuna, quando tinha poderes para o
destruir?
O prprio Janzoon parecia no conhecer a resposta, pois at ao
fim da reunio permaneceu carrancudo, de olhos baixos, sem
dirigir uma nica palavra a McCreary.
Rubensohn, porm, tinha muito a dizer. O seu relato foi
animado, conciso, e estritamente comercial. McCreary, embora
com relutncia, no pde deixar de lhe admirar a exposio
ponderada e a estratgia cheia de imaginao.
- Em primeiro lugar, a nossa concesso foi fornecida pelo
Governo indonsio. Como McCreary astutamente salientou,
trata-se de um documento dbio, arrancado  fora a um oficial
sobre quem o capito Nasa possua um dossier comprometedor.
No obstante,  autntico, embora eu suspeite de que o
ministrio ignore a sua existncia. Quem o emitiu preferir
esquec-lo por algum tempo e no o reconhecer quando o
assunto vier  baila; nessa altura, j estaremos com o nosso
lucro no bolso, e deixaremos os problemas legais para os que
nos sucederem. O nosso problema imediato  com o sulto de
Karang Sharo. Como j disse, ele tem autoridade absoluta
sobre o seu territrio. Mesmo que os de Jacarta quisessem,
no o conseguiriam controlar. J lhes basta o trabalho que os
rebeldes em Sulawesi lhes esto a dar; isso chega para os
manter ocupados durante os prximos dez anos.
"A primeira vez que visitei a ilha, encontrei grande

63

receptividade da parte do sulto. Mediante certa quantia,
estava disposto a dar-nos uma concesso e a conseguir-nos
mo-de-obra. Considerando o valor da concesso, o preo
pedido era nfimo e infantil: jias, rdios, vrias novidades
europias, at mesmo um pequeno automvel, embora na ilha
quase no haja uma estrada onde ele possa ser utilizado.
"O aspecto mais importante  que ele  um dspota primitivo.
Temos de nos aproximar dele cerimoniosamente, como
estrangeiros que prestam tributo a um homem cujo ttulo 
"Umbigo do Universo". Faremos assim mesmo. To bem quanto
nos for possvel. Receb-lo-emos a bordo e, por sua vez, ele
receber-nos- no seu palcio. Mais tarde, vamos tentar obter
dele um documento com a chancela do palcio, dando-nos uma
concesso em seu nome. Se tivermos sorte, poderemos, ento,
comear a trabalhar".
- Quanto tempo espera que dure essa fase preliminar?
- Um dia ou dois, no mximo. Em seguida voce poder iniciar a descarga
do material e instalar um acampamento permanente. A
propsito, entre os documentos que lhe vou entregar est uma
relao completa do equipamento e dos materiais. Quando tiver
tempo, confira-a. Foi feita cuidadosamente, com a ajuda de
peritos. Acho que encontrar l tudo o que precisa.
- Acredito que sim - disse McCreary em tom de cumprimento. - Comeamos ento a trabalhar e esperamos perfurar um poo.
- Quando chegar o comprador, e de onde?
- O comprador  Scott Morrison. Conhece-o?
McCreary assobiou. Scott Morrison era um nome sobejamente
conhecido no mercado independente do petrleo. Era um mero
especulador, sempre de olho nos pequenos concessionrios,
pronto a entrar, no momento exacto, num negcio de pequeno
capital mas muito prometedor. Adquiria-o  nascena, elevava
o financiamento, levantava o mercado e partia de novo, com uma
operao triplamente lucrativa e sem arriscar mais do

64

que o capital inicial. E as probabilidades estavam sempre do
seu lado. Tinha os melhores assessores que podia comprar e o
melhor faro para o negcio no ramo.
McCreary riu entre dentes e Rubensohn franziu o sobrolho,
irritado.
- Qual  a piada, McCreary?
- Morrison tambm  um pirata, no ? J fez das suas. Sempre
quero ver como  que voce se vai arranjar.
- Como  que nos vamos arranjar - corrigiu rapidamente
Rubensohn. - Agora somos scios, McCreary, no se lembra?
- Sim, no me esqueci. S estou a divertir-me com a piada
enquanto posso. Mais tarde vai perder a graa.
- Ainda bem que compreende.
- Onde est Morrison agora? Quando  que
aparece?
- Est a navegar - disse Rubensohn. - Taiti, Bougainville,
Numeia, Sidney. Depois aportar na Nova Guin para
inspeccionar uma operao em Fly River. Ele insiste em fazer
as inspeces pessoalmente.  por isso que precisamos de ter
alguma coisa para lhe mostrar.
McCreary fez uma careta.
- Ele  esperto. Se eu estivesse no lugar dele, faria o
mesmo. Acha que ele ir aceitar os seus documentos de Jacarta
pelo seu valor nominal?
- Basta cheirar-lhe a petrleo para aceitar at concesses
escritas em papel higinico. Alm disso, s o facto de
estarmos a trabalhar abertamente ser prova suficiente da
nossa boa-f. Seja como for - e a boca papuda de Rubensohn
sorriu com uma satisfao sardnica -, eu dava tudo para ver a
cara dele quando o Governo indonsio o expulsar da ilha.
- Parece que no simpatiza muito com ele.
- J tive negcios com ele antes deste - disse Rubensohn,
sombrio. - H dez anos, quando eu estava a lutar para
conseguir um financiamento, ele ps-me fora do seu escritrio.
Esperei bastante para me desforrar, e acho que chegou a
altura. Depende de si, McCreary.

65

- Ainda bem que me disse - murmurou McCreary. - Isso deixa-me mais satisfeito.
Rubensohn olhou-o fria e pensativamente. Pegou no revlver
que estava sobre a mesa e reteve-o por instantes, frouxamente,
entre as mos, depois voltou a coloc-lo no bolso. O tom da
sua voz era estudadamente calmo:
- Sabe dar bem as cartas, McCreary. No vou regate-las. Mas
no eleve de mais as apostas. Pode ser perigoso.
McCreary encolheu os ombros com naturalidade.
- Sou um homem modesto, Rubensohn. Contento-me com pouco. Desde que no me incomodem.
Mas, durante todo aquele tempo, os terrveis demnios
irlandeses riam furtivamente dentro dele; pensou: "Se tu
soubesses, Rubensohn, como as minhas apostas so altas! "

6

McCreary passou as duas horas seguintes no seu camarote,
examinando uma pasta cheia de documentos e correspondncia que
Rubensohn lhe tinha entregado. Na correspondncia, poucas
novidades encontrou. Scott Morrison estava interessado em
comprar um campo petrolfero em Karang Sharo, para o explorar,
desde que a primeira perfurao fosse bem sucedida.
Tinham-lhe garantido que seria apresentada toda a documentao
e tinham combinado uma data aproximada para um encontro no
prprio local.
O que mais interessou McCreary foi o facto de Rubensohn no
ter assinado nenhum documento. Tinha sido tudo remetido por
um tal Joo da Silva, director-geral da Southeast Asia Mineral
Research Ltd., com residncia em Singapura. Rubensohn tivera
a preocupao de incluir uma cpia do memorando e estatutos
dessa companhia, nos quais constava que tinha sido constituda
em Singapura doze meses antes e que os seus directores eram
John Mortimer Stavey, Wilhelm Kornelis Janzoon e Joo da
Silva, cada um deles com igual nmero de aces de um capital
registado como totalizando cinquenta mil libras esterlinas.
De Rubensohn nunca se falava. Mas isso no significava nada
por enquanto. Os nomes eram um pr-forma utilizado pelos
advogados nas formalidades de constituio de firmas. A
informao do valor real estaria contida

67

na relao dos directores e no registo dos accionistas, mas
disso no havia a menor indicao.
O documento seguinte era bastante mais valioso: era a prova da
confiana de Rubensohn e denunciava a sua necessidade de uma
rpida resoluo. Era um documento de venda, onde a Southeast
Asia Mineral Research Ltd., constava como vendedora e a Scott
Morrison Enterprises como compradora. Permitia a venda
conjunta da concesso petrolfera de Karang Sharo, bem como de
todas as instalaes previstas  altura da assinatura. Tinham
deixado espao para incluir a contabilidade e tanto o
documento como esse espao reservado tinham sido assinados, em
nome da companhia, por Joo da Silva, tendo como testemunha
Elisabeth Mary Gonzales. Havia tambm outro espao em branco
para a assinatura, no dia da transaco, de um segundo
director, o qual, percebeu McCreary com interesse, seria
Janzoon e
no Rubensohn.
A clusula mais significativa do acordo era a ltima: a venda
seria efectivada pelo aviso telegrfico de que o cheque do
comprador tinha sido depositado e creditado na conta do
vendedor no Chase Manhattan Bank de Nova Iorque.
Uma vez conferidas as quantias, toda a transaco poderia ser
concluda naquele mesmo instante, enviando-se mensagens por
rdio para Nova Iorque, para confirmao e pagamento.
Posto isso, Rubensohn poderia levantar ncora e partir, mais
rico em vrios milhes de dlares, deixando a Morrison e aos
seus advogados uma batalha de dez anos com os meandros da lei
internacional e as responsabilidades de pessoas jurdicas
registadas em territrios estrangeiros. Mesmo assim, seriam
os signatrios a sofrer as consequncias e no Rubensohn. Era
de calcular que se considerassem bem pagos por esse risco.
Tratava-se de uma fraude em grande escala, mas tudo indicava
que Rubensohn a conseguiria levar a cabo.
Naturalmente, tudo dependia do documento final: a

68

concesso dada pela Repblica da Indonsia  companhia de Singapura- Era uma obra de quinze pginas em malaio, com uma
traduo em ingls autenticada, encadernada e carimbada com o
selo da repblica: o simblico pssaro garuda, com dezassete
penas nas suas asas estendidas e oito na cauda aberta.
No restavam dvidas quanto  autenticidade do documento em
si. O verdadeiro problema estava na sua origem e nas
assinaturas que se viam na parte inferior.
Qualquer funcionrio que tivesse acesso aos arquivos podia
elaborar um contrato fidedigno, rabiscar as assinaturas
necessrias e afixar o sinete governamental. Mas se lhe
faltasse autoridade para tal, as assinaturas e os sinetes no
teriam valor para ningum a no ser ele prprio. Aquele a
quem o vendesse arriscava toda a sua empresa num bocado de
papel sem valor.
A jogada de Rubensohn baseava-se, entretanto, em dois simples
factores psicolgicos. O primeiro era estar-se a trabalhar s
claras e com o consentimento pessoal do monarca local. Mesmo
o mais astuto dos advogados no poderia duvidar da legalidade
de tal facto. O segundo era o facto de todos os homens de
negcios duvidarem de todos os governos. Ofendem-se com as
restries que lhes so impostas pelos administradores e esto
sempre receosos dos fiscais e dos polticos. Quando lhes 
entregue um documento assinado, selado e legalizado,  com a
maior satisfao que o enfiam de vez nos arquivos.
McCreary sorriu com amarga admirao diante da audcia e da
astcia de Rubensohn. De facto, o homem era um pirata inteiramente amoral e destemido. E como a maioria dos da sua
laia, tanto podia acabar com uma bala nas costas como com uma
coleco de quadros e reputao de filantropo.
Pensando em balas, McCreary pensou em si e na sua vitria
demasiadamente fcil no camarote de Rubensohn. Recolocou
desordenadamente a papelada dentro da pasta, acendeu um
cigarro e estendeu-se no beliche a meditar sobre a sua
situao.

69

Tinha-se servido de um quarto do bolo de aniversrio, mas
fizera-se cmplice de uma aventura criminosa. Era o primeiro
mau gosto que sentia na boca. Levara sempre uma existncia
acidentada, lutara e amara, s vezes impensadamente, mas at
ento conseguira manter as mos limpas. Agora, encontrava-se
num dilema. Queria roubar a Rubensohn o dinheiro e a
rapariga. Mas parecia-lhe impossvel consegui-lo sem descer
ao nvel dele. No havia uma soluo imediata para o
problema, de modo que afastou o pensamento na esperana de que
o futuro lhe indicasse o caminho a seguir.
O problema seguinte j no foi posto de parte com tanta
facilidade. Precisava de encontrar um meio de continuar vivo.
At o poo ser cavado, ele estava a salvo, por ser
imprescindvel. Mas depois?... No s seria dispensvel, como
se tornaria tambm num risco permanente para Rubensohn e uma
despesa injustificada na sua contabilidade. Ficaria sozinho
numa ilha. A sua nica ligao com o exterior seria o prprio
barco de Rubensohn. Os seus nicos amigos... lembrou-se
ento de que no tinha amigos. Estava completamente
desenraizado, sem ningum que se interessasse em saber se
estava vivo ou morto.
Ainda pensava nisso quando a porta do camarote se abriu e
Lisette entrou.
Fechou a porta cuidadosamente e trancou-a. Aproximou-se dele
rapidamente e ficou de p junto ao beliche. Tinha as faces
lvidas, as mos tremiam-lhe e a sua voz era um misto de pavor
e raiva ao dizer com assombro:
- Por que  que fez isso, McCreary? No podia guardar para si
o que sabia e o que tinha acontecido? No v que ele nunca lhe
perdoar o que fez?
McCreary tirou o cigarro da boca e sorriu.
- Para lhe falar com franqueza, at achei que ele estava a ser
muito generoso. Deu-me a quarta parte dos lucros e posio de
director.
Os olhos de Lisette marejaram-se

70

de lgrimas. - Meu Deus! No vai deixar de fazer disparates? Ainda no
percebeu que tipo de homem  ele? Pode encher o seu colo de
dinheiro, os seus bolsos de diamantes, mas nunca lhe perdoar.
Ficar  espera do dia em que possa enfiar-lhe uma faca nas
costas e ainda a torcer at o ouvir gritar por misericrdia.
Mas da parte dele no haver nenhuma. Por que  que no ouviu
o meu pedido? Porqu? Porqu?
- Valha-me So Patrcio! - blasfemou McCreary com ternura. - Ento voc gosta de mim! Como  possvel gostar de um palhao
como eu? Gosta de mim!
Levantou-se da cama e ergueu-a nos braos. Ela agarrou-se a
ele desesperadamente e o seu corpo estremecia com profundos
soluos.
Ele manteve-a junto a si, roando-lhe os cabelos com os
lbios, afagando-a e reconfortando-a.
- Vamos, querida, chore se sente necessidade, mas no vamos
transformar aquele sapo horroroso do Rubensohn num elefante.
Ele no  Deus Todo-Poderoso, no controla a vida e a morte.
No h nada que ele nos possa fazer se tivermos coragem para
enfrent-lo.
Antes de ele acabar de pronunciar estas palavras, ela
afastou-o bruscamente, dizendo com impetuosidade, sem
conseguir refrear as lgrimas:
- No diga isso! J lhe disse que no o conhece como eu o
conheo. Veja! - e desabotoou a tnica chinesa de gola alta,
deixando-a cair dos ombros.
Com espanto e revolta, McCreary viu que as suas costas e os
seus seios estavam marcados com verges finos e salientes.
- Ele fez-me isto ontem  noite. Ria enquanto me batia.
Disse-me que era para eu saber que o meu corpo era para o seu
prazer e no para mostrar aos outros no convs. Est a ver
agora que tipo de homem  ele? Est a ver?
McCreary ficou a olhar para ela com compaixo e ternura.
Depois, sentiu um aperto no estmago e o dio subiu-lhe 
garganta, como se fosse blis. O seu olhar

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endureceu e a boca comprimiu-se-lhe. Muito suavemente,
curvou-se e beijou-lhe os ombros, ajeitou a tnica sobre eles
e abotoou-a, enquanto ela o observava com um olhar perturbado
e interrogativo. A seguir, ele f-la sentar-se no beliche,
falando-lhe com brandura e determinao, num tom de voz que
ela lhe desconhecia.
- Eu hei-de apanh-lo, Lisette. No agora, porque aqui neste
barco estou to indefeso como voc.  por isso que eu rio,
como e bebo ao lado dele e o deixo sonhar com o que vai fazer
de mim depois de eu deixar de lhe ser til. Mas um dia
apanho-o. Primeiro, fao-o em migalhas com pancada, depois
mato-o, por si.
Ela olhou-o com ternura e desalento e balouou a cabea.
- No o conseguir, McCreary. Outros j tentaram e todos
acabaram da mesma maneira. O dinheiro e o poder servem-lhe de
escudo.  poderoso de mais para ser atingido. Mat-lo-ia a si
antes de conseguir aproximar-se.
McCreary sorriu
- No conhece os irlandeses, minha querida. So uma raa
antiga e sinistra, com uma extraordinria capacidade de
resistncia. Viram o grande Herodes morrer infestado de
vermes nas entranhas. Viram Nero a soluar, implorando a um
escravo que o matasse, e o Lorde Protector da Inglaterra a ser
atirado  sepultura com repolhos e frutas podres. Um tipo
como Rubensohn pode ser comido por eles ao pequeno-almoo e
ainda os deixar com fome.
Levantou-a e beijou-a de novo, demorada e apaixonadamente, e
depois f-la limpar o rosto manchado de lgrimas para que
Rubensohn nada percebesse quando a mandasse chamar.
Depois de se compor, o seu rosto tinha a mesma expresso
vazia, de mscara, que exibia quando se encontraram pela
primeira vez, mas nos seus olhos havia calor e gratido.
Ele abriu a porta para ver se o caminho estava livre,

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f-la sair rapidamente e ficou a v-la afastar-se - uma
criatura pequena e rebelde, com verges nos ombros e as chagas
do mundo no corao.
O seu perfume pairava ainda no camarote e nas suas roupas mas
ele no se preocupou com isso. Deitou-se no beliche e com o
isqueiro do capito Nasa nas mos pensou em matar Rubensohn.
Logo a seguir ao almoo, quando todos menos o sentinela de
servio se tinham recolhido para fugir ao pior perodo de
calor, subiu  cabina do telgrafo para falar com Guido.
Encontrou o pequeno napolitano de cuecas, deitado no beliche,
com um copo de cerveja  altura da me, um cigarro na boca e
uma revista barata equilibrada nos joelhos.
Recebeu McCreary com um sorriso e um gesto teatral de
boas-vindas.
- Entre, amico. Beba uma cerveja! Sente-se e fique com uma
parte das minhas mulheres. De momento s tenha estas, mas
esto  sua disposio.
McCreary sorriu e arrancou-lhe a revista das mos. - Espere
at chegarmos a terra, Guido! Conheci muito boa gente que
enlouqueceu de tanto ler essas coisas.
- Mas eu no leio! - protestou Guido. - S olho, sonho e roo
as unhas.
McCreary sorriu e instalou-se na cadeira de Guido. Colocou os
ps no beliche, acendeu um cigarro e olhou para Guido com
interesse trocista.
- Mais algumas novidades de Singapura, Guido?
- Nenhuma - Guido sacudiu a cabea enfticamente. - Tenho
controlado todas as transmisses. Mas no disseram mais nada.
Ser que j descobriram o assassino?
- Duvido.
McCreary deitou alguns anis de fumo para o ar enquanto
estudava o passo seguinte. Precisava desesperadamente de
algum em quem pudesse confiar e o pequeno radiotelegrafista
parecia a pessoa mais indicada. Mas se cometesse um engano
estaria liquidado. No

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teria mais hipteses de sobreviver. Guido observava-o com olhos
vivos e inteligentes. Disse com argcia:
- Voc est num dilema, compar. Quer falar sobre um assunto mas
no tem a certeza de poder confiar no Guido, no ?
- Exactamente, Guido - respondeu McCreary serenamente. - Se eu
estiver enganado a seu respeito, posso considerar-me um homem
morto.
-  assim to grave?
- Se , Guido.
Guido ps os ps fora do beliche e sentou-se na borda do
mesmo. Falou com calma e rapidez, ilustrando com gestos
tipicamente latinos.
- Oua-me, amico. Vou-lhe explicar uma coisa. Voc sabe o que
eu sou: napoletano! J deve ter ouvido dizer que somos uns
mentirosos, uns aldrabes, que somos capazes de vender as
nossas prprias mes por um mao de cigarros. No  verdade.
Quando no gostamos de uma pessoa, sicuro!, procuramos tirar o
maior partido dela. Mas se algum  simptico passa a ser um
compar, um amigo. Dividimos com ele a nossa cama, a nossa
comida e o nosso vinho. Escondemos o amigo da Polcia ou de
um marido raivoso. Se ele se encontrar em perigo, ns
defendemo-lo. Tem de compreender isso. Para mim, voc 
simptico. No entra por aqui dentro com ares superiores como
muito boa gente. Entra com um sorriso. Bebe da minha
cerveja, eu fumo dos seus cigarros. Chama-me Guido. Acho que
pode confiar em
mim, no ?
- Obrigado, Guido - disse McCreary com sinceridade.
Contou-lhe ento tudo, desde o princpio em Pakanbaru at ao
que se passara momentos antes no seu camarote com Lisette.
Contou-lhe o que tencionava fazer e as dificuldades que iria
ter para o conseguir. Quando terminou, a fisionomia de Guido
estava contrada de raiva e os seus olhos escuros estavam
sombrios.
- Mamma mia! Che covo di ladri! Que bando de

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patifes! Voc est muito mais enrascado do que eu pensava. Pode
contar comigo para o que for preciso, j sabe.
- Por enquanto no h nada que possa ser feito, Guido. Fique
atento s mensagens da rdio e depois conte-me tudo. Tenho
trabalho  minha espera quando chegarmos a Karang Sharo. Mas
quero que se mantenha em contacto comigo e vigie Lisette.
Assim que puder, eu conto-lhe que voc est connosco.  pena
eu no ter uma arma.
A fisionomia de Guido iluminou-se imediatamente.
- Eu tenho uma arma, amico. Desde a guerra que no a uso, mas
trago-a sempre comigo, para o caso de encontrar a mida errada
na casa errada, sabe como .
Escorregou do beliche e ps-se a vasculhar uma mala velha at
encontrar uma automtica curta e grossa e dois carregadores
cheios. A arma estava cuidadosamente lubrificada. McCreary
experimentou o maquinismo, introduziu uma bala e puxou a
patilha de segurana. Colocou a arma no bolso das calas. Os
seus olhos brilhavam de gratido quando estendeu a mo a
Guido.
- Obrigado, Guido. No me esquecerei disto. Quando
esfolarmos Rubensohn, ter tambm o seu quinho.
Guido encolheu os ombros.
- No pense nisso. Trate bem de si e da rapariga.
Fez uma careta simptica e deu uma palmada a McCreary no
peito. -  para que saiba, amico! Nunca se sabe. Uma mulher
fria como aquela e sem mais nem menos transforma-se numa
"bomba"!
- Voc s diz disparates, Guido - Disse McCreary a rir.
Empurrou-o de novo para dentro do beliche e saiu para o calor
brutal dos trpicos. Ficou algum tempo debruado na amurada,
a contemplar a corcova verdejante de Selajar que se afastava
para oeste.
Sentia-se melhor. As perspectivas no eram j to sombrias.
Tinha aliados - Guido e Lisette -, e ao enfiar a mo no bolso
sentiu com alvio a arma.

7

Na vspera do dia em que deviam chegar a Karang Sharo,
Rubensohn convocou a sua equipa para uma conferncia nocturna.
Estavam presentes McCreary, Lisette, o comandante Janzoon, e
os oficiais de bordo - todos,  excepo do jovem Arturo, que
estava de guarda na ponte de comando. Sentaram-se em crculo
no convs posterior sob um cu de estrelas suaves e baixas.
Rubensohn estava expansivo. Mandou vir champanhe e cigarros e
falava com muito mais encanto e ponderao do que McCreary
podia esperar de um homem to grosseiro.
Depois de se certificar que estavam todos  vontade entre si e
com ele prprio, entrou, animado, no assunto.
- Meus senhores, amanh desembarcaremos em Karang Sharo.
Devemos l ficar durante algum tempo, talvez seis semanas,
possivelmente oito. Vocs participaro todos no trabalho que
vamos realizar. Tero a seu cargo a responsabilidade de
manter boas relaes com os nativos e, atravs deles, com o
seu governante. Agora... - Rubensohn fez um largo gesto com o
charuto e os outros curvaram-se atentamente na sua direco.
Vamos ancorar ao largo, pois no existem instalaes
porturias. Temos cinquenta toneladas de equipamento para
descarregar: uma parte ir nos nossos prprios salva-vidas, o
restante ser transportado para terra em barcos que estaro 
nossa disposio.

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McCreary olhou-o penetrante. Era a primeira vez que ouvia
falar de um agente de Rubensohn na ilha. Rubensohn notou o
seu olhar interrogativo e sorriu. - Alguma pergunta, McCreary?
- No, no! Estava s a pensar - e McCreary ps de lado a
ironia - como  que vamos conseguir desembarcar dois
geradores, equipamento para bombear e seiscentos metros de
estruturas metlicas.
- Temos algum a tratar disso tudo para ns - disse Rubensohn.
- Chama-se Pedro Miranda.  um mestio portugus de Timor,
casado com uma rapariga de l. Tem uma espcie de entreposto
comercial em Karang Sharo. Fala um pouco de ingls e o
dialecto local e d-se bem com as autoridades do palcio.
Combinei com ele ser o nosso intrprete, intermedirio e
fornecedor de mo-de-obra. Se voc, McCreary, ou qualquer
outro tiver algum problema  com ele que devem falar,
entendido?
Houve um murmrio de aquiescncia no pequeno grupo.
Rubensohn prosseguiu. Na sua voz estridente havia um toque de
humor sardnico.
- Alguns de vocs j visitaram a ilha anteriormente. Sabem
que a populao  constituda por uma mistura de famlias que
emigraram de Bali, Lombok, Sulawesi e Ceram. As mulheres so
bonitas e os homens temperamentais. Sabem tambm que
quaisquer "arranjos" devero, para vossa prpria comodidade,
ser feitos por Miranda, e que as ofensas feitas ao cdigo de
famlia podero trazer consequncias desastrosas. Por esse
motivo, todos os que no forem europeus devero regressar ao
navio antes da meia-noite,  excepo dos que estiverem
destacados para trabalhar no acampamento com McCreary. A
presena de mulheres a bordo  terminantemente proibida. Isto
 um navio, e no um prostbulo. Caber ao oficial de guarda
zelar pelo cumprimento desta ordem. Qualquer transgresso
ser imediatamente Participada ao comandante.

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- A ordem abrange tambm os oficiais? - perguntou Alfieri na
sua voz fria e impertinente.
- Todos os oficiais - disse Rubensohn com energia. - Podem fazer
os "arranjos" que bem entenderem, desde que no seja a bordo, e
que isso os no impea de trabalhar no dia seguinte. Por
falar nisso, no temos mdico a bordo. Na ilha tambm no h.
A malria aqui  endmica, portanto antes de desembarcarem
todos recebero comprimidos de quinino e tanto o grupo da ilha
como o do navio usaro mosquiteiros  noite.
Observando-o  luz das estrelas, escutando as suas ordens
concisas e lgicas, McCreary no pde deixar de admirar mais
uma vez a sua capacidade de organizao e a sua estratgia.
Se era assim que tratava dos seus negcios, no era de admirar
que tivesse feito fortuna. Se planeasse com igual mincia uma
vingana, pobre daquele que tivesse em mira... A voz alta de
Rubensohn retomou o assunto.
- A nossa primeira tarefa  transportar o equipamento para a
ilha e instalar o acampamento no local onde McCreary ir
perfurar. Em seguida, temos de erguer a torre do poo de
petrleo, instalar os motores e os geradores e construir os
depsitos. Na ilha h mo-de-obra suficiente mas
inexperiente, de modo que voc, McCreary, poder recorrer ao
Agnello e ao pessoal da sala das mquinas para o ajudar no que
for preciso.
- A instalao  o que vai dar mais trabalho - disse McCreary. Uma vez montada, s necessitar da manuteno normal, a no
ser em caso de acidente, claro.
- Espero que no haja nenhum acidente - disse Rubensohn
friamente.
- Tambm eu - disse McCreary em tom brando. - Mas
eles acontecem e  bom estarmos prevenidos. Os motores
ficaro ligados dia e noite. Quero que Agnello os inspeccione
de trs em trs dias.
O florentino de cara de cavalo concordou com a cabea:
- De incio, acamparei consigo. Mais tarde, s irei

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l de quando em quando. A que distncia da praia fica o acampamento?
- Cinco quilmetros - disse McCreary. - Sempre que eu precisar
de alguma coisa do navio terei de mandar um mensageiro.
- Talvez eu lhe possa ser til - sugeriu Guido.
McCreary olhou para ele e compreendeu o seu sorriso luminoso e
um leve piscar de olhos.
- Como? - indagou Rubensohn.
- Tenho dois conjuntos sobressalentes de
transmissores-receptores. Um pode ficar a bordo ao meu
cuidado ou do oficial de guarda. Se McCreary precisar de
alguma coisa,  s comunicar connosco e trataremos do assunto.
Presto!
- ptima ideia - disse McCreary entusiasmado.
Era melhor do que ele podia imaginar. McCreary teria assim um
elemento de ligao com Guido e com Lisette, de quem ficaria
distante assim que comeasse a trabalhar. De momento, no
parecia muito importante, mas mais tarde a sua vida poderia
depender disso.
Rubensohn concordou e passou rapidamente  parte seguinte do
programa.
- Algumas formalidades, meus senhores. Devemos chegar  ilha s
dez horas da manh. Contamos com a visita a bordo do sulto e
da sua comitiva l para o meio-dia. Todos os oficiais e a
tripulao reunir-se-o para o receber. Para os oficiais,
uniforme de gala, para a tripulao, roupas limpas. O
comandante Janzoon ir ao encontro do sulto e conduzi-lo- ao
salo. Depois, ser servido um almoo no convs. Esta parte
fica ao seu cuidado, Alfieri: sero umas dez ou quinze pessoas
para alm do nosso pessoal. Aos visitantes ser servido
champanhe, aos outros sumo de frutas. - Sorriu, trocista, aos
presentes. - Isto  apenas o comeo. Teremos, tambm,
programa para essa noite; ao que me consta, seremos recebidos
no palcio: s os oficiais, mas cada um deles escolher um
elemento da tripulao para lhe servir de ajudante. Quero
dar-lhes uma impresso

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de grandeza.O navio ficar aos cuidados de um oficial de
guarda e ter uma tripulao reduzida na sala de mquinas, na
cozinha e no convs. E com isto terminamos, mas antes vamos
ouvir ainda mais umas palavras aqui do comandante Janzoon.
Janzoon sorriu atrs do charuto e comeou a falar na sua voz
rouca:
- Para a rapariga, isto no tem interesse. Para vocs, homens,
 muito importante. No estou a brincar,  a pura das
verdades. Antes da guerra, vivi nestas bandas grande parte da
minha vida. Conheo bastante bem a gente daqui... e as
mulheres. - Deu uma gargalhada gutural e continuou: - Como o
senhor Rubensohn disse, no interessa que tipo de
divertimentos procurem, desde que no nos causem complicaes.
Mas vou dar a todos um conselho amigo. Procurem uma companhia
para se divertirem, se quiserem, mas nunca uma namorada ou uma
amante. Se isso acontecer, vero que no conseguem ir-se
embora daqui quando chegar a altura. Acabaro numa cabana,
deitados numa esteira, com as tripas de fora de tanto vomitar
por a pequena lhes ter envenenado a bebida ou ter cortado os
cabelos e t-los misturado na comida. Para isso no h cura.
Comea com uma enorme dor de barriga, depois uma hemorragia
interna e acaba numa peritonite. E no pensem em meter-se com
uma mulher casada, ou tero outro tipo de dor de barriga
quando o marido entrar em aco com o punhal.
A voz de Guido ergueu-se num lamento: - Os homens devem
limitar-se s suas revistas de mulheres nuas.
Janzoon sorriu sombriamente.
- L dever, deviam, mas nunca o conseguem. Por isso lhes
estou a dar estes conselhos de amigo. Quando eu tiver de sair
daqui com este navio, no quero ir com a tripulao
desfalcado.
Houve um rumor de risadas pelo convs e Rubensohn fez sinal ao
criado para servir mais champanhe. Fizeram

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um brinde. Brindaram ao empreendimento e a seguir fizeram
brindes uns aos outros. Pouco depois, Rubensohn e Lisette
desceram e o grupo dispersou.
McCreary caminhou at  amurada a noroeste e acendeu um
cigarro. A Lua ainda no tinha nascido e o barco parecia
uma pequena ilha flutuante e luminosa no mar escuro, apenas
pontilhado por estrelas desconhecidas e tocado, aqui e ali,
por ligeiras fosforescncias. J no se via terra, nem os
sinais luminosos dos cargueiros quando se cruzavam. Navegavam
para nordeste fora da rota habitual de comrcio e avanavam
por guas antes cruzadas por piratas, onde tinham pululado
flibusteiros chineses, portugueses e bagineses. Agora eram
eles os flibusteiros, velejando sob a bandeira de uma
repblica maltrapilha, numa misso completamente fora da lei.
Ouviu passos atrs de si e pouco depois a figura corpulenta do
comandante Janzoon debruava-se sobre a amurada, a seu lado.
- Bela noite, amigo.
- De facto - disse McCreary afavelmente. - Lindssima.
- Deve sentir-se bastante satisfeito, McCreary.
- Porqu?
Janzoon abriu os braos num gesto de ganncia.
- Ora, porqu. A grande cartada... o grande lucro. O seu
quinho  muito dinheiro.
- Se eu no conseguir furar o poo - disse friamente McCreary
-, ningum vai ganhar nada.
Janzoon lanou-lhe um olhar
rpido.
- Talvez lhe agradasse afastar alguns dos... riscos.
McCreary encolheu os ombros com aparente indiferena.
- Que risco corro eu? Dependo s do tempo e do esforo. E
isso no me custa nada.
- Mas h a sua vida - declarou Janzoon calmamente -, e a da
rapariga.
McCreary segurou-se com fora  amurada e olhou fixamente o
mar. Os punhais estavam de novo

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desembainhados, espetando-lhe as costelas. Ao menor sinal de
dvida ou de medo seriam enterrados at ao cabo. Depois de
uma longa pausa, disse com jovialidade:
- Todos ns corremos riscos, Janzoon: eu, Rubensohn, voc.
No  muito desagradvel quando se tem um seguro de vida.
Janzoon humedeceu os lbios. A conversa estava a tomar um
rumo inteiramente inesperado. Aquele irlands de rosto magro
era mais reservado do que ele imaginara. Mudou de tctica.
- Oua, McCreary! Estou a tentar dizer-lhe algo. Somos trs
neste negcio: Rubensohn, eu e voc. Rubensohn  o chefe, mas
voc e eu, juntos, tambm somos importantes, compreende?
Devemos ser aliados e no inimigos.
McCreary virou-se abruptamente e enfrentou-o. A voz era
baixa, mas enrgica e fria.
- J uma vez me veio com essa conversa, Janzoon. A grande
batota. Amigos e vizinhos. Irmos de armas!" Mas vamos aos
factos. No gosto de mistrios nem de ameaas. Se tem uma
proposta a fazer-me, vamos a ela de uma vez por todas.
Sejamos francos! E  melhor que seja boa, pois no ponto em que
estamos voc precisa muito mais de mim do que eu de si!
Janzoon riu por detrs da sua espessa barba. No seu olhar
havia um brilho malicioso.
- Ah, ? Conversa franca? Cartas na mesa? Pois bem! Vou
mostrar-lhe o meu jogo: trs ases! - Pago para ver.
- Primeiro: voc est interessado na rapariga de Rubensohn.
McCreary encolheu os ombros.
- Isso no  um s,  um dois de paus. J me senti assim antes
por uma data de raparigas. Nenhuma delas valia um quarto de
milho de dlares.
Janzoon abriu os braos num gesto largo de descrena.
- Ningum lhe pediu para pagar tanto. Gosta da rapariga. Se Rubensohn vier a saber, mata-a primeiro a

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ela, depois mata-o a si. Portanto, McCreary, no deixa de ser
um s, o s de copas...
- Continue - disse McCreary com voz fria.
- O seguinte  o s de ouros! - Janzoon estava satisfeito com
a metfora. - Pediu-lhe trinta por cento. Acabou com vinte e
cinco, mais do que eu; e fui eu quem meteu a ideia na cabea
de Rubensohn. Voc ps condies que achou inteligentes. O
seu quinho deve ser pago directamente. Rubensohn tambm
concordou com isso. Voc acha decerto que descobriu uma mina.
Grandessssimo idiota! - O sorriso de Janzoon transformou-se
num esgar. - Acha que sabe tudo, mas no sabe nada. No vai
receber nem um tosto enquanto Scott Morrison no chegar. E
Scott Morrison no vir enquanto Rubensohn no o chamar. E
Rubensohn no vai chamar o tipo enquanto o petrleo no
jorrar. Antes de ele chegar, voc j estar morto! Alguma vez
viu um cadver receber dinheiro, McCreary? Mas eu posso
conserv-lo vivo. Depende de quanto estiver disposto a pagar.
- J l chegamos - disse McCreary com naturalidade. - Quero
saber qual  o seu ltimo s.
- O s de espadas! - disse Janzoon. - Leu a papelada que
Rubensohn lhe entregou?
- Li, sim.
- Reparou no recibo da venda?
- Reparei.
- E nos estatutos de formao da companhia? Notou que o nome
de Rubensohn no aparece em nenhum deles?
- Achei isso uma grande esperteza da parte dele - disse McCreary
mordazmente. - Entra com o dinheiro, mas no corre nenhum
risco. Voc  que fica sujeito a qualquer aco legal que
venham a tomar, porque  o seu nome que consta no registo em
Singapura.
Surpreendido, Janzoon lanou-lhe um olhar rpido. - Ah, tambm
percebeu isso? Muito bem! Mas j pensou no passo seguinte? No
 preciso a assinatura de Rubensohn para a venda. Se for
necessria qualquer

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alterao no documento actual, eu posso assinar as respectivas
clusulas. Portanto, no acha melhor ns continuarmos os dois
vivos e Rubensohn morrer?
- Cos diabos! - exclamou McCreary em voz baixa. No tinha
pensado nisso!
Janzoon deu uma gargalhada triunfante.
- Boas cartas, hem, McCreary? Tem melhores?
- Depende de como as jogar.
- Que  que quer dizer com isso?
- H trs maneiras, Janzoon.  s escolher. Primeira: fico
quieto e fao a minha jogada contra si, levando em conta o
trunfo que tenho... e que voce ainda no sabe muito bem qual
. De contrrio no estaria agora aqui. Segunda: voc pode
fazer-me sair da jogada por meio de pagamento imediato, 
vista. Assim, volto a ser um empregado assalariado, que no
faz perguntas; mas  preciso que a sua oferta seja
suficientemente boa e quero uma garantia de segurana para
quando terminar a minha tarefa. A Lisette fica includa no
preo da compra. Terceira e ltima: jogamos contra Rubensohn
e dividimos o lucro a meias. Mas  importante que voc
compreenda... - McCreary olhou-o firmemente, os maxilares
cerrados, os olhos a brilhar desafiadoramente. - No tolero
ameaas e ningum me mete medo. No tenho ningum com quem me
preocupar, portanto, posso dispor da minha vida com a
conscincia tranquila. Para mim, tanto faz, percebe? Se puder
ficar vivo e com um grande lucro, ptimo, mas se no puder,
preparem-se os dois para pagar caro. Ficou bem claro?
Janzoon olhou-o com ar srio.
- Muito claro. Acho que posso fazer-lhe uma proposta que lhe
vai interessar. Mas, antes, vou meditar um pouco sobre isso,
est bem?
- Quer dizer que  voc quem vai meditar, ou  Rubensohn?
- Pelo amor de Deus! Nunca! - Pela primeira vez havia medo na
voz de Janzoon. Pousou a sua grande mo no brao de McCreary
e os seus dedos apertaram-no

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com fora. - No incio, claro que eu o estava a sondar
por conta de Rubensohn. Mas agora no! Isto  um assunto
particular. S eu sei o risco que corremos. No gosto nada
disto. Quero ganhar, mas no quero arriscar-me. Se Rubensohn
souber...
- No vai saber - atalhou logo McCreary -, se voc agir
correctamente comigo. Outra coisa...
- Que ?
- Rubensohn mentiu sobre a viagem de Scott Morrison, no foi?
Janzoon, surpreendido, olhou para ele.
- Como  que descobriu?
-  muito simples. Rubensohn disse que ele estava na Nova
Guin. Acontece que toda aquela zona pertence a um trust.
Essa zona no teria interesse para um especulador independente
como  Morrison.
Janzoon mexeu lentamente a cabea, concordando. - Rubensohn
faz sempre assim. Inventa uma srie de mentiras por tudo e
por nada. Se no descobrir, pior para si, porque ele nunca
diz a verdade.  uma das coisas que me andam a chatear.
Estamos em vias de enfiar um grande barrete a Scott Morrison e
Rubensohn ainda me vem com aldrabices ... a mim, que sou seu
scio.
- Onde est Scott Morrison neste momento?
Janzoon lanou o olhar rpida e temerosamente pelo convs
deserto.
- Est em Port Darwin. Est a receber pedidos de petrleo no
Norte da Austrlia e  espera que o chamemos.
- A quantos dias
de viagem daqui?
- Trs ou quatro, no mximo. O tempo agora
est bom por aqui.
- Obrigado. Isso facilita-nos as coisas.
Subitamente, Janzoon mostrou-se distante e distrado.
Concordou com a cabea e pareceu hesitar, como se estivesse a
tentar traduzir por palavras um pensamento desagradvel.
McCreary acendeu um cigarro e aguardou. Pouco depois, Janzoon
disse, contrariado:
- Acho que podemos fechar negcio, McCreary. Sei

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que devemos. Mas ... mas h uma srie de coisas que no posso
prometer.
- Por exemplo?
- A rapariga. Ela tem muita importncia para si?
- Porqu?
- Porque... - Janzoon procurou desajeitadamente a frase
adequada. - Porque no quero interferncias no nosso
negcio... por causa do que Rubensohn pode... pode querer
fazer dela.
- Sabe o que  que ele pretende fazer?
- No, mas...
- Pelo amor de Deus, Janzoon! - A voz de
McCreary era cortante e impaciente. - Vamos, conte!
O que  que me est a querer dizer?
Janzoon fez um gesto de impacincia.
- Estou a tentar dizer-lhe que se quer a rapariga  com
Rubensohn que ter de lutar e no comigo. Se perder,
atire-lhe as culpas a ele e no a mim. Compreende?
Claro! Compreendo muito bem. As mulheres so um assunto
particular. Tratarei disso quando chegar a altura.
- ptimo! - Janzoon estava obviamente aliviado.
Quanto ao resto, vou estudar as quantias e as condies e
depois fao-lhe uma proposta. Est bem assim?
- Como quiser - respondeu McCreary, fazendo uma careta. - No
tenho pressa.
No entanto, quando ficou novamente sozinho a contemplar o mar
e as estrelas, a sua fisionomia tornou-se sombria.
Poderia controlar Janzoon, fazendo-se valer da sua cobia ou
do medo que ele tinha de Rubensohn, mas Lisette era um caso 
parte. Sabia agora que estava apaixonado pela rapariga e
qualquer ameaa que pairasse sobre ela era como uma faca
encostada  sua garganta.

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- L est a ilha, McCreary! Karang Sharo! - A voz de
Rubensohn, emocionada pela aproximao de terra, tinha-se
elevado um tom acima do costume. - Veja com os binculos!
Estavam de p na ponte de comando, com o comandante Janzoon, a
ver a ilha crescer aos poucos na linha do horizonte, passando
de uma sombra vaga a um contorno irregular, enquanto Alfieri
gritava ao timoneiro as novas instrues que lhes permitiriam
contornar a costa at  entrada sudeste da baa.
McCreary ajustou cuidadosamente as lentes dos binculos at
obter a focagem exacta. Viu uma longa cadeia de montanhas
pontiagudas que se erguiam gradualmente at chegar a um monte
elevado em forma de cone truncado, sobre o qual flutuava
indolentemente um pequeno cogumelo de fumo. Assobiou e
voltou-se para Rubensohn.
- Ento  uma ilha vulcnica... No mo tinha dito.
- Faz alguma diferena?
- Pode vir a fazer.  possvel que se encontre gs natural
em vez de petrleo.
Rubensohn concordou com um aceno de cabea.
- Vejo que conhece bem a sua profisso, McCreary. Voc
continua a impressionar-me.  um assunto que eu j tinha
discutido com os peritos. A opinio deles  que tudo indica
que existe petrleo.

87

- Claro! Eles nunca falham - disse McCreary com leve ironia. Falei por falar.
Virou-se e observou os contornos da ilha. Da gua, emergiam
formaes rochosas e negras e para alm dos penhascos
erguiam-se montanhas cobertas de vegetao at aos picos,
excepto numa pequena zona estril perto da boca do vulco.
- Deste lado no vejo nada - disse McCreary. Como  o outro
lado?
-  um paraso! - Havia entusiasmo na voz de Rubensohn. - As
montanhas transformam-se em pequenos montes espalhados por uma
grande . plancie dividida em plantaes e arrozais. H uma
praia dourada e uma baa circular rodeada de palmeiras e
cabanas de pescadores.
McCreary olhou novamente pelos binculos e viu um monte de
ilhas verdejantes, cor de jade e de esmeralda, espalhadas na
extremidade sul de Karang Sharo. Reparou nas variaes do colorido, quando a luz do sol incidia
sobre a gua rente aos recifes, e nas pequenas velas agrupadas
como aves marinhas nas zonas de pesca.
- Est a ver aquelas montanhas? - Rubensohn ps a mo no ombro
de McCreary e f-lo voltar-se em direco  ilha de Karang
Sharo.
- Estou.
- Esto cheias de ribeiros, McCreary, ribeiros que descem para
os canais e irrigam os arrozais. Esses ribeiros esto cheios
de diamantes. Colhem-se nas peneiras como se fossem ouro. Os
nativos trocam-nos por tabaco, betel, ou qualquer outra coisa.
O prprio Miranda costuma compr-los para os vender em Timor,
mas est muito longe do mercado para obter resultados
compensadores. Enquanto aqui estiver, voc no deve descurar
esse aspecto.
- Obrigado, no me esquecerei.
Devolveu os binculos a Rubensohn e ficou a ver o piloto a
manobrar a proa do Corsrio numa nova direco.

88

Janzoon sugeriu:
- Talvez Lisette gostasse de ver isto. Para ela,  uma
novidade, no acha?
- As mulheres no apreciam l muito as paisagens - disse Rubensohn
com indiferena -, a no ser
quando servem de cenrio para exibirem a sua beleza.
- Vou descer para fazer a barba - disse McCreary,
fingindo a maior indiferena. - Voltarei a tempo de assistir 
entrada na baa. Quer que bata  porta do seu camarote e
avise Lisette que voc est aqui?
- Como quiser - respondeu Rubensohn por cima do ombro. Pea-lhe que traga os meus culos escuros. Daqui a pouco
precisarei deles.
- Est bem.
Com medo que a sua pressa levantasse alguma suspeita, esperou
um bocado, mas Rubensohn continuava a apreciar pelos binculos
as montanhas de Karang Sharo, que pareciam o dorso de um
drago. Ento, virou-se e desceu rapidamente as escadas.
O corao batia-lhe desordenadamente quando chegou  porta do
camarote de Rubensohn. Era o primeiro momento de intimidade
que ia ter com Lisette desde que ela tinha estado no seu
camarote. Viam-se, evidentemente, s refeies e no convs,
mas era como se estivessem separados por um vidro  prova de
som: uma conversa muda, gestos, uma mmica sem significado.
Bateu  porta. A voz lmpida e impessoal de Lisette
respondeu-lhe:
- Quem ?
- Sou eu, McCreary. Abra depressa.
Depois de uma breve pausa, a porta abriu-se.
- McCreary, o que  que?...
Ele entrou rapidamente, fechou a porta e apertou-a nos braos,
respondendo com beijos s perguntas dela. Por fim, largou-a e
falou-lhe apressadamente.
- Rubensohn est na ponte de comando. Quer que lhe leve os
culos escuros. Mandou-me dar-lhe este recado, portanto no
posso arriscar-me a demorar mais.
- Meu Deus, como tenho tido saudades suas!

89

Aproximou-se novamente dele e, com arrebatamento e paixo,
puxou-lhe o rosto na direco do seu, agarrou-se-lhe ao corpo
e a seguir afastou-se com a mesma impetuosidade. - Tenho medo,
McCreary.  hoje que tudo comea e eu estou em pnico.
- Tambm eu, querida - disse McCreary. - Mais por si do que
por mim. Temos de conversar, mas aqui e neste momento no 
possvel. Como nos havemos de encontrar?
- Tambm estive a pensar nisso. Quando chegarmos, talvez o
Miranda suba a bordo, e nessa altura eles vo certamente
querer falar em particular. Se eu conseguir escapar-me...
- Estarei no meu camarote. Espero-a l.
- Vou tentar.
- Est bem. Agora suba assim que puder e no se esquea dos
culos escuros.
- D-me um beijo, por favor.
Depois de satisfeito o seu pedido, ela ergueu as pequenas mos
de marfim e acariciou-lhe a face, dizendo suavemente:
- No  muito, eu sei, ser amado por uma mulher do Pavilho do
Pavo. Mas eu amo-o, McCreary. Acontea o que acontecer, eu
amo-o.
- Eu adoro-a - disse McCreary num tom grave. E no nos vai
acontecer nada de mal.
Partiu to abruptamente como chegara, e Lisette ficou a fitar
demoradamente a porta, pensando como lhe havia de contar o que
Rubensohn lhe propusera.
A dois passos da porta do camarote de Rubensohn, McCreary
chocou com Guido, que se dirigia para o salo para tomar um
caf, um pouco fora de horas. Ele assobiou e ergueu um dedo
admoestador:
- Mamma mia! Que loucura, homem! Em plena luz do dia e com o
barco cheio de gente! Que aconteceria se em vez de Guido
encontrasse Rubensohn ou Janzoon?
- Cale-se, Guido, e venha
comigo. Quero falar consigo.

90

Antes que ele pudesse protestar, McCreary puxou-o pelo brao e
empurrou-o para dentro do seu camarote.
- Tenho sede - queixou-se Guido. - Levantei-me tarde e tenho
um mau gosto na boca. Preciso de tomar um caf.
-  s um minuto - disse McCreary. - Preciso de lhe falar.
Guido suspirou profundamente e sentou-se no beliche, enquanto
McCreary comeava a fazer a barba, falando-lhe da casa de
banho.
- Qual foi a ltima vez que transmitiu uma mensagem de
Rubensohn?
- Nada desde antes de Jacarta
- Como  feita a transmisso? Em cdigo ou sem reservas?
- Em cdigo. Sai mais barato.
- Que cdigo? Particular?
- No. Ele usa o Bentley.
- Quem  que passa para cdigo?
- Eu.
- Guido tirou um dos cigarros de McCreary e acendeu-o, sem o
saber, com o isqueiro de um morto.
- Escute, compar, talvez
fosse melhor dizer-me o que pretende.
- Estou a tentar confirmar duas coisas, Guido. Primeira: se
chegar uma mensagem em cdigo para Rubensohn, ns
conseguiremos l-la?
- Claro - respondeu Guido, confiante.
- Segunda: se eu quiser mandar uma mensagem em nome de
Rubensohn, poderei faz-lo sem problemas?
- Senz'altro! Poder, se no se esquecer de uns quantos
pormenores.
- Quais so, Guido?
McCreary ps a cabea fora do compartimento. Tinha o rosto
coberto de espuma mas os olhos brilhavam de interesse.
- Tantas informaes e eu no ganho nem uma chvena de caf!

91

- Em vez disso dou-lhe uma garrafa de conhaque.
V, Guido! Fale!
Guido baixou a voz para um sussurro e disse:
- Descobri isto sozinho, pois sou um tipo observador. Ningum me contou nada. Mas eu estou atento quando as transmisses esto a ser feitas. Quando ele telegrafa
para
Singapura, comea com "Para Silva" e assina "Rex". Para Nova
Iorque, comea com "Para Mortimer" e assina "Imperator".
Rex, Imperator. Rei, Imperador. - McCreary, com a boca cheia
de espuma, quase se engasgou. - Um pouco forte, no acha? Quem
pensar ele que ? Napoleo Bonaparte ou Deus Todo-Poderoso?
- Da maneira como ele trata a rapariga - disse Guido -, podia
passar por Nero ou Calgula.
- Nunca pensei que voc os conhecesse - observou McCreary com
um sorriso trocista.
Guido fez um gesto vago de condescendncia. - Tenho um armrio
cheio de livros sobre eles, com uma srie de fotografias
cruis.
- No duvido. Mas mudemos de assunto, Guido. J transmitiu
alguma mensagem de Rubensohn para Scott Morrison?
- S duas.
- A quem eram dirigidas?
- Morrison, M. V. Melanie.
- E a assinatura?
- Asmin!
- Como, Guido?
- Asmin  o endereo telegrfico da Southeast Asia Mineral
Research, a companhia de Rubensohn.
- Mais nenhuma assinatura?
- Sim, como sempre, a de Janzoon.
- Janzoon?
Guido abanou a cabea enfaticamente.
- Eu tambm achei esquisito quando vi Rubensohn escrever o
texto e entregar-mo. Mas no sou pago para fazer
perguntas. Transmito as mensagens tal como esto.

92

- Caramba!
McCreary estava to absorto a fazer perguntas que fez um
triangular no queixo. Guido deu uma gargalhada e
disse:
- Concentre-se no que est a fazer, amico. Ainda estou aqui, e
seco que nem...
- Preste ateno, Guido! - McCreary aplicou uma loo no rosto e
falou rpida e tensamente: - Quando chegarmos, no nos vamos
encontrar muito frequentemente. De agora em diante, quero uma
cpia de todas as mensagens que chegarem. E retenha a
transmisso de qualquer mensagem at receber a minha
autorizao para o fazer.
- Virgem Maria! - Os olhos de Guido esbugalharam-se e o
cigarro caiu-lhe da boca. - Percebe bem o que me est a pedir?
As mensagens que chegarem... claro! Faclimo! Mas as outras?
Sabe como  que Rubensohn faz? Traz as mensagens e fica ao meu
lado enquanto as passo para cdigo e as transmito. Estou a
tentar ajud-lo, McCreary, mas isso  suicdio!
McCreary voltou ao camarote. O seu rosto magro abriu-se num
sorriso oblquo e a sua voz era adocicada
quando disse:
- Mesmo assim podemos fazer qualquer coisa, Guido, e
simultaneamente cuspir na cara de Rubensohn. Preste ateno!
Voc vai dar-me um conjunto transmissor-receptor para eu levar
para o acampamento. D-me tambm a chave do cdigo. Vamos
combinar uma hora certa de manh e outra  tarde para
comunicarmos. Se Rubensohn quiser ficar a seu lado enquanto a
mensagem for transmitida, no se importe. Se for um assunto
vulgar, transmita-o normalmente e no nosso encontro seguinte
informa-me de tudo. Mas, e a, meu valente bandido,  que
voc ter de usar o seu raciocnio, se lhe parecer estranho ou
urgente, ou perigoso para mim, ter de ser capaz de fingir uma
avaria no equipamento at conseguir avisar-me. Ento, faz ou
no faz sentido?

93

Guido alegrou-se imediatamente. Os seus olhos escuros
faiscavam.
- Se tiver tanta conversa para as mulheres como tem para
comigo nunca lhe faltaro camas. Assim, tenho a certeza que
conseguiremos, sicuro!
- ptimo! - McCreary pegou nos cigarros, enfiou um na boca de
Guido e outro na sua. - Bem, e agora outra coisa. Janzoon
procurou-me para me fazer uma proposta.
- Que tipo de proposta?
McCreary acendeu os cigarros com o isqueiro e respondeu:
- Acho que ele prprio no tem ainda a certeza do que me quer
propor. Mas  uma destas coisas: ou me suborna pelo preo que
achar conveniente, para, em troca, obter proteco contra
Rubensohn, ou ento junta-se a mim contra Rubensohn e
dividimos o lucro a meias.
Guido inclinou a cabea para o lado com um ar cmico.
- Sabe por que  que ele lhe fez essa proposta, McCreary?
- No tenho a certeza, mas acho que tem medo que Rubensohn no
fim o vigarize.
- Eu sei que  isso o que ele pretende fazer - declarou Guido
com toda a simplicidade.
- Por que afirma uma coisa dessas?
- Deduzi. Sabe como  o Alfieri.. anda sempre de nariz no ar
e de peito esticado, como se fosse um doge de Veneza.
McCreary confirmou com a cabea.
- Ontem  noite, ele sabia tantas novidades que tinha de as
contar a algum. Foi  minha cabina com uma garrafa de grappa
e contou-me que Rubensohn o tinha sondado para o posto de
comandante. Disse-lhe que Janzoon ia seguramente reformar-se
no fim da viagem para se estabelecer com um negcio qualquer.
Pediu-lhe que guardasse segredo,  claro. Mas ele tinha de
dar com a lngua nos dentes, seno era capaz de explodir.

94

- Demnios! - praguejou McCreary baixo.
Onde quer Rubensohn chegar?
Guido sorriu e bateu-lhe com o dedo no peito.
- Eu sei, McCreary!  assim que fazem em Npoles. L
charnam-lhe schiffo. Conta-se uma verdadezinha aqui e uma
grande mentira ali. Paga-se um jantar a este, dorme-se com a
mulher do outro e depois escreve-se uma carta ao bispo sobre a
moral do presidente da Cmara. No fim, quando ficam todos
atiados, sai-se devagarinho com o dinheiro numa mo e a
rapariga na outra.  o que Rubensohn vai fazer, pode ter a
certeza.
- Vai uma figa! - exclamou McCreary. - Em matria de aldrabes
e mentirosos de primeira, fique sabendo que os melhores do
mundo esto em Kerry!
- Acredito - disse Guido desconsolado. - E agora, amico, por
favor, ser que posso ir tomar o meu caf?

Estavam a passar com dificuldade pelo crculo exterior de
ilhas e faziam balouar levemente, com a fraca ondulao
produzida pela proa, as pequenas embarcaes que deixavam as
praias e os praus que navegavam com velas afrouxadas  volta
dos recifes.
As praias estavam apinhadas de nativos, mulheres de seios nus
vestindo sarongs espalhafatosos, crianas a gatinhar e homens
baixos e bronzeados com turbantes de cores vivas e pentes
trabalhados nos cabelos. Atrs deles, apareciam os telhados
dos kampongs no meio dos troncos das palmeiras e da luxuriante
vegetao da floresta.
Karang Sharo, a bombordo, mais  frente, mas o ancoradouro
estava encoberto por um flanco da encosta que descia do cume
do vulco.
O cu estava lmpido, sem nuvens, e o Sol reflectia-se
intensamente nas guas tranquilas, produzindo vigorosos
desenhos de luz e sombra nos recncavos da terra.
Acompanhado de Rubensohn e Lisette, McCreary deixava-se
penetrar pelo calor e pelo colorido da cena. Lisette
mantinha-se fria e distante. Os seus olhos, por trs dos
culos de sol, eram um enigma. Rubensohn estava excitado e
loquaz. Fazia gestos largos e falava na sua voz aguda e
estridente, com um entusiasmo estranho e desconcertante para
um homem de carcter to tortuoso.

96

- Compreende agora o que eu lhe dizia, McCreary? A nova terra
prometida! Sem fiscais de impostos, sem polcias, sem
zs-ninguns sentados atrs de papelada como se fossem reis
maltrapilhos! Aqui h sol, cu, mar, terra e tudo o que um
homem queira arrancar com as suas mos. Onde esto os
aventureiros( do passado? H centenas de locais como este, 
espera de serem possudos como as mulheres, mas os
aventureiros no aparecem. Onde se meteram?
- A est uma pergunta interessante. - Havia um brilho maldoso
nos olhos de McCreary. - Segundo me consta, alguns morreram de
doenas estranhas ou de bebedeiras, alguns foram devorados por
canibais, outros decapitados pelo carrasco oficial, a
fina-flor morreu na guerra e os restantes esto sentados em
Lombard Street, com o fgado endurecido e fumando charutos
enormes.
Rubensohn riu estridentemente.
- Voc  um tipo divertido, McCreary. Devia ficar sempre
comigo.
- Cansar-se-ia de mim - disse brandamente McCleary. - Os
irlandeses so bons companheiros de pardia, mas incmodos
parceiros de cama.
- E so bons no amor?
- No sou mulher - respondeu McCreary suavemente -, portanto
no sei dizer.
- Que acha, Lisette?
A voz de Rubensohn estava cheia de malcia. Lisette encolheu
os ombros, com indiferena.
- De amor, eu no percebo nada.
- Uma resposta hbil, McCreary! - Os lbios vermelhos de
Rubensohn sorriam, mas os seus olhos estavam duros. - A
Lisette  uma mulher experiente. Quando eu a encontrei, ela
era...
A voz de Janzoon, vinda do lado do timoneiro, interrompeu-o:
- Estamos a contornar o cabo. O ancoradouro vai surgir a
qualquer momento. Podero ver melhor a bombordo.

97

Quando se dirigiam atravs da casa do leme para ocuparem as
suas novas posies, Lisette esbarrou com McCreary, que sentiu
a leve presso da mo dela contra a sua. Foi mais eloquente
do que se ela tivesse dito: "Ele desconfia, McCreary, cuidado!
No o deixe provoc-lo. " Afastou-se dele para se reunir a
Rubensohn no lado esquerdo da ponte de comando, mas McCreary
ficou dentro da cabina, ao lado de Janzoon.
Este deu-lhe uma rpida olhadela de alerta e comeou a
esquadrinhar a extremidade do cabo que se aproximava.
- Dez a bombordo!
- Dez a bombordo! - repetiu o timoneiro como um papagaio.
Contornaram lentamente a ponta verdejante e, de repente. como
prenncio de uma revelao, o ancoradouro de Karang Sharo
surgiu  frente deles.
Era um semicrculo de gua plcida, ladeado de areia dourada.
Mais adiante, o terreno elevava-se aos poucos em largos
planaltos, at atingir os flancos das colinas. Os arrozais
destacavam-se pela irrupo, aqui e ali, de plantaes, faixas
de vegetao, barragens brilhantes e canais do sistema de
irrigao. Os kampongs estendiam-se ao longo da orla da
praia, pontuando, intermitentemente, a parte mais elevada do
terreno. Os telhados das cabanas eram castanhos e amarelos,
contrastando com o verde-vivo da vegetao, e as flores das
rvores eram manchas avermelhadas sobre o tapete das folhas.
O mais surpreendente, porm, era o palcio. Tinha sido
construido num largo planalto no sop do vulco e o terreno 
sua volta descia numa srie de jardins suspensos, sustentados
por caprichosas paliadas esculpidas. Ao fundo erguia-se
majestosamente o cone do vulco e o edifcio propriamente dito
alargava-se contra ele, como a cauda aberta de um pavo, num
matizado de dourado, azul-turquesa e mbar-escuro.
As janelas e os terraos recebiam directamente o sol da manh,
mas ao meio-dia a sombra da montanha

98

comeava a abater-se sobre o palcio, esbatendo o calor
equatorial.
- Ento, McCreary? - Janzoon olhou para ele e soltou uma
gargalhada rouca. - Que me diz a isto?
McCreary balouou a cabea:
- O que  que eu posso dizer? Que beleza! Quem planeou isto
era um gnio!
- Venha c, McCreary! - A voz estridente de Rubensohn chamou-o
para o ar livre. - No lhe disse que lhe mostraria maravilhas?
Acredita agora em mim?
- Nunca duvidei - disse McCreary secamente. No h dvida que
isto  algo de fantstico e maravilhoso. Parece obra de um
ourives.
- E l dentro h outras tantas maravilhas - declarou
Rubensohn, deleitado. - H aposentos para cem concubinas e os
seus rebentos. H sales destinados a funes oficiais, um
salo para as danarinas da corte e um teatro de marionetes.
H pintores, msicos e mestres, porque as danarinas e o
tesouro real esto guardados em tneis rasgados na prpria
montanha.
Os olhos de Rubensohn brilhavam atrs dos culos escuros. Era
como se estivesse a descrever a realizao dos seus prprios
sonhos, o apogeu idealizado na carreira de todos os piratas.
Mais por animosidade do que por interesse imediato, McCreary
mudou o rumo  conversa. Perguntou: - Onde vou perfurar?
- Ali! - Rubensohn apontou, a norte, um local afastado do
palcio, para onde irrompia uma formao suplementar de
colinas entre os socalcos, formando uma reentrncia na
cordilheira principal. - H uma estrada que contorna a baa e
vai at  boca do vale.  por a que seguiro as suas
provises e o equipamento. Como pode ver, fica afastada das
principais aldeias. Assim, ter um certo isolamento.
- Bem vou precisar dele - e McCreary apontou para a praia, que
parecia um formigueiro fervilhante de nativos em roupas
berrantes.

99

Corpos escuros empurravam canoas das praias para o mar e
pulavam depois para o interior das mesmas, enquanto a
miudagem se atirava  gua e nadava em direco ao navio.
Um homem de calas brancas estava de p sobre o cais longo e
estreito e acenava freneticamente. Rubensohn respondeu ao
aceno.
- Aquele  o Miranda. Vir logo que tivermos ancorado.
Enquanto falavam, ouviram Janzoon mandar parar as mquinas.
Em seguida, deslizaram pela superfcie lisa, enquanto os
homens na proa aguardavam sinal para lanar a ncora.
Janzoon gritou uma ordem e as correntes foram atiradas: os
motores voltaram a funcionar para avanar e retesar as
correntes ainda frouxas. O sino tocou novamente ao atingirem
a posio de "motores desligados" e fundearam nas guas calmas
com aquela sensao curiosa, misto de surpresa e decepo, que
se segue  aproximao de terra.
McCreary e Lisette entreolharam-se. Rubensohn ficou muito
tempo a fitar o palcio e a montanha fumegante. Quando se
virou para eles, sorria e esfregava as mos rolias uma na
outra.
- Terminou a ouverture. Vai comear a pera. Espero que a apreciem.
- Tenho a certeza que a apreciaremos - disse McCreary. Conheo o produtor.  muito competente. E, alm disso, tem uma
boa cabea de cartaz.
Rubensohn corou, subitamente irritado, e disse com rispidez:
-  muito impertinente, McCreary!
- Eu sei - explicou McCreary alegremente. - Mas tambm sou um
excelente perfurador e quem  perito na sua profisso pode
dar-se ao luxo de falar com franqueza.
Rubensohn abriu a boca para responder, mas fechou-a, em
seguida. Parecia invadido por uma clera glacial. Virou-lhe
as costas deliberadamente, deu o brao a Lisette e ficou a
observar a pequena figura de Miranda,

100

vestido de branco, saltando do cais para uma desengonada
lancha a motor, pilotada por dois rapazes de sarong.
McCreary apoiou-se ao corrimo e acendeu um cigarro. Depois
tambm se voltou e dirigiu-se para a sala de navegao, onde
Janzoon e Alfieri estavam a conversar. Retiravam o mapa da
mesa e travavam os instrumentos. Ao que parecia, a tarefa
deles tinha terminado. A sua, entretanto, tinha apenas
comeado.
A lancha encostou desajeitadamente ao costado do Corsrio e
minutos depois Pedro Miranda subia a escada de bordo,
bamboleante. Rubensohn e Janzoon receberam-no na ponte de
comando, enquanto Alfieri permanecia ao lado de Lisette;
NcCreary aguardava, um tanto afastado, e estudava o
recm-chegado.
Era um sujeito magro, de rosto estreito, com estrabismo
divergente e pele de quem sofre de malria. Os dentes estavam
manchados de btel e os cabelos ralos empastados de leo de
palmeira. As mos eram nodosas e manchadas, e as calas
coadas caam-lhe como sacos. O seu ingls era
surpreendentemente bom, mas a voz era spera, lamurienta, e,
quando falava, apoiava-se nervosamente ora num p ora no
outro.
- Bons-dias, meus senhores! Sejam bem-vindos a Karang Sharo.
Grande dia este, para a ilha. Todos saram de casa, como
vem. At do palcio devem estar a observ-los. Est tudo
pronto para os senhores...
- Construiu os pontes? - indagou Rubensohn abruptamente.
- Esto prontos para efectuar os carregamentos. So quatro
toros macios por baixo de uma cobertura de bambu. Cinco
metros quadrados que podem suportar qualquer peso!
- ptimo! J tem mo-de-obra escolhida para ns?
- Mo-de-obra! - Miranda ps-se a rir s gargalhadas e esticou o
seu brao esqueltico. - Olhe para ali! Homens, mulheres e
crianas. Basta assobiar que eles vem como formigas.
- Quando podemos comear a descarregar?

101

- Bem, quanto a isso - Miranda sacudiu um dedo, admoestador -,
 melhor irem primeiro ao palcio prestar a vossa homenagem.
- H algum problema?
- No! No! No! Nenhum problema, s que... - e baixou a voz
num sussurro confidencial - sabem como so as coisas por aqui.
Somos o "Umbigo do Universo",. Umas cocegazinhas fazem a gente
sentir-se melhor. Trouxe o...
Rubensohn interrompeu-o com um gesto.
- Sim, trouxe tudo. Vamos conversar l para baixo. Janzoon!
- Sim?
- Venha com o Miranda ao meu camarote. Temos muito que
conversar.
Sem dirigir palavra a Lisette ou a McCreary, girou sobre os
calcanhares e desceu a escada do convs. Miranda e Janzoon
seguiram-no, deixando McCreary e Lisette com Alfieri.
McCreary comentou serenamente:
- Aqui est uma ratazana dos cais, sem a menor dvida.
Alfieri empertigou-se e disse friamente:
- O Miranda  um personagem muito importante na ilha. O
senhor Rubensohn tem muita confiana nele. Ele tem contactos
no palcio e...
- Tm sempre... - disse McCreary com desprezo - na porta
principal dos comerciantes e na porta das traseiras dos
alojamentos das mulheres. Tem cara de alcoviteiro e olhos de
mercrio. No simpatizo com ele.
- O senhor, evidentemente, tem muito mais experincia com pessoas desse tipo do que eu.
Era um insulto flagrante, mas McCreary tolerou-o com um
sorriso. Na sua voz mais branda, disse:
- Devia estar mais calmo, Alfieri. J vi homens arranjarem
lceras por se preocuparem demasiado, como voc. Ainda no 
comandante e, se no for agradvel com os seus amigos, nunca
chegar a ser!

102

Alfieri ficou vermelho de raiva e gaguejou:
- Eu... eu no entendo o que  que voc quer dizer.
- Creio que entende - disse suavemente McCreary.
Rubensohn tem-lhe andado a acenar com a promoo  frente do
nariz como com uma cenoura a um burro. Mas aqui a Lisette
poder dizer-lhe como tem ainda de se esforar para a
alcanar. No  verdade, Lisette?
Lisette colocou a mo no brao dele para o refrear. - Por
favor, McCreary, deixemo-nos de coisas desagradveis.
- No estou a ser desagradvel. Mas o Alfieri  jovem e
inocente. J vi muitos como ele ficarem de tanga por se terem
metido com ms companhias. Aceite um conselho meu, senhor
imediato, no acredite em tudo o que os patres lhe disserem.
E no se fie na promoo enquanto no tiver os gales nos
braos e no se sentar na poltrona do comandante.
Enquanto Alfieri o olhava de olhos arregalados, enfiou o brao
no de Lisette e conduziu-a pela escada em direco  sua
prpria cabina.
Com a porta fechada e trancada, ficaram abraados muito tempo
e McCreary surpreendeu-se com a paixo que estava encerrada
naquele corpo de boneca. Lentamente foram-se soltando e
McCreary f-la sentar-se no leito, a seu lado. Segurou-lhe as
mos e disse gravemente:
- Temos muito que falar. Vamos fazer isso antes de mais nada.
- Eu sei, Mike - era a primeira vez que ela o tratava pelo
primeiro nome. - Mas quero dizer-lhe uma coisa.
- Muito bem, pode dizer. Prefiro a sua voz  minha. O que 
que me quer contar?
- Pode dar-me um cigarro, sim?
Ele encetou um mao, deu-lhe um cigarro e acendeu-o. Ela
fumou sofregamente por instantes e depois comeou:
- Ele desconfia de ns, Mike.
McCreary confirmou com a cabea.

103

- Suspeitei disso, na ponte de comando. Ele disse-lhe alguma
coisa?
- Por palavras, no. Mas sabe como ele ... sempre calado,
dissimulado,  espera de uma oportunidade em que possa ferir
ainda mais.
- Eu sei, tem razo.
- Ele quer destru-lo, Mike.
- Tambm sei isso - disse McCreary com simplicidade. - Mas
enquanto eu no perfurar o poo ele no far nada. E antes de
chegarmos a esse ponto, espero j ter podido tomar
providncias.  sobre isso que quero falar consigo. Eu vou...
- Por favor, Mike. Deixe-me falar primeiro.
Havia tanta premncia no tom de voz da jovem, tanta tristeza
nos seus olhos que ele no teve outra alternativa seno
deix-la continuar.
- Quero falar-lhe de mim, Mike. Quero que voc compreenda.
Se no compreender, poder fazer algum disparate, algo que no
nos trar nenhum benefcio.
-Antes que continue, Lisette...
- A voz de McCreary era inflexvel. - Vou falar sem rodeios.
Aquilo que a atinge, tambm me atinge. Mesmo que eu tenha de
matar meio mundo para escapar deste ninho de ratos, hei-de
faz-lo, e lev-la-ei comigo. Continue, minha querida.
- Eu sei, Mike, eu sei. Mas, por favor... oua! J lhe contei
onde  que Rubensohn me encontrou... no Pavilho do Pavo, em
Saigo, mas nunca lhe disse como fui l parar.
- Nem eu perguntei.
- Mas eu quero que saiba. No sou de Saigo, sou do Norte, de
Haiphong. O meu marido era funcionrio da administrao
francesa.
- O seu marido?
A palavra abalou-o como se lhe tivessem atirado gua ao rosto.
Lisette acenou afirmativamente com a cabea.
- Chamava-se Raoul Morand. Era mestio como eu, metade
francs metade tonquins, de modo que, quando

104

a guerra acabou e Ho Chi Minh desceu do Norte com o seu
exrcito, ns juntmo-nos aos refugiados que iam para o Sul.
E conseguimos chegar l. Chegmos a Binh Dinh e encontrmos
um alojamento modesto perto da cidade. Raol saa todos os
dias para tentar entrar em contacto com um funcionrio francs
de prestgio, para ver se conseguia retomar o seu antigo
posto. Foi ento que, uma tarde, apareceram trs soldados de
Bilin Xuyen. Disseram que andavam  procura de espies.
Encostaram Raoul  parede e obrigaram-no a olhar enquanto me
despiam. Fizeram troa dele o tempo todo e contaram-lhe o que
me iam fazer; quando ele tentou escapar para me ajudar,
mataram-no com um tiro. Depois levaram-me para Saigo e
venderam-me ao Pavilho do Pavo, porque Bilin Xuyen cobrava
nessas casas, que eram abastecidos e controladas pelas tropas,
uma percentagem para Bao Dai. Eu estava viva, mas preferia
no estar. Passado algum tempo, comecei a conformar-me.
Ento, uma noite, Rubensohn apareceu por l, gostou de mim e
ofereceu-se para me tirar da casa. Pagou uma boa quantia ao
Pavilho e fez-me sua amante. Depois disso, tenho viajado
sempre com ele.
-  isso, querida? - a voz de McCreary era grave.
- No!, no  s isso! - Nos seus olhos brilhantes havia um desafio. - A
minha histria tem uma moral Mike. Fao questo de lha
contar. Primeiro, quero dizer com toda a sinceridade que at
no Pavilho do Pavo uma pessoa consegue sentir-se grata s
por estar viva. E digo mais, quando Raoul morreu por minha
causa cometeu um acto intil. Se no tivesse tentado
salvar-me, se tivesse sabido suportar o que me estavam a
fazer, poderamos ainda hoje estar juntos. Talvez eu nunca
tivesse ido parar ao Pavilho do Pavo e teria ficado apenas a
lembrana daquela noite, e at isso ns acabaramos por
esquecer com o tempo. - A sua voz ergueu-se num tom
estridente: - A morte  to definitiva, Mike!  o fim da
esperana, o fim do amor para quem sobrevive.  isso que eu
quero que me prometa... acontea o que

105

acontecer, seja o que for que Rubensohn tente fazer para me
magoar, continue vivo. Promete, Mike?
- Prometo, querida - respondeu suavemente McCreary.
Os seus braos envolveram-na e ele puxou-a para si, encostando
ao peito aquela cabea querida e sentindo o corpo pequeno e
perfeito bem junto ao seu. No entanto, nem todo o amor que
transbordava de McCreary conseguiu faz-la revelar toda a verdade.

10

Pouco antes do meio-dia, Miranda foi a terra e, logo depois, o
"Umbigo do Universo" surgiu para fazer a sua visita protocolar
ao Corsrio.
Comearam a v-lo ainda a uma certa distncia, sobre um
palanquim dourado transportado por dez homens, avanando pelos
terraos do palcio e descendo depois pelas veredas sinuosas
da plancie. Havia guardas  sua frente e  retaguarda, cada
um com um punhal preso numa correia e um mosquete comprido e
antiquado ao ombro.
O cortejo desapareceu momentaneamente entre os jardins
suspensos e s o voltaram a ver quando a multido que estava
na praia se afastou de repente, caindo de joelhos e emitindo
um demorado lamento que flutuou fracamente sobre as guas. Da
foz de um canal surgiu uma longa canoa com a proa esculpida,
manobrada por dez remadores. Quando chegaram  clareira
aberta no meio do povo, dirigiram-se rapidamente em direco 
praia, para onde o "Umbigo do Universo" foi levado aos ombros
dos seus servos. Depois de o sentarem, os outros membros da
comitiva acomodaram-se e um deles abriu um grande guarda-sol
amarelo sobre a sua cabea.
Quando voltou ao mar, a canoa deslizou velozmente, enquanto os
remadores rasgavam as guas com os seus remos esculpidos.
Tinham descido a prancha de desembarque e um marinheiro malaio
preparava-se para, com um gancho

107

apropriado, encostar os visitantes ao casco do navio. Arturo
aguardava no ltimo degrau, a fim de os ajudar a subir. A
tripulao do barco estava perfilada no convs, os oficiais de
uniforme engomado e os outros vestidos normalmente, em posio
de sentido. Janzoon e Alfieri estavam no topo da escada, mas
no se via Rubensohn nem Lisette.
McCreary pensou que se tratava de mais uma das hbeis
encenaes de Rubensohn. O "Umbigo do Universo" deveria ser
conduzido at ao grande homem, completamente s, na intimidade
do seu salo. Lisette seria exibida como um artigo valioso.
Sentiu uma impiedosa satisfao quando pensou que, em breve,
tambm essa conveno seria destruda e Rubensohn perderia
Lisette e tudo o resto.
Assim que o pequeno cortejo atingiu o convs, McCreary
verificou com surpresa que o sulto era um jovem de trinta
anos no mximo, de feies balinesas finamente modeladas,
agora contradas numa rgida mscara protocolar. Vestia-se em
tons to vivos como os de um pssaro selvagem, envolvido em
seda bordada a fios de ouro e prata. Trazia jias ao pescoo
e nos dedos. Na sua faixa destacava-se uma adaga de cabo de
ouro e no centro do turbante um enorme rubi brilhava
palidamente.
Atrs dele vinha um personagem rotundo que parecia mais chins
do que malaio e que McCreary sups tratar-se do vizir. As
sedas com que estava vestido flutuavam como cortinas, mas os
olhos apertados denotavam astcia e clculo. O resto da
comitiva era constituda por homens de baixa estatura, como o
seu monarca, e tanto as vestes como as jias iam decrescendo
de sumptuosidade conforme a sua importncia.
Quando chegaram ao convs, Alfieri ordenou aos oficiais que se
pusessem em posio de sentido e a tripulao curvou-se em
profunda reverncia. O comandante Janzoon fez a continncia
da praxe, proferindo de seguida um pequeno discurso em malaio.

108

O sulto agradeceu em poucas palavras e Janzoon conduziu o
grupo para o salo inferior. Alfieri ordenou  tripulao que
preparasse o convs da r para o almoo e McCreary e Guido
afastaram-se para fumar um cigarro tranquilamente.
Guido, espirituoso, troou:
- Agora  um accionista, McCreary. No acha que tambm devia
estar l em baixo, a participar no negcio?
McCreary encolheu os ombros:
- O negcio j foi fechado h muito tempo, Guido. Agora
trata-se de uma mera formalidade. Falam da sua importncia
mtua e ficam  espera de ver a dimenso do poder um do outro.
- Mas a rapariga est l... a sua rapariga.
- Ela ainda no  minha. Sabemos ambos que temos de esperar e
fazer os nossos planos, Guido.
Guido olhou-o de esguelha, estranhamente. - Fala como se
estivesse apaixonado.
McCreary respondeu abruptamente:
- Ainda no tinha percebido?
- No sei. - Guido torceu a boca e olhou intrigado para
McCreary. - Sei que gosta dela;  natural que se sinta
satisfeito por a tirar a um maledetto como Rubensohn. Mas
amor? Isso  um assunto muito srio, amico. O amor  mais
exigente do que o estmago e fere como uma faca bem afiada.
Tenho pena de si.
- Pena porqu?
Guido balouou a cabea.
- O mundo est cheio de mulheres... e voc logo foi gostar de
uma to complicada. Ah - mudou bruscamente de assunto -, e
Janzoon, j fez a proposta?
- Ainda no. Est  espera de ver o que acontece. Por
enquanto ainda no houve uma prova de fora a srio entre mim e
Rubensohn.  isso que lhe falta para se decidir.
- Acho que ele no ter de esperar muito.
No tom de voz de Guido houve algo que alertou

109

McCreary. O pequeno napolitano j no estava a brincar.
O seu rosto denunciava dvida e indeciso. A queima-roupa,
McCreary perguntou-lhe:
- Tem alguma ideia nessa cabea? Vamos, Guido, desembuche!
- No - a recusa de Guido parecia definitiva.
Tenho uma ideia, mas  s minha, particular. Se tiver razo,
no h nada que voc possa fazer. Mas se eu estiver enganado,
nesse caso est a preocupar-se com ninharias quando deveria
estar a tratar de outras coisas. Ou muito me engano, ou a
primeira prova de fora entre vocs vai acontecer esta noite.
McCreary teve de se contentar com aquela explicao. Antes
que pudesse fazer-lhe outra pergunta, ouviram um rumor de
vozes no convs e Janzoon apareceu com o vizir e cortesos de
Karang Sharo. O sulto ficara l em baixo com Rubensohn e
Lisette.
Nas duas horas seguintes, ficaram de p, sentaram-se ou
passearam sob o toldo, entretendo os visitantes, enquanto o
pessoal da cozinha andava numa azfama com pratos e bandejas
com bebidas. Os oficiais falavam apenas o malaio rudimentar
usado a bordo, de modo que a maior parte da conversa recaiu
sobre Janzoon e McCreary, mas a pacincia de ambos no tardou
a esmorecer perante a compostura sorridente dos nativos que
respondiam evasivamente s perguntas mais banais e em nada
contribuam para manter a conversa.
Pouco depois, quando Rubensohn e o sulto apareceram, a
situao piorou. Os membros da comitiva quedaram-se numa
atitude submissa, enquanto o "Umbigo do Universo" comia, bebia
e conversava exclusivamente com Janzoon e Rubensohn.
McCreary aguentou enquanto pde e por fim tentou escapar-se
para saber o que acontecera a Lisette; nesse momento, porm,
Rubensohn chamou-o para o apresentar ao sulto. A partir de
ento teve de ficar at ao fim da cerimnia, pouco  vontade e
a transpirar, tentando responder a centenas de perguntas sobre
os mecanismos

110

da explorao petrolfera num vocabulrio malaio que no
ultrapassava os mais elementares actos quotidianos.
Finalmente, tudo terminou. Foram de novo passados em revista
 despedida e, em seguida, o cortejo real foi conduzido 
grande canoa. Antes de chegarem a meio do percurso, j
Alfieri orientava a descarga dos presentes que deveriam ser
oferecidos na recepo a realizar naquela mesma noite no
palcio.
Ouviram roncar a lancha de Miranda, que rebocava uma fila de
pontes irregulares, levando cada um deles um grupo de garotos
para desatar os cabos e preparar a carga para a viagem de
regresso ao litoral.
Enquanto fiscalizava a maneira como estava a ser executado o
servio, Rubensohn manteve a seu lado Janzoon e McCreary.
Satisfeito, disse:
- Temos assuntos a tratar, meus senhores. Vamos at ao seu
camarote, Janzoon. Lisette est a descansar e no quero
incomod-la. Ela quer aparecer em boa forma esta noite.
McCreary lanou-lhe um olhar rpido, mas no viu malcia nos
olhos dele. Rubensohn mostrava-se sempre na melhor das
disposies quando havia tarefas a cumprir. A maldade e a
malcia eram prazeres para os momentos de folga. No permitia
que interferissem nos seus projectos.
Janzoon recebeu-os no seu camarote e serviu-lhes do seu usque
particular. Ele e Rubensohn acenderam charutos, enquanto
McCreary fumava um cigarro. Rubensohn foi direito ao assunto.
- Meus senhores, somos uma empresa em actividade. O sulto est
satisfeito com os presentes que lhe oferecemos e com a nossa
promessa de lhe pagarmos direitos sobre o petrleo extrado,
que sero liquidados em espcie e depsitos em bancos
norte-americanos.
- Que, naturalmente, nunca chegaro s suas mos - disse
McCreary secamente.
- Precisamente! - disse Rubensohn. - Mas, quando ele descobrir
isso, estaremos longe e de posse do
lucro. Ento, ser a vez de Scott Morrison ter de se
preocupar.
Janzoon riu-se.
- Gosto desse pormenor. O ltimo prego cravado no caixo, hem?
Rubensohn prosseguiu sem demora:
- O documento da concesso ser-nos- apresentado esta noite, no
palcio. No tem valor legal, mas no deixa de ser mais uma
prova para oferecermos ao nosso amigo Morrison. E ele no
levantar dvidas quanto  sua autenticidade.
- Quando posso comear a desembarcar o meu equipamento? perguntou McCreary.
- Amanh bem cedo. Ao amanhecer, Miranda vir com os barcos.
Levar primeiro as estruturas metlicas. O resto ficar para
depois, quando voc estiver no convs para supervisar, o que
ser muito mais tarde, suponho.
- Por que diz isso?
Rubensohn bebeu um golo de usque e sorriu.
- Porque esta noite, McCreary, vai assistir a mais uma das
maravilhas de que lhe falei. Vo oferecer-nos uma recepo no
palcio. Vamos ser levados pela colina acima em liteiras;
depois do banquete e dos outros divertimentos, cada um de ns
receber um presente rgio, e regressaremos de novo carregados
e, sem dvida, em bastante mau estado.
Janzoon murmurou com o charuto na boca:
- Cuidado com o suco de palmeira, McCreary. Misturado seja l
com o que for, d sempre uma tremenda dor de cabea!
- No me esquecerei - disse, com um sorriso, McCreary. Parece que vai ser o maior acontecimento da temporada.
- Maior do que pode imaginar, McCreary.
Rubensohn virou-se para Janzoon.
- Uma alterao nas instrues, comandante. Pelo menos at
tomarmos outras providncias em terra,  permitido trazer
mulheres para bordo.

112

- Acha conveniente? - Janzoon franziu o sobrolho.
Gosto de me divertir, como qualquer homem, mas quero ter o meu
navio sempre em ordem.
- Tem outra sugesto melhor? Fui informado pelo sulto de que
cada oficial ser presenteado com uma concubina para seu uso
durante a nossa estada em Karang Sharo. - Sorriu e humedeceu
os lbios vermelhos.
Creio que se trata de um costume antigo que, infelizmente,
caiu em desuso noutras partes do mundo. No achei
aconselhvel recusar, portanto fica a seu cargo, Janzoon,
manter a disciplina e conseguir acomodaes adequadas em
terra. Isto vai bem, no acha, McCreary?
- Demasiadamente bem - disse McCreary sem entusiasmo. - Por que
se preocupa ele tanto com um bando de intrometidos, que,
alis, esto a fazer um negcio vantajoso.
Rubensohn afastou a objeco com um gesto vago.
- Penso que sou um bom negociante. Talvez o "Umbigo do
Universo" tenha feito um negcio melhor do que esperava, mas,
de uma maneira ou de outra, quem somos ns para reclamar?
- Tem razo - respondeu McCreary num tom dbio.
Mas, lembrando-se do aviso de Guido e dos pedidos desesperados
de Lisette, ficou preocupado e inquieto. A perspectiva dos
festejos nocturnos no lhe trazia nenhum prazer; desejava
desesperadamente falar com Lisette. Mas Rubensohn e Janzoon
retiveram-no ali a conversar durante o resto da tarde. Quando
chegou a altura de se ir arranjar, Lisette estava ainda no seu
camarote, bem como Rubensohn, portanto no tiveram
oportunidade de se ver.
O Sol desapareceu rapidamente atrs da crista das montanhas,
fazendo as ilhas e o mar mergulhar de repente na escurido.
As estrelas cintilavam e o brilho das lanternas amareladas dos
kampongs e a luminosidade do vulco recortavam-se levemente
contra o cu sombrio.
Subitamente, como se a um sinal convencionado, acenderam-se
tochas primeiro na praia, depois ao

113

longo da alameda sinuosa e pelos terraos de acesso ao
palcio. As labaredas subiam ondulantes nas mos dos
portadores das tochas e davam a impresso de uma enorme
serpente de fogo a retorcer-se pela montanha abaixo.
Quando chegou ao convs, vestido a rigor, McCreary encontrou
os outros oficiais, que observavam o espectculo, empertigados
como pombos, de jaquetas muito brancas e engomadas.
A escada tinha sido arriada at  altura do primeiro barco
que os devia transportar, o qual balouava ao de leve sobre as
guas, com os remos recolhidos e um marinheiro de p para os
ajudar a entrar. A cada oficial tinha sido designado um
membro da tripulao para o assistir, e os que tinham sido
escolhidos mantinham-se  parte, de roupas limpas e olhos a
transbordar de interesse. Das sombras chegavam os sussurros
sibilantes das suas vozes.
Alfieri aproximou-se de McCreary e disse laconicamente:
- O comandante envia-lhe cumprimentos, senhor McCreary. O
senhor ser conduzido para terra no primeiro barco, juntamente
com os outros oficiais. L encontraro liteiras que os
esperam para poderem seguir imediatamente para o palcio. O
seu criado caminhar ao lado da sua liteira e permanecer de
p, um pouco atrs, durante a cerimnia.
Gritou um nome e um cozinheiro chins de rosto redondo como a
Lua avanou para servir McCreary. Guido ps-se a seu lado e
disse em voz baixa:
- Tambm vou no primeiro barco, McCreary. Gostaria de ficar ao
p de si.
- ptimo, Guido. Preciso muito de companhia.
- Foi o que eu pensei.
Ento, Alfieri convocou-os energicamente e eles comearam a
descer a escada seguidos dos seus ajudantes, passando para o
barco que estava  espera.
Quando chegaram  praia, encontraram as liteiras

114

alinhadas entre as filas dos carregadores de tochas e viram,
atrs da luz que elas projectavam, os presentes que os
carregadores iriam transportar, empilhados e cobertos com
panos. Sob uma das cobertas, NcCreary percebeu, pelo
formato, que se encontrava um pequeno carro, amarrado com
correias a varas longas e resistentes a fim de ser levado
montanha acima. Um pouco mais adiante estava uma fila de
guardas que continha uma multido de pessoas, cujo murmrio
parecia o zumbido de uma colmeia. A luz das tochas tremia nos
rostos escuros e luzidios, realando, de maneira peculiar, os
seus olhos esbugalhados
Um dos carregadores das liteiras tocou ao de leve no brao de
McCreary e indicou-lhe o seu lugar. McCreary subiu
desajeitadamente para a plataforma e sentou-se numa cadeirinha
forrada de seda, que exalava um aroma mesclado de condimentos
e sndalo. Um pouco  sua frente viu Guido, que subia tambm
com dificuldade para a sua liteira.
A seguir, obedecendo a uma ordem, os carregadores curvaram-se
e levantaram as longas varas, colocando-as sobre os ombros;
McCreary viu-se erguido bastante acima das tochas, como um
capito aps um qualquer triunfo brbaro.
Ao longo de todo o percurso da montanha viam-se tochas acesas
e muitos nativos. Tinham perfumado as tochas com incenso e
este misturava-se ao cheiro das pessoas,  poeira, s
emanaes tpidas dos kampongs e da mata.
Sobre a sua cabea, as rvores pendiam imveis no ar pesado e
por cima das folhas o cu aparecia cheio de estrelas. As
vezes ouvia-se o alarido de pssaros nocturnos, logo abafado
pelos gritos dos nativos, que riam, gritavam e batiam palmas 
passagem dos convidados do sulto.
A dada altura, a luz das tochas iluminou uma vasta superfcie
de gua numa represa, e McCreary vislumbrou grandes
lrios-de-gua com as suas ptalas

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gigantescas curvadas para dentro, como que adormecidas; quando os
espectadores comearam a rarear ao longo do trajecto, ele
conseguiu escutar o grave zumbido dos insectos que se
aproximavam da claridade e o coaxar dos sapos nas margens das
guas esverdeadas.
Caminhando  frente, Guido voltou-se, ergueu as mos acima da
cabea e gritou:
- Che passeggiata, amico! Ento, est a gostar?
McCreary acenou e advertiu-o:
- Cuidado, Guido, seno acaba por cair e partir o pescoo.
De repente viram-se junto ao porto do palcio.
Dois grandes pilares de teca erguiam-se  entrada, esculpidos
com flores e monstros retorcidos, coroados com asas de pssaro
abertas. Os guardas que estavam  frente de cada pilar
fizeram sinal para o cortejo seguir em frente e, quando
passou, McCreary reparou nos enormes portes de madeira
talhados em forma de biombos e, mais adiante, nos jardins
ascendentes, um sobre o outro, que teriam de atravessar para
chegar ao palcio.
Todas as janelas estavam iluminadas, assim como as arcadas e
as colunatas, de modo que toda aquela estrutura de pedra
parecia leve como uma pluma, prestes a voar  primeira rajada
de vento. Mas no havia vento. No ar parado misturava-se o
cheiro de flores e de incenso queimado, ouvindo-se ao longe o
tilintar de guizos.
Embalado pelo oscilar da liteira, McCreary tinha a impresso
de que flutuava, separado do seu corpo, num sonho de pio,
incapaz de uma deciso ou atitude. Por fim, o sonho terminou.
O cortejo parara. As liteiras baixaram e, ao descerem delas,
um tanto retesados, viram-se num ptio largo e descoberto que
tinha numa das extremidades um lance de degraus enfeitado com
os mesmos reluzentes ornamentos em relevo do palcio. No cimo
da escada aguardavam-nos o vizir e o seu squito.
Comearam a subir os degraus lentamente, seguidos

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de perto pelos criados. O vizir cumprimentou-os no seu suave
dialecto malaio e conduziu-os atravs do prtico, ao longo de
uma requintada colunata esculpida  maneira hindu, que tinha
ao fundo um trono elevado e, por detrs dele, um corrimo de
pedra trabalhada.
Mudos de assombro, entreolharam-se.
Era um aposento suficientemente espaoso para conter um
exrcito. As paredes, as colunas e o prprio trono deviam ter
sido esculpidos pelos artfices chegados no sculo IX com os
monarcas hindus das ilhas das especiarias.
O quadrado central estava feericamente iluminado e  volta
havia almofadas empilhadas e mesas baixas de madeira lavrada
incrustadas de prolas. Atrs das colunas, onde estava mais
escuro, servos com blusas bordadas e sarongs coloridos
aguardavam em silncio;  esquerda do trono, uma orquestra
gamelan tocava os seus ritmos montonos. Atrs do corrimo de
pedra lavrada elevou-se um murmrio de vozes femininas e uma
ou outra gargalhada abafada, como se as mulheres da casa
estivessem a observar a chegada dos estrangeiros.
O espao  frente do trono e entre as mesas estava desimpedido
para deixar passar os servos e os artistas, e o trono brilhava
com as luzes cambiantes das jias, que reflectiam as chamas
trmulas dos lampies pendurados no tecto e nos ornamentos dos
pilares.
A direita do trono principal tinha sido montado outro, menor,
menos cravejado de jias, evidentemente desmontvel. McCreary
pensou se seria destinado a Rubensohn ou ao membro mais velho
da famlia. No havia um protocolo rgido nesses pequenos
sultanatos. Os seus hbitos eram uma combinao barroca de
costumes adventcios e religies estranhamente interligadas.
O vizir conduziu-os ao alinhamento de almofadas que estavam
imediatamente  frente do trono e f-los sentar um pouco para
alm do trio central. Guido colocou-se ao lado de McCreary e
observou, com os olhos esbugalhados, o vizir bater as mos
para chamar um pequeno

117

grupo de servos, que trouxeram cada um uma bandeja de prata
com um clice tambm de prata, cheio de uma bebida  base de
suco de palmeira, e uma caixa de doces gelatinosos.
Curvaram-se, apresentaram as suas ofertas e foram-se embora.
Ao provar o lquido adocicado e inspido, Guido soltou uma
gargalhada.
- Pobre Arturo! Teve de ficar como co de guarda numa noite
destas. Coitado!
- Melhor para ele, se ficar de fora - disse McCreary com uma
careta. - Disseram que a noite podia acabar mal. Onde ser
que Rubensohn se meteu?
Guido encolheu os ombros dramaticamente.
- Ele j vem! A entrada triunfal, com o Janzoon e todos os
gales dourados e a rapariga pelo brao. No me admirava se
ele fosse direito ao trono e tomasse o lugar do sulto.
- Eu tambm no - disse McCreary. - Mas no esta
noite.
Guido sorriu e voltou-se para a frente, conversando em
italiano com os outros oficiais. McCreary sorveu a sua bebida
e entregou-se  contemplao do esplendor brbaro que o
rodeava.
Agora podia compreender os sonhos dos piratas. Era isto que
os tinha atrado atravs dos sculos, sob bandeiras estranhas,
em frgeis navios e com tripulaes miserveis... esta viso
de tronos de pavo, deuses com jias nos olhos e tesouros
enterrados sob os alicerces de palcios fantsticos.
Para eles, o poder era uma coisa palpvel, medida pelo peso
das barras de ouro, pelo nmero de escravos, pelas dimenses e
esplendor do palcio ou mausolu.
Eram os primitivos, banidos pela civilizao. Para eles no
havia descanso nas metrpoles, nenhuma esperana no Velho
Mundo. E se morressem demasiado cedo, tombariam com o cheiro
de incenso nas narinas e a msica de lnguas exticas no
ouvido.
Rubensohn possua essa ndole de pirata e isso era a

118

melhor parte da sua complexa personalidade. Revelava-se nos
seus momentos de exaltao e na audcia tranquila das suas
patifarias. Era um tipo importante; poderia mesmo ter sido um
grande homem se no fosse aquela tara de crueldade e astcia
pervertida.
Subitamente, a msica cessou para, em seguida, recomear numa
cadncia diferente e mais forte. Ouviu-se o rumor de
reposteiros afastados, o murmrio de vozes, e os cortesos
comearam a entrar, em filas, espalhafatosos como papagaios
nas suas blusas de seda, coletes bordados e sarongs de ousados
motivos florais. Curvaram-se formalmente mostrando os dentes
manchados de btel num sorriso de boas-vindas e em seguida
tomaram lugar sobre as almofadas dispostas  volta da rea
desimpedida. De novo os servos se aproximaram com bebidas e
guloseimas, voltando depois para as arcadas na penumbra.
Um pouco mais tarde, o vizir voltou a entrar no recinto.
Rubensohn, Janzoon e Lisette seguiam-no.
A beleza da rapariga era deslumbrante. O seu corpo pequeno
estava envolvido por um sari dourado que, como era do
protocolo, lhe descia dos cabelos e caa em dobras suaves at
s sandlias tambm douradas. No pescoo e nos pulsos tinha
esmeraldas, e a pele, contra a claridade, tinha um brilho de
alabastro.
O rostro parecia uma mscara moldada por um escultor, imvel e
perfeita, onde os olhos eram o nico indcio de vida.
Rubensohn e Janzoon conduziram-na at  almofada central e
sentaram-na confortavelmente. Ela cobriu o rosto com o sari,
como se fosse um vu, e ficou, muda e absorta,  espera que se
iniciasse a cerimnia.
O rolio vizir aproximou-se dos ps do trono e ficou em
expectativa. Ento, um gongo soou, terrivelmente estridente,
ecoando atravs das colunatas e elevando-se entre as figuras
esculpidas do tecto. Puseram-se todos de p e aguardaram, de
cabea baixa e olhos fechados, enquanto o vizir proclamava os
dez nomes rituais do

119

sulto de Karang Sharo, terminando pelo mais imponente: "Umbigo
do Universo".
Quando levantaram os olhos, viram-no de p, em cima do
estrado, uma figura mida de aspecto juvenil que contrastava
com a imensido do trono de pavo, com os guardas alinhados 
sua volta e, ao lado, o trono menor, ainda vazio. Sentou-se.
Esperaram que ele erguesse a mo e depois sentaram-se nas
almofadas.
McCreary achou que tinha sido uma encenao hbil. Pensou at
que Rubensohn devia ter participado nela. Pensou, tambm, que
tinha chegado a altura de servirem mais bebidas. Tinha a boca
seca e o gosto dos doces gelatinosos na lngua.
Foi ento que a figura rotunda voltou a entrar em cena.
Falava, explicou ele, imerecidamente em nome do magnfico,
cuja voz era um trovo capaz de despertar a montanha
adormecida. A sua voz - que ele esperava que soasse como
flores na sua boca - elevava-se para dar as boas-vindas
queles estrangeiros, cuja chegada. traria prosperidade ao
pas e riquezas ao povo. Tinham chegado como amigos e traziam
presentes que eram a promessa de outros ainda maiores.
Contudo, o grande homem, o que possua dez nomes e era o mais
importante de todos, no desejava ser superado em
generosidade. Sendo assim, ele oferecia a sua ddiva a cada
um dos estrangeiros: uma jia para ser usada junto ao corao,
uma flor para perfumar o travesseiro...
Ergueu a mo rechonchuda e os gongos soaram de novo. Das
sombras das colunatas aproximaram-se sete raparigas, midas e
perfeitas, frescas e jovens, trazendo cada uma delas uma
pequena almofada sobre a qual repousava uma jia engastada na
delicada filigrana dos artesos locais. Ajoelharam-se 
frente de Rubensohn, de McCreary e de cada um dos oficiais,
apresentando-lhes as ofertas. Seguidamente, ajoelharam-se ao
lado das almofadas de cada um deles, em atitude de submisso
aos seus novos amos.

120

Novamente os gongos soaram e Rubensohn ergueu-se. McCreary
observou-o fascinado. Embora o odiasse, no podia deixar de
reconhecer a fora que dele emanava. O seu traje era
insignificante ao lado dos vistosos atavios dos asiticos, mas apesar disso ele dominava a reunio e quase apagava o personagem sentado no trono de pavo. Fez uma
pausa e comeou ento a falar num malaio perfeito, cheio de
aluses e hiprboles religiosas.
Sentia-se agradecido, dizia ele, pelas honrarias principescas
que tinham sido dispensadas a si e aos seus amigos. Os
presentes que trouxera eram insignificantes e indignos quando
comparados com os do sulto; no entanto, constituam a
promessa de outros melhores. Alm do mais, vinham de um mundo
novo, onde os prodgios brotavam como pombas das mos de um
mgico...
Enquanto falava, os carregadores comearam a transportar os
presentes que se encontravam ao fundo do salo, dispondo-os 
volta do trono.
L estava uma mquina que traria as vozes do mundo para o
palcio de Karang Sharo. Havia uma mquina que iluminaria o
palcio inteiro com o simples toque de um dedo. Tambm havia
um palanquim sobre rodas que transportaria o "Umbigo do
Universo" a qualquer lugar que desejasse, assim que se
construssem as estradas apropriadas.para o seu uso. Havia
armas para o arsenal real, louas iguais s usadas pelos
prncipes europeus; sedas para a famlia real e jias para os
dedos das esposas reais. Havia presentes para todos os
oficiais do palcio...
Fez outra pausa, enquanto a ltima caixa era colocada perto do
reluzente veculo, ridculo e inadequado no meio daquela
venervel magnificncia.
E, por fim, o maior dos presentes que lhe era possvel
oferecer, uma prola de incomparvel qualidade, uma ddiva
particular para o "Umbigo do Universo,", que humildemente
pedia para entregar pessoalmente

121

Lentamente, ajudou Lisette a levantar-se e conduziu-a,
devagar, at ao espao livre aos ps do trono.
- No, meu Deus!
A voz de McCreary era um sussurro de horror e ia levantar-se
quando Janzoon e Guido o detiveram com firmeza, forando-o a
sentar-se de novo. Precipitadamente, Guido disse-lhe ao
ouvido:
- Agora no, por favor! Voc ser trucidado e no poder
ajud-la! Controle-se... para o bem dela!
Ele deixou-se enterrar nas almofadas, sentindo a presso
dos dedos de ambos nos seus braos, e viu Liset ajoelhar-se,
como uma escrava, aos ps do sulto. Depois viu aquelas mos
escuras fazerem-na erguer-se, retirarem-lhe o vu e
conduzirem-na para o trono ao lado do seu, enquanto os
cortesos manifestavam, com suspiros, a sua admirao diante
de tanta beleza.
Viu Rubensohn curvar-se e caminhar lentamente de volta ao seu
lugar: nos lbios um esboo de sorriso e nos olhos um brilho
de malcia triunfante. Sentiu um desejo desesperado de saltar
para cima dele e despeda-lo. Todavia, Guido e Janzoon
detinham-no.
O documento da concesso foi ento apresentado e a msica
recomeou e com ela o longo desfile de servos com iguarias e
bebidas. Seguiram-se malabaristas, acrobatas e bailarinas,
movendo-se como bonecas articuladas ao ritmo de antigas mmicas.
McCreary no via nada. Sentado em silncio, a fisionomia
endurecida, encharcava-se em bebida e olhava para Lisette,
que, ao lado do trono de pavo, se deixava alimentar como se
fosse um pssaro pelos dedos escuros do sulto.
Quando a noitada terminou, levaram-no para a liteira,
completamente embriagado; chegados ao navio, Guido e a jovem
escrava parda despiram-no e deitaram-no na cama.

Quando despertou, sentiu-se horrivelmente. A cabea latejava,
e a lngua parecia no lhe caber na boca. Tinha a pele
pegajosa e com um cheiro horrvel. Os lenis envolviam-no
como uma mortalha. Viu que o camarote estava cheio de sol e
que uma jovem escura, sentada na sua cadeira, o observava com
os olhos muito abertos e
srios.
Recordou-se ento - e a lembrana foi como um soco no
estmago. Conseguiu levantar-se e cambaleou at  casa de
banho; pouco depois a rapariga chegou e ajudou-o a barbear-se
e a lavar-se. Ela agia com simplicidade e sem fazer
perguntas. As suas mos eram macias, os movimentos geis e
McCreary considerou-a um blsamo para os seus anteriores
tormentos.
Tinha descido o ltimo degrau e sabia-o. Tambm sabia que
fora a sua inabalvel f na sorte dos irlandeses que o fizera
chegar quele ponto. Tinha tentado lutar contra adversrios
de categoria superior  sua e acabara na lama, com Rubensohn a
esmurrar-lhe os dentes e Lisette a ser entregue, desamparada,
como parte de uma transaco de petrleo. Perguntava a si
mesmo por que  que ela nunca lhe revelara a inteno de
Rubensohn. A resposta era bastante simples. Ela sabia que
ele nada poderia fazer e que, se soubesse, agiria como um
irlands obstinado e acabaria por ser atingido. Por isso ele
agora estava de cuecas, sentado  beira da cama, com as

123

mos na cabea dorida e sem saber o que fazer. Os outros
deviam estar tambm na expectativa - Rubensohn e Janzoon. A
espera da sua reaco e preparando-se para o contra-ataque.
Que encontrariam pela frente? Um rebelde de olhos injectados,
mal-disposto devido  ressaca, a atacar de cabea baixa,
facilmente subjugvel por outro soco nos dentes? No, isso no
seria vantajoso, nem para Lisette nem para ele prprio.
Precisava de tempo para se dominar e planear o golpe antes de
enfrentar Rubensohn. A nativa ajudou-o a vestir-se e depois
ele mandou-a ir buscar  cozinha um pequeno-almoo prprio
para uma pessoa enjoada. Ela percebia rapidamente as suas
ordens em malaio, mas ele estava aturdido de mais para
compreender o dialecto daquela ilha extica.
Os dispenseiros de bordo enviaram-lhe o tratamento habitual.
Um grande bule de caf, uma fatia de mamo, um pequeno peixe
grelhado e torradas com manteiga. S de olhar para a comida
sentiu o estmago revoltar-se, mas esforou-se por comer, e
quando esvaziou o bule de caf comeou a sentir-se muito
melhor. Ao olhar para o espelho, voltou a piorar. A pele
estava amarela e manchada, os olhos pareciam dois furos feitos
com um cigarro num lenol. Tentou acender um cigarro, mas as
mos tremiam-lhe como se estivesse com malria.
Voltou a mandar a nativa  cozinha para buscar mais caf e
comida para ela prpria, enquanto se sentava e tentava
recuperar as foras. Do exterior chegavam-lhe aos ouvidos o
guinchar dos guindastes e os berros da populao que
descarregava os materiais. Miranda tinha entrado em aco e a
primeira parte do equipamento de perfurao ia j a caminho de
terra. Em breve, ele teria de subir ao convs para dirigir a
descarga dos motores e dos geradores, o que, pensou, seria a
prova final.
Apesar das nuseas no estmago e da dor que lhe ia no corao,
teria de os enfrentar com um sorriso, abalar-lhes a certeza da
vitria, torn-los inseguros quanto s suas aces futuras.
S lhe restava um trunfo: sem

124

ele no poderiam obter petrleo. Tudo dependia de como e
quando o utilizasse.
A rapariga voltou com o caf que ele pedira e um prato de
arroz para si prpria. Sentou-se a seus ps, de pernas
cruzadas  maneira nativa, e McCreary foi-lhe fazendo
perguntas, brandamente, enquanto comia:
- Qual  o teu nome?
- O meu nome  Flor Flamejante, tuan.
-  um nome muito bonito.
- Fico contente por gostar dele, tuan.
- Sabes que agora s minha?
- Sei, tuan.
- Daqui a pouco tenho de ir trabalhar. Enquanto eu estiver
fora, lavas a minha roupa e quando estiver seca pe-na ao p
das outras, como te vou mostrar. Vamos sair daqui.
- Para onde, tuan?
- Para Karang Sharo. Moraremos l durante algum tempo.
Ela olhou-o com olhos brilhantes e ingnuos.
- E eu serei a mulher do tuan, tomarei conta dele e...
- Tomars conta de mim - disse McCreary apressadamente,
acrescentando, de si para si, "e  melhor deixar o resto para
mais tarde. De momento, j tenho problemas de sobra.
Bebeu o ltimo golo de caf, levantou-se, fez um monte com a
roupa suja e mostrou-lhe como a deveria arrumar na sacola. Em
seguida, colocou uns culos escuros, para disfarar os efeitos
da noite anterior, e subiu ao convs.

Alfieri estava junto dos guindastes e dava ordens aos
trabalhadores. Cumprimentou McCreary apressadamente e de m
vontade e em seguida afastou-se. McCreary desejou que ele
estivesse to cheio de blis como parecia.
O comandante Janzoon caminhava pelo convs da frente.
McCreary acenou-lhe e gritou-lhe um cumprimento. Janzoon
ergueu os olhos, ligeiramente surpreendido,

125

e respondeu ao aceno com uma certa hesitao. No havia
nenhum oficial nas redondezas, apenas duas nativas de ccoras,
encostadas ao tabique, a comer da mesma tijela de arroz e a
conversar com vozes que lembravam o chilrear de pssaros.
McCreary avanou at  amurada e ficou a observar os rapazes
nativos de p sobre os pontes oscilantes, manobrando o pesado
carregamento, enquanto Miranda lhes gritava instrues do seu
barco.
Olhou por cima das guas ofuscantes para o palcio no sop da
montanha e pensou em Lisette. Pouco depois ouviu a seu lado a
voz aflautada de Rubensohn:
- Acordou cedo, McCreary.
-  um hbito antigo - respondeu friamente McCreary. - A manh 
a melhor parte do dia.
- Gostou da noitada?
- Claro. Foi ptima.
- O maior acontecimento da temporada?
Rubensohn provocava-o cruelmente, mas McCreary conseguiu
sorrir-lhe, dando graas por ter os olhos escondidos atrs dos
culos escuros.
- O maior. Pelo menos, a parte que consegui ver.
- Achei que a Lisette estava uma beleza.
- Tambm eu.
- Discorda da minha transaco?
- Acho-o um tarado - declarou McCreary sem rancor. - Mas,
enfim, j calculava. Alm disso, ela no era o meu tipo,
seno tambm eu me teria aproveitado
dela.
Fora de uma crueldade premeditada, mas no se arrependia.
Sentiu um prazer mrbido, quando viu Rubensohn recuar e fazer
um esforo para se controlar.
- Voc  mais duro que o que eu pensava, McCreary - Era um
desabafo em voz alta, macio como seda.
- No tenho outro remdio - respondeu McCreary.
Estou a lutar contra gente dura. E, j que estamos a falar de
negcios, h um contratozinho para ser assinado e entregue
antes de eu comear a trabalhar.

126

Estar pronto dentro de uma hora - disse Rubensohn categoricamente.
- Mas antes de o assinarmos...
- O qu?
- Quero ver o seu passaporte.
Rubensohn foi apanhado completamente desprevenido. Inclinou a
cabea para trs, semicerrou os olhos e a sua voz fina
tornou-se insegura.
- Onde  que pretende chegar, McCreary?
McCreary encostou-se  amurada e sorriu.
- Quero apenas um documento legal, com assinatura reconhecida.
 por isso que gostaria de ver o seu passaporte.
Rubensohn fitou-o demoradamente e depois, para surpresa de
McCreary, sorriu.
- Eu mostro-lho antes de assinarmos. Mais alguma coisa?
- Sim. Janzoon fez-me uma proposta.
- Que tipo de proposta?
O facto constituiu uma novidade para Rubensohn e, apesar do
esforo que fez para se controlar, no conseguiu disfarar
quanto tal revelao o abalou.
- Uma dupla proposta - respondeu sardonicamente McCreary. Ele ainda no se decidiu por nenhuma das duas modalidades. Ou
me suborna em espcie, para garantir proteco contra si, ou
se junta a mim para o enganarmos a si. E somos capazes de o
fazer.
Rubensohn lanou-lhe um olhar longo e especulativo. - Nesse
caso, por que me est a contar tudo?
- Voc  um grande homem, Rubensohn. Creio que pode fazer
muito por ns - disse McCreary ponderadamente. - Mas mesmo os
maiores homens podem cometer erros que acabam por destru-los.
O seu maior erro foi escolher o tipo menos indicado para
receber os seus coices. Janzoon, como se tem visto, tolera-o
por puro medo. Eu no. No tenho nada a perder e tenho muito
a ganhar. J lho tinha dito.  altura de o compreender.

127

- Mudou muito desde aquela primeira noite em Jacarta.
- Aprendo com rapidez - replicou McCreary com bom humor. - Os
irlandeses so excelentes negociantes de cavalos.
Rubensohn confirmou com a cabea devagar e encostou-se 
amurada, absorto nos seus pensamentos. Aps um curto
intervalo, virou-se para McCreary:
- Seria melhor se pudssemos ter mais confiana um no outro.
- Sem dvida - concordou McCreary - Mas acho totalmente
impossvel chegarmos a esse ponto. - Mudou de assunto
bruscamente: - A descarga terminar dentro de duas horas.
Pretendo pr-me a caminho assim que tivermos resolvido aquela
questo do contrato. Com certeza que vai aparecer com
frequncia para se inteirar do andamento da obra, no?
- Todos os dias - respondeu Rubensohn -, at termos o poo
perfurado.
- Depois pretende matar-me, no  verdade"
- Tinha pensado nisso - respondeu Rubensohn com surpreendente
franqueza. - Mas agora mudei de ideias. Pensando melhor, vou
faz-lo matar o Janzoon.
- Mais uma mentira - disse McCreary tranquilamente.
Rubensohn ficou vermelho de raiva. - Oua, McCreary...
- No ouo nada, meu velho. Por que no confessa? Gostaria de
nos afastar aos dois do seu caminho para ficar com o bolo
todo. Se no fosse assim, por que teria oferecido a Alfieri o
posto de comandante?
- Alfieri contou-lhe isso?
- No, foi uma gaivota.
- J avisou Janzoon?
- Pensei faz-lo - disse McCreary cauteloso. - Tambm pensei espalhar pela ilha que a nova esposa do sulto
veio directamente do Pavilho do Pavo, de Saigo; pensei
informar Scott Morrison que a transaco 

128

uma fraude e que h um morto em Jacarta que poder prov-lo.
Do mesmo modo, j imaginei todos os meios possveis para o
impedir de obter a mnima gota de petrleo, se existir a
hiptese de me matar quando o vir a jorrar. E agora,
Rubensohn, no acha que j  tempo de jogar honestamente?
Dito isto, virou-se e dirigiu-se para junto dos guindastes,
onde ficou a admirar o primeiro gerador a ser iado sobre a
amurada. No confiava muito no xito do que tinha dito.
Fora um gesto tipicamente irlands, e esperava ter perturbado
Rubensohn, mas era provvel que acabasse, de facto, por ser
liquidado no final.
Duas horas mais tarde, acompanhado por Guido e
Agnello, pelo chefe das mquinas i , alm de Flor Flamejante e da rapariga de Agnello, McCreary deixou o navio para
se dirigir ao local da perfurao. Levava no bolso o mapa do
levantamento, bem como o contrato de Rubensohn onde constava
que, em troca de servios prestados, ele teria direito 
quarta parte do produto da venda e autorizao para exigir que
esse pagamento fosse feito directamente pelo comprador.
No tinha iluses quanto  validade do documento. No havia
lei nenhuma no mundo que tornasse obrigatrio um pagamento ao
cmplice de um crime. Para si, o mais interessante era o
facto de Rubensohn ser o nome verdadeiro, alm de que a
assinatura era autntica, confirmada pela do passaporte. Este
prestara-lhe ainda outras informaes. Rubensohn era sbdito
britnico, de origem polaca, tendo-se naturalizado dez anos
atrs. Tinha quarenta e oito anos de idade e o seu nome
completo era Joseph Ladislas Rubensohn. O passaporte era
volumoso, de acordo com a existncia errante de Rubensohn.
Talvez um dia esses factos viessem a ser-lhe teis. Por
agora, tinha outros assuntos com que se ocupar.
Ao chegarem  praia, Miranda esperava-os com dois rapazes para
carregarem a bagagem e o transmissor. O restante equipamento
j estava a caminho, transportado

129

sobre varas, em armaes de bambu, por um pequeno exrcito
pardo.
Puseram-se a caminho pela trilha sinuosa que passava pelas
aldeolas da costa at atingir o primeiro contraforte da
montanha, para alm do qual ficava a zona de perfurao.
Agnello ia  frente, com Miranda; Guido e McCreary
seguiam-nos, lado a lado, e as duas nativas saltitavam atrs
deles como duas crianas.
Os seus passos levantavam pequenas nuvens de poeira que lhes
secavam os lbios e se infiltravam nas narinas. As grandes
folhas verdes pendiam, imveis, e no ar crepitava o zumbido
dos insectos e o rudo de vozes que chegavam das aldeias.
Pouco a pouco, a bebida comeou a ser eliminada pela
transpirao, e McCreary deixou-se absorver pela vida
pitoresca e intensa que se escoava das cabanas  margem da
estrada. Mulheres de seios nus amamentavam crianas  entrada
das suas cabanas, ou permaneciam nas lagoas  beira do
caminho, com gua at aos joelhos, a tomar banho ou a lavar
roupa. Um ferreiro martelava a lmina curva de uma adaga
sobre uma pequena fogueira de carvo. Um vendedor caminhava
devagar, levando aos ombros duas varas compridas de bambu, das
quais pendiam cachos de bananas e cestos com feijo e arroz
escuro. Raparigas sorridentes, sentadas, teciam as grandes
esteiras de palmeira que seriam mais tarde transformadas em
paredes de cabanas e em leitos. Um bfalo corria, espicaado
pela cana afiada de um garotinho, e um bando de andorinhas,
vindas do cu azul, mergulhou de repente nas sombras do
caminho. No alto dos ramos nus de um flamboyant, um rapazinho
colhia flores escarlates que atirava depois para um cesto
amarrado ao pescoo. Um ourives idoso e de olhar turvo
moldava um vaso com um pequeno martelo, e a seu lado um garoto
cor de mel, de mos pequeninas como as de uma mulher, talhava
um pente em madeira clara e macia.

130

Guido tambm se deixou absorver pelo espectculo durante algum
tempo; depois abordou o assunto que o andava a preocupar.
- Aquilo ontem  noite foi chato, amico.
- Pois foi, Guido.
- No me repreendeu... compreendeu que eu tinha de agir daquele
modo, no? De contrrio, eles acabavam consigo.
- Eu sei, Guido. Obrigado.
- O que  que vai fazer agora?
- Trabalhar - respondeu sucintamente McCreary. - Trabalhar e fazer planos para reaver Lisette e liquidar Rubensohn.
Guido assobiou.
- Acha que conseguir t-la de novo?
- Pelo menos vou tentar.
- Mas como? Viu como  o palcio. As mulheres esto
completamente isoladas e alm disso h os guardas...
- Eu sei - concordou McCreary, acenando gravemente com a
cabea. - Mas j temos um comeo. Essas raparigas... apontou para as duas figurinhas, que vinham a rir atrs deles.
- No se esquea que elas so do palcio. Conhecem o seu
interior e podero ajudar.
- Sim, se quiserem.
McCreary olhou-o fixamente.
- Que quer dizer com "se"?
Guido sorriu com vivacidade.
- Elas tambm so mulheres, McCreary. Parecem crianas, mas
tanto podem ter quinze como vinte e cinco anos. Foram dadas
de presente aos tuans; esto convencidas que so nossas
mulheres e ns os homens delas.  bom que no o esquea. Se
quer ajuda, ter de pagar, de uma forma ou de outra. Se quer
a Lisette de volta, precisa de uma aliada e nunca de uma
rival.
- Bolas! - exclamou McCreary.
- Pois . E outra coisa...
- O qu?
- Tirar Lisette de l no resolve nada. Tem de a fazer

131

sair da ilha, seno acabam os dois nas mos dos carrascos.
Ou pensa que Rubensohn vai dar aos dois uma passagem grtis no
Corsrio?
- Duvido muito.
- Ento pense tambm nisso. Lembre-se de que somos trs
pessoas, voc, a rapariga e eu, enfiados numa ilha, e que 
justamente o homem que controla o transporte que quer acabar
consigo.
- J pensei nisso - disse McCreary. - J pensei e tornei a
pensar nisso tudo e s vejo uma soluo. Um dia destes, e no
falta muito, vou matar Rubensohn. Mas antes disso vou
tirar-lhe tudo o que tem. No me pergunte como, mas a verdade
 que o vou fazer.
- Boa sorte - disse Guido, pouco convicto.
- Diga-me uma coisa. - McCreary baixou a voz e apontou com a
cabea para os dois homens que seguiam  frente. - Que tipo de
homem  esse tal Agnello? Ele vai trabalhar grande parte do
tempo comigo e quero saber se posso confiar nele.
Guido encolheu os ombros e deu um pontap numa galinha que
debicava a seus ps.
- Sabe como so os maquinistas. Comem parafusos e tomam banhos
de leo lubrificante. As vezes penso que, se pudessem, casavam
com um motor e nascia uma srie de motorzinhos. O Agnello 
assim. Tem cara de cavalo triste e fala pouco. Temos de
adivinhar o que ele sente ou pensa. Se conseguir fazer com
que ele se passe para o nosso lado, ficaremos bastante mais
fortes. Sem ele, no podero pr o navio a funcionar.
- Vou dedicar-lhe alguma ateno - declarou McCreary,
pensativo.
Tinham passado pela ltima povoao e comeavam a contornar a
cadeia montanhosa que dividia a zona de perfurao do resto da
ilha. O caminho atravessava a mata cerrada. De um lado havia
um pequeno carreiro sobre rochas esverdeadas cobertas de
samambaias e razes descarnadas de rvores de fruta-po.

132

Depois de meia hora de marcha chegaram ao local: uma clareira
bastante ampla, da qual se podia ver, a leste, o oceano e as
ilhas dispersas. Ao fundo, o dorso das montanhas elevava-se
gradualmente at ao palcio e, mais alm, at ao cone
vulcnico.
Esperavam-nos uma pequena multido de nativos, escuros e
tagarelas. O equipamento estava a um canto, cuidadosamente
empilhado.
McCreary olhou  sua volta, com olhos experientes. Era uma
boa rea favorvel quele trabalho. A gua era limpa, sem a
poluio dos kamongs. Havia boa madeira ali perto, alm de
bambu e troncos de palmeira em abundncia para a construo de
cabanas. Ao fim de um dia de trabalho poderiam apreciar o
mar, comodamente instalados, longe da praga de mosquitos, e se
subissem um pouco a montanha poderiam observar os caminhos que
conduziam ao palcio. Pensou que talvez conseguisse ver
Lisette, ainda que rapidamente, a passear no interior dos
jardins murados na companhia das outras mulheres. Pediria a
Guido que lhe trouxesse uns binculos do navio.
Miranda dirigiu-se-lhe, a gesticular, saltando ora num p ora
no outro, e falou na sua lamria de vendedor.
- C estamos. Disseram-me que o senhor  o patro aqui. Ali
est o material e os meus trabalhadores.  s dizer ao
Miranda o que quer, que metemos logo mos  obra, est bem?
- Certamente - disse McCreary para encerrar o assunto.
Chamou Agnello e Guido e percorreram juntos o
local.
- A torre ser levantada aqui, bem ao centro. A casa das
mquinas ali. A oficina e a seco de manuteno ali adiante.
Agnello, voc encontrar todas as peas devidamente numeradas
e um diagrama para as poder identificar. Cada caixote tem um
nmero que corresponde ao da relao. Escolha os seus homens
e comece a trabalhar. Na parte de trs sero erguidas duas
cabanas

133

para habitao, com as costas para a colina e a frente para o
mar; logo em frente ficar o depsito de peas de mquinas.
Deve ser coberto e suficientemente comprido para guardar os
tubos e as peas mais pesadas. A cozinha pode ficar aqui. O
transmissor na minha cabana, Guido. A seguir  torre os
abrigos para os trabalhadores. Ali os depsitos de
gasolina... uma cobertura de palha, bem feita,  o suficiente.
Durante algum tempo, a confuso e a actividade foram grandes,
mas a meio da tarde j se tinham conseguido organizar por
tarefas e McCreary, de p, tendo Guido a seu lado, verificava
o andamento dos trabalhos, da parte mais elevada da clareira.
Agnello e o seu grupo preparavam os alicerces para as grandes
pernas afastadas da torre; os toros para sustentar os motores
eram cortados na mata e depois arrastados; j se adivinhavam
as estruturas das cabanas e dos abrigos, e os pequenos vultos
escuros andavam pelos telhados a colocar as coberturas de
palha.
McCreary sentia-se satisfeito ao ver a actividade daquele
formigueiro humano. J o tinha visto antes, muitas vezes e em
locais diferentes, mas cada vez era como se fosse a primeira,
pois cada poo era um desafio; o dia em que as brocas comeam
a furar  como uma nova corrida de um cavalo desconhecido: a
multido em expectativa, as garupas lisas e luzidias na fila
de partida, as bandeiras de cada criador de cavalos a flutuar
ao vento, sem que ningum saiba qual ser o vencedor.
Era quase um sacrilgio pensar que tudo aquilo fazia parte de
um empreendimento criminoso, cujo resultado final seria a
morte e o infortnio.
Guido sentou-se no cho, mordendo, pensativo, uma erva. Hesitante, disse:
- Estive a pensar... McCreary.
- Em qu?
Guido apontou para o lado da colina onde a figura de
espantalho agitado de Miranda apressava uma fila de rapazes
que cortavam mato.

134

- Est ali o tipo que o pode ajudar. Conhece as redondezas,
sabe entrar clandestinamente no palcio e, alm disso, tem
um barco, aquela chalupa atracada no ancoradouro principal.
Ele  um negociante, no ? Conhece bem estes mares. Pelo
menos, pode lev-lo a Timor...
- No confio nele - respondeu McCreary. -  um rato de cais.
Aposto que era capaz de vender a prpria me por uns tostes.
- No  preciso confiar nele - insistiu Guido. Basta
assust-lo.
- Como iria eu consegui-lo?
-  fcil. Quando tudo isto rebentar como uma bomba, o que deve
acontecer um dia destes, quem andar por aqui? Ns? No. Nem
Rubensohn, mas sim Miranda! Se o sulto quiser queimar os
dedos de algum, quem ser o mais indicado? Miranda! Acho que
devia falar com ele um dia destes, contar-lhe os factos tal
como se apresentam e oferecer-lhe uma boa recompensa. Assim,
ter um aliado... e um barco de reserva.
McCreary olhou para o pequeno napolitano e sorriu.
- Ser melhor mudarmos de emprego, Guido. Voc, aqui,  o nico que raciocina.
- Eu, hem! - exclamou Guido firmemente. - No queria estar na
sua pele nem por um milho de libras! Teria pesadelos todas as
noites, a pensar que me estavam a cortar o pescoo.
- Os mesmos pesadelos que j estou a ter - declarou
sombriamente McCreary. Mas tenho de aprender
a suport-los, Guido.

12

Ao pr do sol as duas cabanas para habitao estavam prontas,
assim como os depsitos principais. A armao para a base da
torre j estava concluda; os toros de madeira estavam
preparados e arrumados perto dos locais onde seriam colocados
os motores. Miranda tinha colocado os seus homens em fila
para conferir a devoluo das ferramentas utilizadas, e depois
levou-os de volta para as suas casas. Guido tinha ido com
ele, depois de montar o transmissor e de dar a McCreary
instrues detalhadas sobre o seu funcionamento. Tinham
combinado uma hora de manh em que Guido chamaria McCreary
para praticarem cerca de meia hora no aparelho, aproveitando
tambm para transmitir qualquer novidade que houvesse a bordo.
Guido tinha vontade de passar l a noite, mas McCreary
recusara. No seria prudente, logo de incio, deixar que
Rubensohn percebesse a estreita associao que existia entre
ambos. O seu sistema de comunicao era j bastante
deficiente e tinha de ser mantido a todo o custo.
As cabanas eram modestas, mas habitveis. Cada uma tinha duas
camas feitas de bambu e cobertas com esteiras de palmeira.
Havia uma mesa tosca e duas cadeiras de bambu, improvisadas
com surpreendente rapidez pelos operrios de Miranda. Quanto
ao resto, o navio fornecera a roupa de cama, os utenslios de
cozinha

136

e mosquiteiros, para alm de um lote de medicamentos para
primeiros socorros, comprimidos preventivos e bebidas - meia
dzia de grades de cerveja e duas garrafas de usque por
cabea. A comida seria enlatada, reforada por produtos
locais fornecidos, segundo o contrato, por Miranda.
McCreary e Agnello estavam sentados  porta da cabana de
McCreary, a beber cerveja, e olhavam por cima da orla da mata
para as guas luminosas da pequena baa que ficava entre os
dois contrafortes de pedra. Perto deles, as duas raparigas
riam, sobre as fogueiras acesas para a preparao do jantar,
de onde se exalava o aroma extico da comida nativa. Era a
primeira vez que serviam os novos amos e por isso caprichavam
ao mximo.
Os dois homens bebiam a cerveja e fumavam, satisfeitos, mas
falavam pouco.
O maquinista de cara de cavalo tinha um temperamento calmo,
que contrastava flagrantemente com a natureza exuberante de
Guido. Falava pouco, como se se bastasse a si prprio; as
suas frases simples, prticas, mostravam uma convico
tranquila. McCreary considerou-o o companheiro ideal para
aquele fim de tarde em que tambm ele se encontrava absorto
nos seus pensamentos.
Iam j a meio da segunda garrafa de cerveja quando Agnello
disse calmamente:
- Gosto disto. Agrada-me bastante.
- O qu? A cerveja?
McCreary estava longe... no alto da montanha, com Lisette.
- No, este trabalho. Ver nascer algo das prprias mos.
Fazer um buraco no cho e ver sair petrleo. Sou maquinista e
tenho muito respeito pelo leo.
- Muita gente tem - disse ironicamente McCreary.
- No. Consideram-no um produto, uma fonte de lucro. Mas um
maquinista no, v-o como uma fonte de vida das coisas que
mais aprecia neste mundo: bons motores girando suavemente nos
seus eixos.

137

- Lindo pensamento - disse McCreary. - Bastante melhor que os
que tenho ouvido ultimamente. Diga-me, Agnello, como  que se

juntou a esta gente?
Agnello fumou placidamente o seu cachimbo, pensando na pergunta.
-  muito simples. Aqui, eu sou o nmero um. Num navio maior
seria o nmero dois. Ningum me chateia e ganho bem. Isso 
importante. Em Florena tenho uma mulher e duas filhas que
ho-de precisar de dotes. Portanto, isto para mim  bastante
conveniente.
- Felizardo.
Agnello continuou a fumar, a beber cerveja e a olhar a Lua que nascia. Apesar do seu aspecto de cavalo e do seu
olhar melanclico, McCreary achou que ele devia ser
singularmente feliz. A sua pergunta, pouco depois, fez
McCreary sorrir. Agnello tossiu nervosamente e, com o polegar
apontou para as raparigas junto  fogueira. Desajeitadamente,
disse:
- Que... que esperam que eu faa com aquilo?
McCreary riu-se baixinho.
- Isso  consigo, Agnello.
Agnello franziu a testa e resmungou, pouco satisfeito:
- Eu sei mas... mas no estou interessado. Quando era mais novo,
no me importava de fazer figura de idiota. Mas agora, quando
vejo os meus amigos ir para aquelas casas perto do cais,
quando vejo coisas como as que aconteceram ontem  noite no
palcio, penso nas minhas filhas e no me entusiasmo.
Perguntei por perguntar, longe de mim querer criticar o que
voc faz, mas c por mim...
- McCreary deitou o cigarro para o cho e pisou-o com o salto.
Sorriu de esguelha na escurido e disse:
- Concordo consigo, Agnello. Enquanto aqui estiver,
partilharemos a minha cabana. Assim. tambm me ajudar a no
fazer asneiras. As raparigas podem dormir
juntas.
Pela primeira vez, um sorriso aflorou os lbios do maquinista,
que disse, agradecido:

138

- Obrigado, amigo. Assim j vou conseguir comer com apetite.
Riram-se, e McCreary tambm achou que iria comer e dormir
melhor, alm de ficar com uma certa esperana de conseguir
mais um aliado.
As jovens trouxeram uma das mesas da cabana e nela colocaram
pratos de arroz fumegante e peixe temperado Com caril, rodeado
de pequenos montes de condimentos, sobre folhas verdes.
Depois sentaram-se na relva e ficaram a ver os dois homens a
provar cuidadosamente os alimentos nada familiares ao seu
paladar, mas que estavam dispostos a apreciar.
Comearam as duas a rir, acanhadas, quando McCreary elogiou a
refeio e lhes disse que podiam tambm ir comer. Flor
Flamejante hesitou um momento, mas depois perguntou:
- Quando devo vir para tuan?
- Hoje no - disse McCreary suavemente. - Eu chamo-te quando
for preciso. Esta noite tenho uns assuntos a tratar com o meu
amigo.
- Toda a noite? - os seus olhos infantis denunciavam
incredibilidade.
McCreary sorriu e passou os dedos pelos cabelos sedosos e
perfumados da rapariga.
- Toda a noite, no. Mas estamos cansados. Temos de comear a
trabalhar amanh cedo e precisamos de dormir bem.
A rapariga acenou com a cabea e o seu pequeno rosto moreno
abriu-se num sorriso radiante. Aquilo, sim, ela entendia. Se
o tuan gostava dela, haveria sempre o amanh e as noites que
se seguiam. Vergonhoso era uma mulher no ter poderes para
atrair um homem, e ela desejava ardentemente atrair aquele
homem esguio de voz terna e olhos risonhos.
Voltou-se e foi para junto da companheira. Mais tarde,
enquanto Agnello ressonava, McCreary ouviu as vozes
chilreantes de ambas na cabana que lhes tinha sido destinada.
Elas faziam-lhe lembrar Lisette,

139

encerrada com todas as outras estranhas no palcio principesco da
colina. A simples lembrana dela apertava-lhe o corao e
chegava a provocar-lhe uma dor fsica.
Na manh seguinte, muito cedo, enquanto Agnello estava com
Miranda e os trabalhadores, Guido fez-se anunciar pelo besouro
do aparelho.
"Rubensohn dirige-se para a. Entregou-me uma mensagem par a
transmitir a Morrison".
"Qual?", perguntou McCreary, utilizando desajeitadamente os
sinais.
H muito tempo que no trabalhava com um transmissor, os dedos
ainda no tinham readquirido a antiga agilidade e a formao
de frases era irregular.
"Reza assim: 'Trabalhos iniciados ponto Espero resultados para
breve ponto Aguarde notcias ponto' S isto. J a transmiti".
"Muito bem. Mais alguma novidade?"
" A luta entre Janzoon e Alfieri est a progredir. Motivo:
comando do Corsrio- Depois contarei mais, pessoalmente.
Mensageiro do palcio hoje madrugou com mensagem para
Rubensohn. Nada mais de novo."
"Obrigado. No esquea binculos."
"Lev-los-ei esta tarde. Pratique transmisso de mensagens.
Difcil de entender."
McCreary bateu, letra por letra: "V para o diabo", e desligou.
Arrumou os auscultadores e acendeu um cigarro. Sorria
intimamente. A sua conversa com Rubensohn comeava a fazer
efeito. Para encobrir as suas prprias manobras, Rubensohn
devia ter falado com Janzoon, distorcendo a verso da ambio
de Alfieri em relao ao posto. Fazia parte da sua tcnica
envenenar o ambiente e ficar a ganhar com a confuso entre os
seus subordinados.
Mas tambm McCreary tinha envenenado um pouco as coisas e,
devido  excentricidade prpria dos celtas, sentia grande
prazer nisso. Saiu da cabana para o sol escaldante, chamou
Flor Flamejante para arrumar as

140

coisas e desceu a encosta que conduzia ao local de trabalho
assobiando jovialmente.
Desta vez tratava-se de uma antiga melodia chamada em Kerry
The Hounds of Glenloe. Falava de uma caada em que todos corriam
colina acima e colina abaixo,
enquanto a raposa matreira os gozava, deliciada, sentada
calmamente na sua toca. J h algum tempo que McCreary
comeara a simpatizar com a irm raposa.
Miranda dava ordens a um grupo de rapazes que empilhavam os
grandes bides de combustvel debaixo de um abrigo coberto com
folhas de palmeira. Ao ver McCreary ir na sua direco,
mostrou os dentes manchados de btel num sorriso e comeou a
monologar numa voz spera.
- A coisa vai bem, no acha? Olhe para isto! J comea a tomar
forma. Temos de compreender estes tipos. Temos de lhes
sorrir, mas mant-los sempre debaixo de olho para trabalharem
a srio. Se quiser alguma coisa,  s dizer aqui ao Miranda.
Trato logo o que for preciso. Prometi ao senhor Rubensohn
cooperao total. E o que eu prometo, cumpro. Ajuda em troca
de dinheiro, hem?  um bom negcio para ambos.
Miranda humedeceu os lbios. Os seus olhos injectados olhavam
simultaneamente em direces opostas. Falou num tom
confidencial:
- O senhor... no me poderia vender uma garrafa de usque?
Estas bebidas nativas do cabo de mim. Claro que  para eu
pagar...
- Eu dou-lhe uma garrafa de presente - disse McCreary
categoricamente.
Miranda desfez-se num profundo discurso de agradecimento, mas
McCreary interrompeu-o abruptamente:
- Diga-me uma coisa, quanto est a receber por isto?
- Trs libras esterlinas por dia, em rupias indonsias.  uma
ninharia, bem sei, mas...
- Mas no o ganharia noutro local, alm de que ainda tira uma
comisso do salrio dos trabalhadores,

141

do lucro que tem no material que fornece e nos mantimentos...
Miranda ergueu os ombros e abriu as mos em sinal de protesto.
- Sim, um pouco aqui, um pouco ali. Mas, em negcios, 
normal, no ? No fundo, eu sou um negociante. Este emprego
aqui impede-me de fazer as minhas viagens habituais, portanto
tenho direito a um pequeno lucro, no acha?
McCreary sorriu ironicamente.
- No tenho nada a ver com isso, Miranda. Foi Rubensohn quem o
contratou. Eu apenas trabalho aqui. - Tirou do bolso um mao
de cigarros e ofereceu-lhos. - Em geral, onde  que voc
negoceia?
Miranda soltou uma longa baforada e disse, sem hesitar, como
um prncipe mercador:
- Ah! Em Ambon, Buru, leste de Kai Ketjil, sul do Timor Lant e
Timor.
- O que  que vende?
- Alimentos, condimentos, tecidos, coisas vulgares... aqui
troca-se quase tudo. As vezes, algumas pedras, ouro e prata.
H um pequeno mercado, em Difi, de exportao para a Europa.
De vez em quando, uma garota ou duas, para alegrar o sulto.
Sabe como .
- Claro - disse McCreary.
- Talvez... - Miranda hesitou. - Talvez o senhor faa tambm
os seus negociozinhos por fora, hem?
- Pouca coisa. - McCreary ergueu uma sobrancelha de forma
interrogativa. - Tem alguma sugesto a fazer?
- Poderia arranjar-lhe alguma coisa... quem sabe?
- O qu?, por exemplo?
- Isto. - Miranda indicou com o polegar as pilhas de bides de
gasolina. - Valem ouro em Dili, e  o nico stio onde os
posso comprar. No posso aambarc-los, pois assim perderia
espao til de carga. Por isso, fao metade da viagem de
chalupa  vela. Isso aumenta-me o tempo e diminui-me o lucro.
O senhor

142

tem ali mais do que precisa. Fao-lhe uma boa oferta.
Pedras, algum jade, belas peas e outras coisas. Se estiver
interessado, posso mostrar-lhe.
- Pode lev-las  minha cabana uma noite destas. Falaremos
disso.
Miranda arregalou os lbios num largo sorriso de compreenso,
exibindo os dentes manchados.
- ptimo, ptimo! Penso que vai gostar. E fica entre ns,
hem? Outra coisa. Se quiser uma pequena...
- J tenho uma - replicou McCreary abruptamente - e basta.
Agora mexa-se! Quero isso pronto dentro de vinte minutos.
Depois pode comear a estrutura.
- Sim senhor! Miranda afastou-se, insultando os trabalhadores,
num fluente dialecto malaio. McCreary observou-o com irnica
satisfao.
Foi ento que viu Rubensohn aproximar-se da clareira como um
raj, numa liteira carregada por seis homens. Trazia um fato
de seda leve e um panam branco na cabea e fumava um dos seus
enormes charutos.
Baixaram a liteira e ele desceu desajeitadamente. Ficou um
momento a observar a clareira, inspeccionando com olhar
crtico o andamento dos trabalhos.
McCreary deitou fora o cigarro e aproximou-se dele. Rubensohn
cumprimentou-o alegremente.
- Assim  que eu gosto, McCreary! Boa organizao, trabalho
rpido. Tem tudo o que precisa?
- Por enquanto, sim.
- Quando acha que vai poder fazer a perfurao?
- Ainda  cedo para dizer. Dentro de uma semana a parte exterior estar
pronta.
- ptimo! Est satisfeito com Miranda?
- At ao momento, sim.
- A mo-de-obra  suficiente?
- .
- Outra coisa, McCreary. Sinto muito, mas terei de
o privar de Agnello por uns dias.
- Porqu?
Rubensohn encolheu os ombros.

143

- Um recado que recebi do palcio. Demos de presente ao sulto
equipamentos mecnicos... um gerador, um automvel... Ele quer
v-los a funcionar. A iluminao  que vai ser difcil: uma
quantidade de fios para serem colocados e...
- No posso dispensar Agnello! - disse McCreary.
Rubensohn franziu a testa.
- Compreenda, McCreary. Isto ...
- Compreendo muito bem! - disse McCreary, determinado. - Voc
deu-me carta branca. Est a ver em que fase estamos agora.
Sem o Agnello no posso pr isto a funcionar dentro do prazo.
 esse o problema.
Rubensohn desculpou-se:
- Lamento, McCreary, mas sabe como as coisas so por estas
bandas. O sulto  o "Umbigo do Universo" ... primo direito do
Todo-Poderoso. No posso recusar. Ele pode impedir o nosso
trabalho com um simples estalar
de dedos.
McCreary pensou durante um momento. Estava tudo perfeitamente
claro, mas, se algum fosse ao palcio, teria de ser algum
que pudesse proporcionar, a ele e a Lisette, alguma vantagem.
Irritado, disse:
- Porqu desperdiar um maquinista to competente numa tarefa
to simples como essa? Qualquer aprendiz de electricista
serve. Deixe-me o Agnello e mande o Guido em vez dele. Ele
trabalha com equipamento de transmisso... sabe distribuir os
fios e lig-los ao gerador. E  claro que tambm sabe
conduzir um automvel. Diabo, Rubensohn, sejamos sensatos!
Pouco me importa que o sulto passe o resto da vida  luz de
velas, mas para ns dois  importante que esta maquinaria
funcione dentro do prazo. Quero o Agnello aqui!
Era evidente que a sugesto tinha agradado a Rubensohn, que
disse com entusiasmo:
- Claro! Nem sei por que no tinha j pensado nisso. De facto
o Guido  a pessoa indicada. Vou mand-lo l depois do
almoo.
- Deixe para amanh. Pedi-lhe para vir hoje  tarde

144

dar uma vista de olhos no transmissor, que no funciona l
muito bem.
Rubensohn soltou uma gargalhada estridente e bateu-lhe no ombro.
- Voc  um tipo rebelde, McCreary. Mas gosto da sua maneira
de trabalhar. Inspira confiana.
- Sem dvida - disse McCreary de mau humor. Bem, se quiser
dar uma espreitadela, por aqui, posso dispor de uns dez
minutos. Agnello no fala bem malaio, portanto tenho de
ensinar a uma dzia desses tipos como manejar e aparafusar as
partes da torre.
Contudo, no era assim to fcil desembaraar-se de
Rubensohn. Mesmo depois de McCreary o deixar para comear a
trabalhar na estrutura de ao da torre, ele andou de um lado
para o outro, pela clareira, a inspeccionar o trabalho com os
seus olhos astutos e calculistas. McCreary receou que ele no
partisse antes da chegada de Guido, perturbando, assim, a
primeira oportunidade que ia ter de comunicar com Lisette.
Pouco antes do meio-dia, porm, Rubensohn comeou a mostrar
sinais de fadiga. O seu fato de seda estava molhado sob as
axilas e o suor escorria-lhe pelo rosto plido. Sentou-se
sobre um toro de madeira, limpou o rosto e tentou fumar outro
charuto. Ento, subitamente, desistiu e fez sinal aos
carregadores da liteira para se aproximarem. Gritou as suas
despedidas a McCreary e partiu. A figura de branco foi
balouando pela colina abaixo at penetrar na mata.
McCreary desceu da estrutura de ao e chamou Agnello.
- Vamos tomar uma cerveja, Agnello?
- Est bem. Mas ainda no  meio-dia.
- Os rapazes esto a trabalhar bem. Vamos deix-los
continuar. Preciso de falar consigo.
Subiram juntos o pequeno declive que levava s habitaes e
mergulharam na sua sombra reconfortante, que cheirava a folhas
e a erva acabada de cortar, alm do perfume almiscarado de
Flor Flamejante.

145

McCreary foi buscar a cerveja, brindaram e, sequiosos como
estavam, beberam os primeiros copos de uma
s vez.
- Mais uma, Agnello?
- Obrigado. No  m ideia.
Passaram depois a beber a cerveja aos poucos, saboreando-a com
prazer. McCreary disse, afavelmente:
- Tenho uma coisa para lhe contar, Agnello, uma histria muito
comprida.
Agnello acenou com a cabea.
- Ontem  noite, acordei a ouvi-lo gritar; olhei para si e
voc estava a dormir.
- Disse muitas coisas?
- O suficiente.
- Muito bem. Pois agora vou-lhe contar o resto. Quando
terminar, fica ao seu critrio ajudar-me ou no. Em caso
negativo, saberei compreend-lo, mas espero
poder contar com o seu silncio.
- Pode contar - disse Agnello numa voz grave e
prtica.
Ento McCreary contou-lhe tudo.
Ao terminar, o rosto de Agnello parecia ter-se esticado ainda
mais e os seus olhos lmpidos denunciavam
indignao. Disse com sinceridade:
- Que horror! E vender uma mulher dessa maneira  o cmulo! Eu
tenho filhas... boas raparigas. Por isso
fico ainda mais enojado.
- Ento est disposto a ajudar-me?
- Se for possvel, ajudo. Mas como?
McCreary falou-lhe do pedido do sulto e de como tinha
convencido Rubensohn a mandar Guido no seu
lugar. E acrescentou:
- Tenho a impresso de que Guido conseguir entrar em contacto
com Lisette. Pelo menos, poder ficar com uma noo da planta
do palcio, e sobretudo dos alojamentos das mulheres. Hoje 
tarde, assim que ele chegar, vou lev-lo ao alto da montanha
para vermos qual o ngulo do palcio que se v de l. 
possvel que eu

146

passe cada vez mais tempo l em cima nos prximos dias.
Poder controlar as coisas aqui durante as minhas ausncias? E
responder s perguntas de Rubensohn no caso de ele vir numa
altura em que eu aqui no esteja?
- No h problema - disse Agnello. - Mas voc tem de prever
muito mais hipteses.
- Eu sei - respondeu McCreary. - Mas por enquanto no me posso
adiantar muito. Tenho de agir de acordo com os
acontecimentos. A maior dificuldade  safar-mo-nos desta ilha
assim que eu conseguir tirar Lisette de l.
Agnello pousou a cerveja e comeou a encher o cachimbo com uma
circunspeco enervante. Depois falou calmamente:
- O Miranda tem uma chalupa.
- Mas no posso confiar inteiramente no Miranda.
- Nem  preciso. No disse que ele lhe props comprar gasolina aqui
do acampamento?
- E ento?
-  s dizer-lhe que no pode agir
abertamente, nem vender tudo de uma s vez. Sugira-lhe que
leve a chalupa ali para aquela baa, para lhe poder ir
entregando um bido de cada vez. O transporte poder ser
feito  noite. Ele ficar ancorado por ali, enquanto tiver
oportunidade de obter mais bides atravs de si. Desse modo,
voc ter um barco devidamente abastecido e pronto a partir
quando for preciso.
McCreary assobiou.
- Cos diabos! Pode mesmo resultar! E se eu arranjar uma dessas
pirogas nativas e comear a interessar-me pela pesca nocturna,
para no estranharem a minha presena nas imediaes... Vamos
tomar outra cerveja para festejar essa ideia sensacional.
- Por mim, basta - disse Agnello com o seu sorriso plido. Vou descer para ver como vai o trabalho. Estes nativos so
inteligentes, mas so como a gente do Sul l na minha terra.
Preferem cantar e aquecer-se ao sol a trabalhar a srio.
McCreary observou-o a descer lentamente em direco

147

 torre, autntica imagem da satisfao sem falsidade do tipo
que pe os motores do navio a funcionar enquanto os
passageiros bebem e seduzem as mulheres uns dos outros e o
capito toma caf com o agente do armador.
Voltou  cabana, pegou em papel e lpis e comeou a fazer um
plano de ataque.
A rapariga morena aproximou-se e, sentada de ccoras a seus
ps, observava-o de olhos bem abertos, em atitude de
expectativa. McCreary, distraidamente, tocou-lhe na cabea e
ela encostou-se a ele, ronronando
como uma gata satisfeita.
McCreary demorou vinte minutos a perceber que tinha ali
outro aliado, provavelmente o mais valioso de
todos.
Inclinou-se e ergueu-a como se fosse uma pluma, sentando-a na
mesa  sua frente. Ela sorriu como uma boneca morena,
perfeita, com os seios pequenos e direitos, pele cor de mel,
mos minsculas e expressivas.
Perguntou-lhe meigamente:
- O que  que costumavas fazer no palcio?
- Era criada das mulheres do sulto. E s vezes, quando uma
das outras adoecia, danava nos bailados djoged.
- Vivias presa, como as mulheres do sulto?
Ela riu, divertida com a ignorncia dele.
- No! S as esposas e as concubinas levam essa vida. Ns
tnhamos liberdade para entrar e para sair. No ramos noivas
nem concubinas.
- Que te teria acontecido se no me tivesses sido dada de
presente?
Ela fez uma careta e encolheu os ombros com indiferena.
- Talvez um dos servos quisesse casar comigo. Podia ser que o
sulto me desse de presente a um dos membros da corte. Ns
ramos propriedade dele, para ele fazer o que quisesse.
- Nasceste no palcio?
- No. Nasci na cidade, mas os meus pais deram-me

148

ao palcio, porque eram pobres e no podiam pagar o tributo
exigido pelo sulto.
- O que fazem as mulheres... as mulheres do sulto?
- Esto sentadas e a conversar. Comem doces, costuram e tm filhos.
De vez em quando passeiam no jardim privativo para apanharem
ar.
- E nenhum homem se pode chegar ao p delas... s o sulto?
- Nenhum homem. H guardas nas portas e qualquer homem que
tente l entrar morre.
- Quer dizer que elas nunca tm amantes?
Os olhos da jovem abriram-se de surpresa, levemente
assustados.
- Ali, no! Quem teria coragem para se arriscar a enfrentar os
carrascos e a morrer queimado?
- Como?
Ela explicou com gestos graciosos:
- Se uma mulher fosse infiel ao sulto, ela e o amante seriam
primeiro torturados. Depois seriam amarrados e atirados
juntos ao Gurung Merapi, a montanha do fogo.
Uma perspectiva sinistra, pensou McCreary. Capaz de fazer
arrefecer o ardor de qualquer amante. Imaginou Lisette
encerrada nos jardins fortificados com altos paredes, no meio
das concubinas ociosas e tagarelas, a sofrer em silncio, e o
pensamento encheu-o de raiva contra Rubensohn, o responsvel
por tudo aquilo. Flor Flamejante observava-o com um olhar
perplexo e curioso. Bruscamente, ele tirou um cigarro do bolso
e meteu-o na boca. Quando Ia acend-lo, a jovem tirou-lhe o
isqueiro das mos e riu-se, deliciada, quando finalmente
conseguiu fazer aparecer a chama. McCreary fumou, silencioso,
durante uns instantes, pensando como havia de fazer a pergunta
seguinte. Recordou a advertncia de Guido de que a pequena
tambm era mulher, capaz de cimes e de vingana. De repente
teve uma ideia. Com um ar triste, disse:
- A mulher que ofereceram ao sulto  minha irm.

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Para sua surpresa, Flor Flamejante deu gargalhadas de alegria
e bateu as palmas.
- Ento devem estar os dois muito felizes.  uma grande honra
ser a mulher do sulto.
- No! - exclamou ele, muito srio. - Tenho muitas saudades
dela. Ns ramos como flores da mesma planta, feijes na
mesma vagem. Ela no queria ir. Queria casar-se com algum
da mesma classe. Eu tambm queria t-la a meu lado, quando um
dia me casar com a minha eleita. Compreendes-me?
- Sim. As vezes iam para l mulheres que no desejavam estar no
palcio. Ficavam tristes e levavam a vida a chorar... mas s
quando o sulto no estava l.
- Eu gostaria tanto de mandar um bilhete  minha irm - disse
McCreary - e receber um dela. Se eu soubesse que ela est
feliz, tambm me sentiria feliz. Sabes como  que eu poderia
mand-lo?
- Posso lev-lo por si.
- Podes realmente?
- Com certeza.  assim que as novidades chegam ao palcio.
Ns somos da casa. Podemos entrar e sair quando quisermos.
Os guardas conhecem-nos e deixam-nos passar sem qualquer
problema.
- Caramba! - exclamou McCreary. - Nunca pensei que fosse assim
to fcil.
- E quando souber que ela est feliz - perguntou inocentemente
Flor Flamejante -, comear a ser feliz comigo?
Ento ele teve a prova de que no era assim to simples. Era
terrivelmente complicado. Se no tivesse cuidado, a rapariga
podia acabar por deitar veneno no seu prato de arroz e Lisette
podia ir parar s mos do carrasco do sulto.

13

- O que  que acha, Guido?
- Estreito - respondeu Guido enigmaticamente. - Estreito como a boca de um navio. Se olhar para ele de
frente, alarga-se at ao fundo da colina. Mas, daqui, no tem
profundidade. A colina  como um penhasco atrs dele e o
planalto  estreito. Os jardins  que do essa impresso.
Estavam deitados de bruos no alto da reentrncia, acima da
zona de perfurao, e olhavam para sul, ao longo do flanco da
colina, para o palcio do sulto. Abaixo deles ficava a orla
da floresta e acima a vegetao mais escassa da encosta.
Estavam encobertos por dois grandes blocos de pedra e os
binculos traziam-lhes o edifcio quase ao alcance da mo.
- Que mais, Guido?
- H uma colunata nesta extremidade e uma fonte no jardim,
meio escondida pelas rvores. No... espere! O jardim  completamente fechado. No tem comunicao com os
jardins suspensos da frente.
- Est a ver algum?
- No. Est cheio de sombras.
McCreary consultou o relgio.
- So trs horas! Flor Flamejante disse que elas saem para
apanhar ar debaixo das rvores.
- Pode no ser este o jardim
delas.
- Tem de ser! - exclamou McCreary desesperado.

151

Fica do mesmo lado do muro que vimos do palcio. Est
separado dos outros jardins. Tem de ser esse!
- Tome, veja voc prprio!
Guido passou-lhe os binculos, depois levantou-se, apoiado na
rocha, e acendeu um cigarro. McCreary focou os binculos e
examinou o jardim atrs da alta muralha e da requintada
colunata. A fonte deitava agua tranquilamente, mas no se
viam mulheres no jardim, a no ser que estivessem encobertas
pelas rvores. Seria fcil distingui-las pelas suas roupas de
cores vivas. Talvez, se aguardasse algum tempo, aparecessem.
A tarde ainda ia a meio.
Mudou de posio e ps-se a esquadrinhar a verdejante e
ngreme encosta que se estendia entre o seu posto de
observao e o palcio.
Quando chegasse a ocasio de tirar Lisette de l, teriam de ir
por ali, pela encosta, e atravessar as colinas inferiores para
chegarem  reentrncia que dava acesso  zona de perfurao.
A sada principal estaria obstruida pelos guardas e
trabalhadores da povoao.
Examinou meticulosamente a encosta, de alto a baixo,
percorrendo a orla da mata e subindo pelas savanas espaadas
at alcanar a depresso na encosta do monte. No havia
nenhum carreiro. O tapete verde era compacto, como se, por
ali, o acesso ao palcio fosse vedado  populao de Karang
Sharo, por tradio ou proibio.
McCreary largou os binculos e esfregou os olhos.
- Por enquanto nada. Vamos esperar mais um bocado.
- Tenha calma, amico, e diga o que quer que eu faa amanh.
McCreary recostou-se  sombra de uma rocha e comeou a dar as
suas instrues. Eram decididas e pormenorizadas.
Planeara-as com o mximo cuidado.
- Primeiro vai ao palcio de manh instalar o sistema de
iluminao. No  muito grande, portanto no iluminar o
palcio inteiro. Tenho a impresso, posso estar errado, de
que o mandaro iluminar os aposentos do sulto. A minha
esperana  que lhe peam para o

152

estender aos aposentos das mulheres. Mesmo que isso no
acontea, voc poder circular pelo palcio. Primeiro ter de
escolher um local do lado de fora para o motor e depois
preparar o sistema de fios. Isso permitir-lhe- usar papel e
lpis; poder assim traar-me alguns esquemas de sadas,
entradas, posio dos guardas e, o mais importante de tudo,
dos vrios pontos de aproximao dos aposentos das mulheres.
Se puder encaixar uma chave geral nalgum ponto acessvel,
talvez seja bastante til. Entendido at aqui?
- Entendidssimo - respondeu Guido com entusiasmo.
- Conhece bem a lngua malaia?
- Ah... linguagem de marinheiros - declarou Guido jovialmente. - Compreende... dinheiro, comida, Ibebidas...
- E mulheres!
- Seu espertinho! Como  que adivinhou?
- A minha av era profeta - disse McCreary. - uma pena voc ser ignorante, seno poderia descobrir muitas
coisas a conversar com as criadas, com o vizir, ou com quem
quer que seja que o vai acompanhar por
l.
- No se preocupe, compar. Talvez tenha uma surpresa.
- Espero que sim. Agora, ateno, Guido, esta  a parte mais
importante. No sei se lhe vai ser possvel entrar em
contacto com Lisette...  at muito pouco provvel. No pode
arriscar-se a entregar-lhe um bilhete. No pode correr o risco
de a abordar directamente, mesmo que a veja. Mas, seja como
for, tem de tentar dizer-lhe que estamos a planear tir-la de
l, que  este o lado do palcio que ela deve observar e que,
quando receber um recado meu, seja de que forma for, deve
fazer o que eu mandar sem hesitar.
- Posso dizer isso tudo a cantar - sugeriu Guido ironicamente.
-  exactamente isso que voc vai fazer - afirmou

153

McCreary abruptamente. - E, pelo amor de Deus, cantte em ingls e no em napolitano. Nem o papa o conseguiria entender!
- Est a ofender-me, amico! O napolitano  a lngua dos
amantes. At a minha mida est a comear a aprender. E, por
falar em amantes, nem me deu tempo para lhe contar dos nossos
amigos do Corsrio.
- Quais amigos?
- Janzoon e Alfieri! - Guido encostou-se  rocha e soltou uma
gargalhada abafada. - Mamma mia, que espectculo! Comeou logo
que Rubensohn saiu do navio. O meu camarote fica ao p da
ponte de comando. Ouvi Janzoon chamar Alfieri pelo
altifalante. Quando ele chegou, Janzoon disse que tinha
sabido pelo patro que Alfieri queria o posto de comandante
quando ele, Janzoon, se fosse embora. Alfieri gaguejou e
negou. Gostaria de chamar mentiroso ao patro, mas no teve
coragem. Janzoon tratou-o como um co, destinou-lhe uma srie
de tarefas suplementares, cancelou-lhe a autorizao para ir a
terra e disse-lhe que anotaria tudo no dirio de bordo.
Alfieri ficou todo o tempo a olhar para o seu nariz veneziano
e a fungar, pois no sabia que terreno estava a pisar. Ah, e
outra coisa...
- O qu?
- Janzoon mandou-lhe um recado. Amanh de manh, cedo, vem
fazer-lhe uma visita.
- O que ser que ele pretende?
Tornou a mudar de posio e focou os binculos na direco do
jardim do palcio. Na parte mais baixa, o muro parecia ter de
trs a trs metros e meio de altura; na parte mais elevada
havia um sbito desnvel de uns quinze metros at s rvores
da mata. Seria necessrio um arpo e uma corda para o
escalar. Seria mais simples sair do que entrar. Uma rvore
enorme erguia-se no canto mais baixo e os ramos grossos
pendiam at ao nvel do jardim. Subitamente, os seus olhos
notaram um lampejo de cor entre as sombras da colunata.
Perdeu-o de vista durante um instante, depois reapareceu, sob
a forma

154

de duas figuras em sarongs e blusas de tons vivos que
caminhavam de mos dadas em direco  fonte.
McCreary passou os binculos a Gudo e disse rapidamente:
- Veja, Guido... so homens ou mulheres? A esta distncia todos
parecem iguais.
- Para mim no, amico! - Replicou Guido com a convico de um
perito. - Deixe-me ver... No, so mulheres. Vm l mais
duas, mas nenhuma delas  Lisette.
- Tnhamos razo, - exclamou McCreary com entusiasmo. - So os
aposentos das mulheres e  o jardim delas. Agora j sabemos
onde encontr-la!
No entanto, por mais que esperassem e se revezassem com os
binculos, no conseguiram ver Lisette entre as mulheres que
passeavam despreocupadamente pelo jardim. Depois de muito
tempo, desistiram e desceram pela mata para a zona de
perfurao.
Os trabalhadores andavam, como formigas, numa azfama pela
clareira, e a estrutura de ao da torre erguia-se, como uma
gigantesca teia de aranha, contra o cu.
Nessa noite, depois do Jantar, Miranda foi visit-lo.
Agnello piscou o olho, com cumplicidade, e saiu para fumar o
seu cachimbo. As duas raparigas entraram devagar na cabana e
sentaram-se na cama, curiosas como se fossem crianas,
enquanto Miranda espalhava as suas ofertas em cima da mesa
iluminada pela lanterna.
A primeira foi uma sacola de camura com diamantes do rio,
foscos e sem vida, que Miranda entornou sobre a mesa.
McCreary fitou-os, dissimulando o seu interesse. Podiam ter
valor para um Joalheiro, mas para McCreary no passavam de um
monte de seixos. Havia outras pedras, esmeraldas e rubis,
polidas mas no facetadas, engastadas na fina filigrana dos
artesos locais. Havia ainda duas estatuetas de jade,
finamente trabalhadas, um conjunto de marfim indiano que
representava as manifestaes de Shiva, uma srie de adornos
primorosamente

155

executados e um par de adagas com pedras incrustadas.
McCreary revirou-as nas mos, impressionado com aquela beleza
estranha e extica, embora ocultasse o seu interesse dos olhos
mercenrios de Miranda. Disse com indiferena:
- Quanto  que isto vale?
Miranda fez um gesto vago com a mo suja e mostrou
os dentes separados, num sorriso.
- Mais para o senhor do que para mim. Repare como sou honesto
consigo..O meu melhor mercado  em Dili: l oferecem-me mais
ou menos a dcima parte do valor e eu sou obrigado a aceitar.
Mas o senhor... quando sair daqui... pode ter um lucro
fantstico.  material de primeira, como sabe.
- Quanto vale para si, agora?
- Digamos, trezentos gales? Trinta bides?
- Trezentos! - McCreary soltou uma gargalhada e afastou a
mercadoria, na mesa. - Quem pensa voce que eu sou, Miranda?
- Bem, vinte bides?
- Digamos quinze e talvez se faa o negcio. Digo "talvez, - McCreary levantou um dedo de advertncia - porque  muito
arriscado. Se Rubensohn descobrir, estou tramado... e voc
tambm. Perco o meu emprego, voc perde o seu lucro e o seu
combustvel, Aqueles bides so de dez gales cada um. Como
pretende lev-los sem que ningum veja? No pode faz-los pura
e simplesmente rolar at  praia, debaixo do nariz de
Rubensohn.
- Eu podia vir de noite e esvazi-los com um sifo.
- Que ideia to louca! Assim que comearmos a perfurar, sabe-se l quem pode estar aqui de noite. Nada disso;
se est realmente interessado, fazemos o seguinte. Tire a sua
chalupa do ancoradouro principal e ancore-a na enseada l de
baixo. Assim poder vir de noite e levar dois bides de cada
vez. No pode levar tudo nem numa semana. Se desaparecessem
todos ao mesmo tempo,

156

at um imbecil com metade de um olho perceberia. Ter de
ser feito durante um ms ou seis semanas, mas em dias
espaados, para no dar nas vistas. Os nossos
motores vo funcionar dia e noite durante a perfurao e quero
que parea que o gasto de combustvel  normal.
Miranda mostrou-se decepcionado e tentou regatear.
- Quinze bides... cento e cinquenta gales...  pouco para o
que estou a pagar.
McCreary fez um gesto de desinteresse.
- O problema no  meu, Miranda. Voc  que sugeriu o
negcio.  como quiser.
- Talvez... talvez com mais uma garrafa de usque?
- Dou-lhe mais uma garrafa de usque porque sou irlands e sou generoso.
Negcio fechado?
- Estou a ser roubado... - lamentou-se
Miranda. - Mas mesmo assim...
- Fica a ganhar muito e sabe-o bem - interrompeu McCreary. Metade disto nada vale, e a outra metade vou ter de me
esforar bastante para a conseguir vender.
Ouviram um rudo semelhante ao de um combio e o cho oscilou
fortemente sob os seus ps. As raparigas
gritaram e a lanterna balouou com violncia, para cima e
para baixo. Depois o barulho cessou e o cho voltou a
firme. Todos se entreolharam assustados.
-  um tremor de terra - explicou Miranda, aflito. - De vez em quando, acontece. Mas desta vez foi forte. As
vezes... - humedeceu os lbios e apontou para a parede ao
fundo da cabana - s vezes conveno-me que o Gurung Merapi vai
acordar e explodir, mandando-nos a todos para o inferno. H
j muito tempo que ele est a dormir.
McCreary foi at  porta e gritou na escurido:
- Agnello" Est tudo bem?
A voz . de Agnello veio do lado da torre:
- Est tudo bem! A estrutura tambm parece estar em ordem.
Amanh cedo farei uma inspeco. De resto, no aconteceu
nada.

157

"Isto  que  um maquinista, pensou McCreary.
"Trata das mquinas como se fossem suas filhas."
Voltou para a cabana, juntou as jias de Miranda e foi buscar
a garrafa de usque.
- Amanh - disse ansiosamente Miranda -, amanh  noite levo o
barco para o local combinado e posso comear a fazer o
transporte, no ?
- Certamente. Mas no se esquea de o fazer em dias
alternados. Quanto mais tempo demorar, melhor!
- E se voc descobrir petrleo, pode ser que faa um negcio melhor
comigo, no?
- Se eu descobrir petrleo - afirmou McCreary amavelmente -,
dou-lhe o lote todo. Todos aqueles malditos bides!
Enfiou a garrafa de usque debaixo do brao de Miranda e
acompanhou-o at  porta da cabana. Depois sentou-se  mesa e
ps-se a mexer nas pedras e nos outros objectos, passando os
dedos pela superfcie lisa do jade. As duas raparigas vieram
espreitar por cima dos seus ombros, sussurrando entusiasmadas.
Ofereceu a cada uma um pequeno alfinete em ouro, deu-lhes uma
palmada e mandou-as dormir. Era uma forma de as manter
felizes, mas teria de enriquecer depressa se quisesse
continuar a utilizar esse mtodo.
Embrulhou o restante numa camisa empoeirada e guardou-a na
sacola; em seguida saiu para o luar plcido a fim de fumar um
ltimo cigarro na companhia de Agnello.
Caminhavam lentamente  volta da clareira, verificando se
havia algum sinal de avaria causada pelo tremor de terra mas
no encontraram nada. Entretanto, McCreary fez a Agnello um
breve relato dos acontecimentos do dia.
Quando terminou, o maquinista resumiu:
- At ao momento, as notcias so boas. Tem duas
possibilidades de comunicar com o palcio: pelo Guido e pela
rapariga. Tem um barco abastecido e preparado para largar da
ilha. Dois aliados: Guido e eu... trs, se

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contarmos com Flor Flamejante. Tem um pequeno capital em Jias que pode vender para recomear a vida em qualquer
parte do mundo. Sabe o que eu faria se estivesse no seu
lugar?
- No.
- Ia-me embora daqui - disse Agnello, fleumtico. - Faa os seus planos rapidamente, pegue na sua rapariga e saia desta ilha. Esquea o petrleo. Esquea Rubensohn.
Pense unicamente na sua segurana e num novo
comeo de vida. - Apontou com o cachimbo para o cone do Gurung
Merapi, cujo brilho enevoado parecia mais encolerizado depois
do abalo. - Oua: se quer um aviso, ali est ele. Voc est
sentado em cima de um vulco. Fuja, antes que comece uma
erupo!
- No! - exclamou McCreary com uma expresso
sinistra. - Quero apanhar Rubensohn. Quero ver aquele canalha
humilhado e reduzido ao que realmente , e quero tirar-lhe
tudo o que ele tem.
- Porqu?
- A  que est - disse McCreary com um sorriso. - Nem mesmo eu sei responder a essa pergunta, mas creio que 
mais ou menos por isto. H um milho de mulheres no mundo que
se podem levar para a cama, de quem se pode ter filhos e viver
razoavelmente satisfeito. No entanto, s uma  que  to
perfeita e nica que faz as outras todas perderem toda a
graa. H, tambm, vinte milhes de patifes a quem se
gostaria de partir os dentes com um murro. Mas existe o
nmero um, o maior de todos. Faa ele o que fizer, a si
parecer sempre duas vezes pior, pois voc detesta-o
duplamente, deseja que ele morra e sofra doze vezes mais do
que os outros. Provavelmente - admitiu McCreary com pesar - porque se parece tanto com a sua prpria imagem secreta, no
se consegue sequer olhar para ele. Tambm no tenho certezas
quanto a isso. Mas  o que eu sinto em relao a Rubensohn.
Se eu partir agora, mesmo que leve Lisette, Rubensohn continuar inclume, inatingvel, e ns erraramos pelo mundo como um par de fugitivos.

159

H uma acusao de assassnio  minha espera em
Jacarta; o mesmo  dizer em trs mil ilhas entre a Nova Guin
e Singapura. A minha rapariga foi vendida por um bocado de
papel, para Rubensohn poder meter ao bolso alguns milhes.
No o deixarei escapar impunemente. No posso, de modo
nenhum. E este, meu velho, foi o raio do discurso mais
comprido que j fiz em toda a minha vida, e ainda no tenho a
certeza de que o que eu disse faa algum sentido.
Agnello fumava o seu cachimbo e meditava em silncio. Se
encontrou alguma resposta, no teve tempo de a formular. O
estrondo fez-se de novo sentir e o solo comeou a tremer sob
os seus ps, fazendo com que as raparigas, apavoradas,
deixassem a cabana e viessem juntar-se a eles.
Quando o silncio voltou e o cho se tornou a imobilizar,
Agnello ergueu os olhos para a montanha irada e disse
serenamente:
- Um dia destes, isto ir tudo pelos ares. S espero no estar
aqui para ver.

14

O dia seguinte foi insuportavelmente longo.
Os operrios nativos chegaram ao romper do dia e, sem demora,
comearam a trabalhar na torre, reforando os alicerces contra
futuros tremores de terra, erguendo as estruturas de ao que
formavam um elevado cone afilado. McCreary e Agnello trataram
do apoio dos motores, fixando solidamente os grandes toros 
terra e aparafusando firmemente os blocos aos cortes feitos a
machado.
Rubensohn apareceu durante a manh, a transpirar e
preocupadssimo com as consequncias do tremor de terra.
Dedicaram-lhe pouca ateno, o que o fez ir-se embora meia
hora mais tarde.
Miranda, desgrenhado, com os olhos injectados e uma garrafa de
usque debaixo do cinto, arrastava os ps pelo meio dos grupos
de operrios, incitando-os, com palavres, a intensificar a
actividade, enquanto os rapazes cantarolavam e lhe faziam
caretas, tapando o rosto com a mo.
McCreary trabalhava com uma intensidade implacvel, enquanto
tentava afastar Lisette do seu pensamento e imaginava o que
estaria Guido a fazer no palcio. Ao meio-dia, bebeu uma
garrafa de cerveja e comeu uma fatia de mamo, voltando vinte
minutos depois para trepar  torre e inspeccionar o servio
executado pelo pessoal.

As trs da tarde, o comandante Janzoon veio falar com ele.
McCreary levou-o para a margem da clareira. Sentaram-se sobre
um toro de madeira e acenderam cigarros. Janzoon estava
vermelho e o suor escorria-lhe pela face. A barba mexia
nervosamente e a sua voz rouca hesitou durante o prembulo.
- Quanto quela proposta, McCreary... estive a pensar no assunto
como lhe tinha prometido. Eu acho... acho, no, tenho a
certeza... que podemos negociar.
- Ah, j se resolveu - disse McCreary secamente. - E qual  a
sua proposta?
- Aliarmo-nos - sugeriu Janzoon com ansiedade. - Trabalhamos
juntos, vmo-nos livres de Rubensohn e dividimos tudo a meias.
Alis, a ideia foi sua, lembra-se?
McCreary atirou a cabea para trs e soltou uma gargalhada.
Janzoon olhou para ele, perplexo e indignado, enquanto os
pssaros guinchavam, assustados, nos ramos da frondosa
casurina atrs deles.
- Qual  a graa?
-  de si que me estou a rir, Janzoon.
- Porqu?
- Rubensohn convidou-me a aliar-me a ele para acabarmos
consigo.
O queixo de Janzoon foi descaindo lentamente e havia medo no
seu olhar. Para um homenzarro como ele, com gales de
comandante no brao, a combatividade que demonstrou era
mnima. Disse hesitante:
- No est a falar a srio, pois no?
- Estou - respondeu McCreary friamente. - Ele pediu-me para o
matar. Achava que Alfieri podia bem encarregar-se do navio, e
ele e eu ficaramos com a sua parte.
- Mas... voc no acreditou nisso, pois no? Sabe muito bem o
que ele pretende fazer, no sabe? Quer livrar-se de ns os
dois. Fazer com que acabemos um com o outro!

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- Sim, sei isso. - A voz de McCreary era amarga. - Portanto o melhor  eu ter cuidado e fazer aquilo que achar
melhor. Vocs dois que vo para o inferno!
- Mas oua, McCreary - puxou-lhe a manga com o seu punho enorme.
McCreary afastou-o com um empurro e olhou-o com uma expresso
enrgica nos olhos e na boca cerrada.
- Voc  que me vai ouvir, Janzoon. H dois dias podamos ter
fechado negcio. Agora j  tarde. Sabia o que ia acontecer
a Lisette e no me contou. No levantou um dedo para o
evitar. Foi lev-la ao palcio com Rubensohn e viu-a ser
entregue ao sulto como se fosse dinheiro sujo. E ainda por
cima est a querer tirar partido disso! Muito bem, continue!
Boa sorte, mas no se esquea que est a trabalhar por conta
prpria. E o mais engraado  que nunca ficar a saber quem
vai puxar o gatilho... se eu se o Rubensohn. Agora saia do
meu acampamento. Temos muito que fazer aqui!
McCreary levantou-se e ficou a v-lo afastar-se pela clareira
com passos hesitantes, um homem que parecia um touro, com uma
ambio desmedida e um esprito cobarde. No conseguiu sequer
sentir pena dele, nem aproveitar-se dos seus prstimos.
Estava farto daqueles segredos sub-reptcios e daquelas
negociaes mercenrias. Queria uma luta renhida e s claras;
quanto mais cedo comeasse a perfurar, mais perto estaria da
realizao desse seu desejo. Atirou o cigarro para longe e
dirigiu-se para a direita, onde Agnello tentava afinar uma
pea do compressor.
Ao pr do sol, a armao principal da torre estava terminada e
as mquinas prontas. Tinham feito grandes progressos, o que
muito os satisfazia. McCreary gritou para as raparigas
trazerem roupas limpas e dirigiram-se ao regato para se
lavarem antes do jantar. Ficaram debaixo de uma pequena
cascata e deixaram a gua fresca cair-lhes sobre o corpo,
enquanto as raparigas, sentadas num barranco, os observavam,
tecendo comentrios no dialecto local.

163

Mais tarde, secos e vestidos, atiraram-lhes a roupa suja e
deixaram-nas a lav-la. Quando saram dos arbustos,
encontraram Guido.
McCreary correu ao seu encontro.
- Quais so as notcias, Guido? Boas ou ms? Viu-a? Conseguiu
dar-lhe o recado?...
Guido f-lo calar com um gesto extenuado.
- As novidades so boas, compar, a maior parte. No consegui
v-la, mas penso que o recado ficou dado. E se eu no tomar
imediatamente um banho e uma cerveja no conto mais nada! Che
brutta giornata! Que dia infernal!
Levaram-no ao regato e aguardaram pacientemente que se
limpasse da poeira da caminhada e recuperasse foras. A
seguir todos se dirigiram  cabana, sentaram-se  mesa tosca
sob a lmpada pendente, com garrafas de cerveja  frente,
enquanto ele narrava os acontecimentos do dia.
O estilo da narrativa de Guido foi vivo e teatral, rico em
pormenores.
- Para comear, entrmos da mesma forma que naquela noite da
festa, com a diferena que desta vez era de dia e eu pude
reparar melhor em tudo. Os portes so de teca, de uns quatro
metros de altura e tm uns enormes espiges em cima. Todo o
muro da frente  largo, como a muralha de uma fortaleza, e os
guardas fazem a ronda na parte superior. Tm armas compridas,
daquelas que vocs viram. No sei se as costumam disparar,
mas metem um medo dos diabos. Agora os jardins... s terraos
ligados por alguns degraus. Entrei pelo mesmo stio... portas
lavradas, abertas, mas guardadas por um homem de cada lado.
Entrei.  uma entrada assim... descreveu-a rapidamente
desenhando uma planta. - A esquerda, portas venezianas com
sentinelas. Descobri mais tarde que do para os aposentos do
sulto, que tm, por cima, os quartos dos cortesos. Vejamos
isso primeiro. Levei tempo a deduzir, mas  importante. O
rs-do-cho e tudo o que l existe destina-se ao sulto: o

164

seu aposento particular, salas de recepes, quartos das
mulheres e as cozinhas. O resto fica na parte de cima...
dois, trs andares, porque o "Umbigo do Universo" no se pode
cansar a subir alguns degraus. Agora chegmos ao que
interessa. Eu tinha de fazer a instalao no enorme salo
onde fica o trono... para o sulto dar o seu espectculo
quando a corte estiver reunida. Acho tambm que ele receia
essas novidades nas suas salas particulares. Foi uma
decepo, mas eu lembrei-me que os quartos das mulheres
ficavam atrs desse salo. Tentei ento explicar que
precisava de um lugar para colocar o motor e o gerador. Riram
e papaguearam, mas no percebi nada. Finalmente levaram-me
para o jardim, no o das mulheres, mas o que fica abaixo dele,
de modo que consegui ver o muro e a rvore grande. Instalei
as mquinas, depois corri o fio pelo alto do muro para ver se
dava uma espreitadela l para dentro. Calculei tambm que a
altura  mais ou menos a que nos pareceu, vista pelos
binculos. Qualquer pessoa se pode safar se trepar  rvore e
saltar o muro, mas  difcil entrar sem uma corda e um gancho.
- Quer dizer que Lisette pode escapar?
- Sicuro! - exclamou Guido veementemente. - E se estiver
algum do lado de fora para a ajudar ainda  mais fcil.
- Continue, continue!
- Depois entrei para colocar os fios no saguo. Armei uma
grande confuso... amarrei os fios de uma coluna a outra, com
lmpadas simples nos intervalos.. mas ningum notou. Estavam
a achar aquilo uma beleza. E, enquanto trabalhava, ia cantando
em voz alta, de modo que ao princpio todos pensaram que eu
era maluco, depois desataram a rir. Inventei uma cano que
desse com a msica de Marechiare, que falava de uma rapariga
que ia todas as noites, assim que escurecia, at ao jardim
olhar para a montanha, de onde o amante lhe fazia um sinal com
a lanterna, s um sinal, muito intenso e rpido. Depois eu
dizia que um dia ela receberia

165

um recado e nessa mesma noite veria trs sinais com a
lanterna, o que significaria que o amante chegava dentro de
uma hora e ela devia estar preparada para trepar  rvore e
saltar o muro para se encontrar com ele. Cantei tantas vezes
e to alto, que at no navio devem ter ouvido.
- Esperemos que isso no tenha acontecido - observou McCreary.
- E depois? Recebeu alguma resposta?
- No sei bem se foi uma resposta - disse Guido com um
sorriso. - Mas, quando acabei, ouvi risos e vozes atrs dos
biombos e, pouco depois, uma criana veio ter comigo com uma
flor vermelha na mo e disse, alto e cuidadosamente, sem saber
o que aquilo significava: "Para o homem." Ento, ouvia-as rir
de novo. Passei a mo pela cabea da bambina e dei-lhe de
presente a minha lanterna preta... foi uma ideia que tive de
repente... para ela poder responder ao seu sinal. Nessa
altura, os homens tambm comearam a rir, todos a pensar que
eu era um pazzo, mas bom rapaz. Ento, deram-me uma bebida e
um prato de doces que me deixaram enjoado. Liguei os motores,
acendi as luzes, ensinei-lhes o que deviam fazer para acender
e apagar e verifiquei que no tinham percebido nada. Depois
deram ordens para me levarem de volta ao navio, mas antes de
l chegar mandei a liteira embora e vim para aqui a p. E so
estas as novidades! Est satisfeito?
- Satisfeitssimo! - exclamou McCreary. - H muito tempo que
no ouvia nada que me agradasse tanto. Outra cerveja para ele,
Agnello! D-lhe quantas quiser. E depois de ele jantar, vou
dar...
- Ah, outra coisa... - os olhos de Guido brilhavam de malcia.
- Para provar que  tudo verdade...
Remexeu no bolso da camisa e tirou um pequeno hibisco
vermelho, amarrotado e quase murcho, que colocou na palma da
mo de McCreary.
- Acho que a inteno dela foi mandar-lhe isto. A minha voz
no  assim to boa, sobretudo quando canto em ingls.

166

- Obrigado, compar. - disse McCreary com a voz trmula. - Mille,
mille grazie!
Ento, Agnello tirou.o cachimbo da boca e disse calmamente:
- Talvez agora j me possa dizer uma coisa.
- O qu? - perguntou McCreary, absorto.
- Apenas isto. J est a comear a descobrir um meio de sair
desta ilha com a sua rapariga. E ento?
- Fantstico! - exclamou Guido, deleitado. - Vai haver uma
algazarra dos diabos! Roubada a noiva do sulto. Mamma mia!
Vo chamar os guardas... com aqueles facalhes tortos.
- Justamente! - O rosto comprido de Agnello alongou-se ainda
mais. - E l est o Corsrio no ancoradouro, com uma
tripulao mista de brancos, chineses, indianos e malaios. O
que vai ser deles? Exceptuando Rubensohn e Janzoon, so todos
simples marinheiros. No tm nada a ver com este negcio
repugnante. Que ser deles quando os facalhes entrarem em
aco e os aldees ficarem todos amok  procura da noiva do
sulto? J pensou nisso?
- J pensei, sim - respondeu McCreary.
Eles olharam-no, perplexos com o tom desconhecido que
perceberam na sua voz.
A claridade da lanterna batia-lhe em cheio na cara e viram o
queixo saliente, a boca que parecia uma linha, to comprimida
estava, e os perspicazes olhos irlandeses que j no estavam a
rir.
- J pensou nisso - disse Agnello, positivo. - E ento?
- Ento vou-lhes dizer. E quero que meditem sobre o assunto
durante todos os dias e todas as noites das prximas semanas,
sonhem com ele, se for preciso, para que, quando o momento
chegar, ningum cometa o mais pequeno erro.
Tensos e atentos, debruaram-se sobre a mesa de bambu, e ele
contou-lhes exactamente o que ia acontecer no dia em que o
petrleo jorrasse.

167

15

Trs dias depois comeavam a perfurar.
Rubensohn desejava transformar o facto numa autntica
comemorao: formar os oficiais e a tripulao do navio,
convidar o sulto e a sua corte, oferecer champanhe a todos,
para depois ligar os motores e ver as brocas penetrar pela
primeira vez na terra. Havia bvias tendncias teatrais no
seu temperamento.
McCreary rejeitou a ideia imediatamente, sem se preocupar com
as consequncias disso.
- Oua, Rubensohn, se se tratasse de um projecto normal,
estava bem. Seria um ptimo golpe publicitrio, faria a
felicidade dos accionistas e impulsionaria as aces. Mas
sabe bem que no  normal... que no passa de uma grande
vigarice que comeou com um assassnio. Voc quer o seu
petrleo. Estou a tentar faz-lo jorrar. Para qu gastar um
dia com esse tipo de mistificao? Se tem champanhe a mais,
mande-mo. Vou ter bastante tempo para o beber.
Rubensohn lanou-lhe um olhar penetrante, depois
encolheu os ombros.
- Como quiser, naturalmente. Voc  que manda. Mas por que
ficou de repente to escrupuloso? Est preocupado com alguma
coisa?
- E no  de estar" - McCreary estava decidido a no lhe
poupar um nico momento de ansiedade. Qualquer daqueles
tremores de terra podiam ter feito cair

168

o equipamento, e teramos de comear tudo de novo. Se eles
aumentarem de intensidade, podem fazer o poo desabar e
perderamos as nossas brocas e a cobertura.
- Acha que os tremores de terra vo piorar?
- Como  que posso saber? Eu preveni-o, posso
responsabilizar-me por dificuldades de ordem tcnica, mas
nunca por acidentes inevitveis. Se reparar na montanha l de
cima, ver que est mais quente e mais brilhante do que quando
chegmos.  natural...  uma espcie de vlvula de segurana.
Mas o que se est a passar debaixo da terra  que ningum
sabe.
Rubensohn franziu o sobrolho e afastou-se, a transpirar por
todos os poros, sob o olhar carrancudo de McCreary. No havia
a mnima segurana, num trabalho daqueles, embora houvesse
muito dinheiro em jogo. Era o inconveniente de um jogo
desonesto. O lucro era grande, mas podia-se arranjar uma
lcera enquanto se aguardava o resultado. McCreary sabia-o
bem. Fazia parte do jogo.
Por conseguinte, quando puseram os motores a funcionar e a
enorme broca comeou a trucidar a fina cmada superficial do
solo, apenas McCreary, Rubensohn, Agnello, Janzoon, as
raparigas e alguns trabalhadores estavam presentes. Depois de
observarem durante algum tempo o trabalho da broca, McCreary
levou-os  sua cabana, serviu-lhes bebidas e declarou com
firmeza:
- De agora em diante,  uma questo de tempo. Todos esto
ansiosos e o mesmo acontece comigo, mas no quero ser
incomodado com coisa nenhuma. Tenho de ficar a vigiar a
broca. Agnello pode vir de trs em trs dias fazer uma
vistoria aos motores e tratar da ferramenta. Quero que me
tragam do navio uma mquina de escrever e papel quadriculado.
Escreverei um dirio e desenharei o progresso da perfurao
num grfico correspondente ao levantamento do gelogo. Todas
as manhs, remet-lo-ei por um mensageiro, para vocs estarem
a par do que vai acontecendo. Guido entrar em contacto
comigo pelo transmissor para quaisquer outras

169

mensagens. Se eu precisar de alguma coisa do navio, espero
que ma enviem sem demora. Em resumo: quero ficar sozinho.
Est entendido?
- Perfeitamente - disse Rubensohn. - Mas talvez tenha de ficar
aqui muito tempo. No vai precisar de companhia?
McCreary sorriu.
- Tenho Flor Flamejante para me fazer companhia... e Miranda,
se me apetecer ouvir anedotas obscenas. Quando Agnello vier,
pode passar aqui a noite. De resto, talvez pesque um pouco,
d uns passeios, e se algum dia me sentir muito sozinho vou
jantar ao navio.
- Aparea - disse Rubensohn com amabilidade.
Dar-nos- muito prazer.
- Certamente - replicou McCreary.
- Vai ficar a trabalhar toda a noite? perguntou
Janzoon.
- Eu no - respondeu McCreary -, mas a aparelhagem sim. Podem
olhar para aqui de noite, para ver as luzes da torre e pensar
nos milhes que esto prestes a ganhar.
- Voc tambm os ganhar - replicou Rubensohn. No se esquea
disso.
- No me esquecerei - disse McCreary - Estarei sempre a pensar
no caso.
Depois de eles partirem, McCreary ficou no centro da clareira,
a escutar o barulho surdo dos motores e a observar a comprida
haste de ao mergulhando do alto da torre como uma agulha
reluzente. Sentia uma grande satisfao ao ver aquela cena, a
satisfao simples mas profunda do profissional. Contudo, ela
era ensombreada pelo pensamento de que aquele projecto nunca
passaria da fase inicial. No chegaria a ter adutoras a
correr para as guas, o rudo dos reservatrios e postos de
bombagem, uma cidade a formar-se  beira do cais, nem navios
ancorados nas baas. A torre cobrir-se-ia de ferrugem sob as
chuvas das mones e a mata ressurgiria para devorar os
transitrios vestgios da sua permanncia ali.

170

Ao cair da noite, voltou a subir ao desfiladeiro do vale, de
onde Guido e ele tinham observado o palcio. Levou os
binculos a tiracolo e uma lanterna elctrica no bolso. Deu
passos rpidos e cronometrou meticulosamente a caminhada:
vinte e trs minutos.
Quando chegou perto dos dois rochedos, deitou-se de bruos e
observou o jardim e a colunata. Havia luzes no palcio, mas o
jardim e as colunatas estavam mergulhados na escurido. Mesmo
que Lisette estivesse l, no podia alimentar esperanas de a
ver.
Tirou a lanterna do bolso, apontou-a para l e acendeu-a...
no mais do que um segundo... e tornou a apag-la.
Esperou, com o corao a bater descompassadamente, e das
sombras do jardim surgiu um tnue ponto de luz, como uma
estrela solitria. Desapareceu to rapidamente que poderia
ser apenas fruto da sua imaginao, mas revelou-lhe o que
desejava. Ela recebera a mensagem. Tinha a lanterna de
Guido. Aguardaria sem cessar at ele estar pronto para a ir
buscar.
Tornou a erguer o binculo e examinou a zona escura que ficava
entre o stio onde se encontrava e o muro do jardim. Devia
ter no mximo dois quilmetros e meio. Contudo, no havia
carreiros e a mata era cerrada, com vegetao rasteira e
trepadeiras. Estaria sobre a sua cabea como um dossel, e ele
teria de caminhar por uma longa rampa. Teria de adquirir
prtica - atravs de viagens repetidas - at abrir um carreiro
e reduzir ao mnimo o tempo dispendido. Quando chegasse a
noite final, o tempo seria um factor decisivo. Ao ser
descoberta a fuga de Lisette, seria dado o alarme e a ilha
transformar-se-ia num formigueiro  sua procura.
Bem, era o princpio. Ps-se de p, examinou mais uma vez as
plancies e procurou traar uma rota, encosta acima e depois
abaixo, para terminar sob o muro do jardim. Em seguida,
iniciou a jornada. Um minuto depois era engolido pela selva.
Levou oitenta minutos a fazer o percurso, nas mais penosas
condies. Plantas rasteiras agarravam-se-lhe

171

aos tornozelos, madeiras apodrecidas desfaziam-se sob os seus
ps, espinhos dilaceravam-lhe a roupa e ramos vergastavam-lhe
o rosto. Pssaros agitavam-se ruidosamente  sua passagem e
perto do seu rosto esvoaavam insectos monstruosos. O suor
escorria-lhe pelo corpo e tinha as narinas impregnadas do mau
cheiro da vegetao putrefacta.
Quando, finalmente, deparou com as pedras da muralha,
percebeu, horrorizado, que estava afastado mais de trinta
metros do seu objectivo e que no parapeito, logo acima, estava
um guarda armado de um longo mosquete. Recuou para a vegetao
como um animal assustado, levando mais quinze minutos para
chegar ao ponto onde a enorme magnlia pendia do parapeito.
Escutou. No ouviu rudos no jardim, apenas um longnquo
retinir de ritmos gamelan que vinham do interior do palcio.
Ergueu os olhos para as pedras hmidas e cobertas de musgo do
muro. Este era mais acessvel do que parecia  distncia, no
mximo tinha trs metros de altura. Os ramos pendiam e quase
podiam ser alcanados com um forte impulso, para por eles se
chegar ao alto da muralha. Teve de fazer um esforo para
resistir  tentao de o fazer naquele instante. Lisette
estava to perto e no entanto no se lhe podia juntar; nem
sequer se atrevia a elevar a voz para a chamar.
Verificou as horas e voltou a mergulhar na escurido da mata.
Quando chegou ao acampamento encontrou Flor Flamejante fora da
sua cabana, com os olhos abertos de pavor. Ele estivera
ausente durante quatro horas. Com sorte e prtica, pensava
conseguir reduzir esse tempo para duas horas e meia. Caso
contrrio, as possibilidades de sobrevivncia seriam mnimas.
Foi ao regato tomar banho e vestiu roupa lavada. Quando
voltou, Flor Flamejante tinha-lhe preparado uma refeio. A
jovem sentou-se a seus ps enquanto ele comia, e ao terminar
entregou-lhe um cigarro e acendeu-lho. O pequeno truque com o
isqueiro nunca

172

deixara de a divertir, mas nessa noite o seu rosto pequeno e
infantil mostrava-se preocupado. Ela olhou-o por um instante
e depois disse com relutncia:
- Tuan...
- O que ?
- Agora que o outro tuan se foi embora, posso dormir aqui consigo?
McCreary olhou-a enternecido. Ela era jovem e bem
desenvolvida, perfeita como uma flor tropical, e ele sentia-se
s, precisava de consolo. At ento vivera e amara
despreocupadamente. Porqu hesitar agora? Podia t-la sem o
mais pequeno problema. Ali estava um presente rgio,
inteiramente  sua disposio. Era s us-la e depois
abandon-la com um filho, esquecendo-a como faziam tantos
outros flibusteiros cujos descendentes povoavam as ilhas
asiticas. Lisette no o censuraria por isso. No havia mais
ningum para se importar, a no ser ele prprio. E ele
importava-se singular e fortemente. Teve uma viso rpida da
jovem na noite decisiva, arrastada  presena dos carrascos,
com o seu prprio filho no ventre.
Como explicar-lhe tudo isso, com os parcos conhecimentos que
tinha do idioma malaio? Como faz-la compreender sem a
humilhar e sem perigo para ele e para Lisette? Cuidadosamente,
disse-lhe:
- Sabes onde estive hoje  noite?
- Onde, tuan?
- Dei um longo passeio pela mata.
- No, tuan! - Ela levou a mo  boca. - Os espritos dos
mortos esto espalhados pela floresta, e a deusa da Morte
anda por l, montada num monstro s riscas.
Era uma verso estranha e distorcida de uma antiga crena
hindu ainda em voga naquelas ilhas.
McCreary confirmou com a cabea.
Atravessei a mata, cheguei ao muro do jardim do sulto e ouvi
a minha irm a chorar l dentro. No tive coragem para a
chamar, fiquei sentado,  escuta. Pouco depois ela foi-se
embora.

173

- E depois, tuan? - os seus olhos transbordavam
de compaixo.
- Fiz aos meus deuses a promessa de no tocar em nenhuma mulher
enquanto a minha irm no sasse do palcio e voltasse para o
meu lado.
- Mas isso nunca vai acontecer, tuan. Nenhuma mulher sai
daquele palcio... nunca.
- Ela sair. Uma noite ela sair e hei-de lev-la para longe
de Karang Sharo, e a ti tambm. Para onde o sulto nunca nos
encontrar.
- Jura que o far, tuan?
- Juro.
- Ento... ento... j que no pode ser nada comigo... ser
que posso vir dormir aqui, na sua cabana? Quando estou sozinha
e o cho comea a tremer, fico morta de medo.
McCreary sorriu-lhe, passou a mo pelos seus cabelos
perfumados e disse em ingls:
- Faa eu o que fizer sers sempre um problema para mim. Acho
que  indiferente que venhas ou no.
- Que disse, tuan?
- Eu disse que te levarei daqui. Ests contente com isso?
- Contanto que esteja perto do tuan, estou contente.
Ele no pde deixar de pensar que, se todas as mulheres do
mundo fossem como aquela, a vida seria bastante mais fcil
para o sexo masculino. Despiu-se e deitou-se, enquanto Flor
Flamejante subia para a cama de Agnello.
McCreary ficou acordado durante muito tempo, a ouvir a
respirao tranquila e regular da jovem e as pancadas abafadas
e constantes dos motores que impulsionavam a perfurao. Em
seguida, adormeceu, exausto. Houve mais dois abalos leves
durante a noite, mas nem ele nem Flor Flamejante acordaram, e
pela manh encontrou a aparelhagem intacta e a broca a
adiantar-se em direco s primeiras camadas rochosas.
Nas semanas seguintes, os dias foram rotineiros para McCreary.
Levantava-se cedo, ia lavar-se ao regato e

174

regressava  cabana para tomar o pequeno-almoo que Flor
Flamejante lhe tinha preparado. Guido chamava-o no rdio e
conversavam cuidadosamente, temendo possveis escutas no
navio.
No chegaram mensagens para Rubensohn, excepto um cabograma
para a companhia em Singapura a solicitar a renovao do
crdito para abastecimento de carvo do Corsrio em Luzon e
Hong-Kong. McCreary no fez comentrios. O crdito podia vir
a ser til no futuro.
Aps a transmisso matinal, ele dirigia-se  aparelhagem,
abastecia e afinava os motores e orientava o pequeno grupo de
trabalhadores que tinham ficado consigo. Verificou que
aprendiam com facilidade.
A medida que as brocas iam avanando e a cobertura as
acompanhava, McCreary comeou a retirar amostras da pirosfera,
comparando-as com as previses do gelogo relativamente a
alteraes nas camadas.
A noite, anotava tudo no dirio e no mapa topogrfico, depois
ia ao posto de observao fazer o sinal para Lisette acendendo a lanterna uma nica vez. Quando via o ponto
luminoso da resposta, embrenhava-se de novo na mata e
cronometrava a caminhada, ida e volta, ao muro do jardim.
Aps meia dzia de incurses, descobriu que poderia faz-lo em
duas horas e meia. Comeou ento a pensar na hiptese de
reduzir para duas.
Nas noites em que Miranda ia buscar os bides de combustvel,
McCreary acompanhava-o at  praia e pescava durante uma hora,
entre a margem e o barco de Miranda.
O mestio tinha-lhe arrancado mais duas garrafas de usque, e
agora tambm uma canoa estava pronta a ser utilizada a
qualquer momento, escondida entre os arbustos. Era grande e
de difcil manejo para um homem s, mas quando a altura
chegasse, ela suportava uma carga completa.
De trs em trs dias, Agnello aparecia e passava o dia a
reparar as brocas usadas, a calibrar os motores e a examinar
os circuitos elctricos. Depois do jantar,

175

acompanhava McCreary ao posto de observao e aguardava que
este regressasse da caminhada ao muro do palcio. Ento
sentavam-se na cabana e fumavam placidamente, enquanto falavam sobre os planos para o dia final .
Agnello arranjara um novo aliado: o jovem oficial Arturo. Ele
seria til na noite decisiva. De resto, as notcias do navio
no eram importantes. Rubensohn passava a maior parte do seu
tempo no camarote, a escrever e a estudar os relatrios de
McCreary. Janzoon e Alfieri estavam de relaes cortadas e as
raparigas davam mais preocupaes do que prazer.
McCreary riu-se entre dentes com o relato seco de Agnello.
Sabia como o bom humor de Rubensohn se devia estar a desgastar
com a espera. Lamentava no a
poder prolongar ao mximo.
Ao que parecia, uma coisa os preocupava a todos: o vulco. Estava mais activo do que nunca. As vezes, ouviam-no roncar,
como uma trovoada ou um gigante a ressonar. Durante a noite,
um halo avermelhado e incandescente iluminava o cone e, de vez
em quando, uma saraivada de fascas elevava-se no espao e
espalhava-se como fogo-de-artifcio. Os abalos eram agora
mais brandos, porm mais frequentes, e o rdio noticiara
intensas ondas de choque noutras reas.
- Pode no significar grande coisa - observou Agnello na sua
voz calma. - O Etra prega destes sustos s vezes. E o
Stromboli est sempre a ressonar. Mas
se ele... Deus nos livre!
- O melhor  no pensarmos mais nisso - retorquiu McCreary,
inquieto - e esperar que quando entrar em
erupo j estejamos longe.
No entanto, no conseguiu esquecer o assunto, e mais de uma
vez despertou a gritar, com um pesadelo em que via a montanha
a vomitar fogo, tragando aos poucos o palcio e os jardins,
enquanto a voz de Lisette bradava por socorro e ele era retido
por mos invisveis.
Uma tarde, finalmente, recolheu uma nova amostra

176

da pirosfera. Era negra e porosa e parecia uma crosta de
cimento. Enquanto a manuseava, notou que lhe deixara nas mos
uma mancha parda, que parecia alcatro.
McCreary olhou-a por momentos, movendo os lbios sem emitir
qualquer som, com o corao a pulsar desordenadamente. Sabia o que aquilo representava, j o vira
antes, muitas vezes.
As brocas tinham atingido uma camada porosa que s vezes
reveste um jazigo de petrleo, quando no  o prprio jazigo.
Para fazer jorrar o poo seria preciso recorrer a utilizao
de projcteis revestidos de ao. Quando estes fossem
disparados por contacto elctrico, a crosta estilhaar-se-ia,
libertando o petrleo e fazendo-o esguichar para a superfcie.
Os gelogos tinham razo. Rubensohn acertara em cheio.
Existia petrleo em Karang Sharo e no dia seguinte Mike
McCreary faria o poo jorrar. No dia seguinte!
Durante o resto da tarde e at muito depois do pr do sol,
McCreary incitou o seu grupo com extrema energia. A broca foi
parada e trazida para a superfcie. Os longos projcteis
revestidos de ao foram introduzidos na cmara de combustvel
e o contedo foi fundido. A cmara foi baixada lentamente at
 haste, e, feito isto, McCreary desenrolou um par de longos
cabos condutores at  sua cabana e levou tambm para l a
caixa de contacto, que arrumou debaixo da cama.
A seguir mandou os rapazes retirarem-se e ficou durante algum
tempo a olhar para a enorme torre com as suas escoras
descobertas, entrecruzadas contra as estrelas. Amanh!
Mas mesmo numa noite como aquela havia muito para fazer.
Ligou o rdio, colocou os auscultadores nos ouvidos e pouco
depois escutava o sinal impaciente de Guido. Estava atrasado
no horrio.
"Amanh... " Bateu as letras levemente, com os dedos trmulos.
"Avise Agnello. Venha logo depois do almoo. Nem uma palavra
a quem quer que seja.  tudo. Nada mais por hoje. "

177

"Entendido", respondeu Guido. "Entendido." McCreary sabia que
podia confiar neles. H j muito tempo que estudavam o
assunto.
Sentou-se  mesa, frente  mquina de escrever, e comeou a
bater as letras, lenta e cuidadosamente. Eram dois documentos
extensos e outro mais curto. Quando terminou, dobrou-os com
cuidado e guardou-os na carteira, que colocou debaixo do
travesseiro. Amanh!
Flor Flamejante serviu-lhe a refeio, que ele comeu tal como
estava, suado e sujo, regando-a com trs garrafas de cerveja e
fumando de seguida trs cigarros.
Foi buscar a sua arma, lubrificou-a e experimentou
meticulosamente o seu funcionamento. Carregou-a, correu o
travo de segurana e colocou-a debaixo do travesseiro ao lado
da carteira. Amanh!
Sentia-se extremamente exausto. A cabea zumbia-lhe, as mos
tremiam-lhe, todo o seu corpo acusava fadiga. Dirigiu-se ao
regato, para se lavar, seguido por Flor Flamejante, e quando
se ps debaixo da refrescante queda de gua ela aproximou-se
dele, ensaboou-o e esfregou-lhe o corpo com as suas mos
macias; depois secou-o e ele regressou  cabana, andando como
um sonmbulo
Quando chegou, ela insistiu com McCreary para que se deitasse
e dormisse, mas ele recusou-se a faz-lo. Em vez disso,
ergueu-a e sentou-a sobre a mesa, dizendo-lhe atentamente o
que ela deveria fazer no dia seguinte. Devia ir ao palcio,
dirigir-se aos aposentos das mulheres, contar-lhes a sua vida
com o tuan para as distrair e dizer a Lisette, como se
imitasse uma criancinha: "Esta noite... trs luzes... espere!".
F-la repetir vrias vezes o recado, como um papagaio, para
que no houvesse hiptese de engano. Em seguida, disse-lhe
que voltasse logo depois do almoo para confirmar se Lisette
recebera a mensagem. Ela concordou com a cabea e McCreary
pediu-lhe que repetisse as suas instrues uma ltima vez,
devagar e com o mximo cuidado; perguntou-lhe quais

178

eram as palavras e ela pronunciou-as claramente e sem hesitar:
- Esta noite... trs luzes...espere!
No tinha mais nada para fazer at ao dia seguinte. Deitou-se
todo vestido e adormeceu instantaneamente. Mas Flor
Flamejante, ao ouvi-lo a resmungar e a lutar nos seus
pesadelos, abeirou-se dele e acalmou-o, cantarolando com voz
terna e acariciando-o com as mos; minutos depois deitou-se a
seu lado sobre as cobertas e colocou a cabea dele junto ao
seu peito, para que, quando viessem os tremores, ele no os
ouvisse e s despertasse quando fosse... amanh!

16

Os trabalhadores de Karang Sharo subiram a colina a rir e a
conversar, como era seu hbito. McCreary encarregou-os de
reempilhar os materiais, limpar os motores, cortar madeira...
enfim, tudo o que conseguiu inventar para os manter ocupados e
criar o clima ilusrio de actividade normal.
Quando Miranda chegou, de olhar estranho e inquiridor como uma
doninha, McCreary levou-o  cabana e dsse-lhe o que desejava
que ele fizesse. Os olhos dele arregalaram-se e ficou
boquiaberto.
- Minha Nossa Senhora! No posso fazer uma coisa dessas...
Sabe o que vai acontecer? Vou ficar arruinado! Vou perder tudo
o que tenho!
- O que voc tem  uma cabana e um monte de porcarias para
negociar! - retorquiu McCreary brutalmente. - Um dia eu
devolvo-lhe isso tudo a dobrar. Tambm tem mulher e filhos
que eu no posso devolver e um pescoo que eu no devolveria
mesmo que pudesse. Se ficar, ser assassinado. Se me tentar
trair, eu prprio acabo consigo. Agora escolha!
- No... no... no! - balbuciou Miranda, aterrorizado. - Pode
mandar, que eu fao tudo o que quiser. Mas promete pagar o
barco e dar-me uma oportunidade de comear uma vida nova?
- Prometo! Agora oua com toda a ateno. Leve a sua mulher e
as crianas para a chalupa... agora no, ao fim da tarde. Depois volte c. Se no estiver aqui quando

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escurecer, mando o Guido meter-lhe uma bala no corpo.
Percebeu?
- Sim, percebi... mas como pode ter a certeza de que tudo vai
correr bem?
- Tenho a certeza que vai - respondeu McCreary.
A certeza absoluta. Agora desaparea e volte quando
escurecer. Quero que me leve uma mensagem ao navio.
Depois de ele se afastar, McCreary voltou-se para Flor
Flamejante. Rapidamente, f-la repetir a ladainha. Ela
respondeu sem hesitar, pronunciando as palavras em ingls com
a maior clareza. Depois ps-se tambm a caminho e ele seguiu
enternecido aquela figurinha colorida, que brilhava como a
plumagem de um papagaio, at ela desaparecer dentro da mata.
Logo a seguir chegou Guido, todo suado e agitado.
- Grandes acontecimentos, amico! Dia de festa! E, l no navio,
eles dormem, bebem e rosnam um ao outro como se fosse um dia
normal. Esto apavorados com a montanha. No esto a gostar
mesmo nada dos estrondos e das cuspidelas que ela tem dado.
Eu fao pouco deles e conto-lhes o que se passou quando o
Vesvio se enfureceu. Andam com os olhos esbugalhados de medo
e at tm tido indigestes de tanto se preocuparem.
- No se preocuparo durante muito tempo, Guido. Esta noite
ser o fim de tudo. - Assim espero - disse Guido com
fervor. - At ja eu comeo a ficar chateado.
- Est tudo em ordem no navio?
- Tudo. Agnello e Arturo esto j avisados. Esto a par de
todos os movimentos e dos horrios.
- Os horrios... tudo depender deles.
-  verdade - concordou Guido.
Sentaram-se para rever todos os planos.
Pouco depois das quatro, Flor Flamejante voltou. Tinha estado
nos aposentos das mulheres. Elas tinham-na recebido
carinhosamente e escutado com ateno as suas histrias sobre
os tuans e os seus costumes estranhos.
Recitara as trs palavras a Lisette e todas se
tinham rido com as suas caretas e os seus gestos, sem
compreenderem nada do que ela dizia.
Quando se veio embora, tinham-lhe oferecido presentes: frutas,
doces, um pente e uma pulseira. Lisette oferecera-lhe um
leno de cambraia impregnado de perfume. A mensagem estava
escrita no leno: "Mike, venha cedo. No mximo, duas horas
depois do pr do sol." McCreary sorriu. Duas horas depois do
pr do sol ela estaria ali, na cabana,  espera de Rubensohn e
Janzoon. No haveria tolerncia nos horrios. Esperava
ardentemente que Rubensohn e Janzoon fossem pontuais.
As cinco horas despediram os trabalhadores e em dez minutos a
clareira ficou deserta.
As cinco e meia chegou Miranda, angustiado, com os olhos
avermelhados. A sua famlia estava j a bordo da chalupa e
ele gostaria de ir tambm para l o mais depressa possvel.
Estava preocupado... no tinha jeito para aquele gnero de
coisas... era verdade que seria compensado pelas suas perdas e
que o ajudariam a recompor a vida?...
McCreary no tinha dvidas quanto a tudo isso. Menos dvidas
tinha, ainda, de que o mataria se perdesse o sangue-frio.
Sentou-se e escreveu um bilhete lacnico para Rubensohn:
"Local da perfurao hoje  noite. Conferncia urgente. Voc e
Janzoon. Espero ter boas notcias. McCreary. " Dobrou-o e
entregou-o a Miranda.
- Sair daqui quando forem seis horas no relgio de Guido.
Andando normalmente chegar ao navio antes das sete. No se
atrase nem se adiante, e sobretudo no se distraia com nada.
Se no cumprir o horrio previsto seremos todos mortos. No
se esquea.
Miranda percebeu tudo, mas foram necessrias bebidas, cigarros
e um misto de ameaas e encorajamentos para alimentar o pouco
nimo que tinha.
Faltavam vinte minutos para as seis horas quando

182

McCreary subiu o carreiro que conduzia ao seu posto de
observao. Levava nos bolsos a lanterna e a arma. Os
binculos estavam  volta do pescoo e trazia ao ombro, como
os alpinistas, uma grande quantidade de corda, com um gancho
numa das extremidades. Agnello tinha-a preparado, revestindo
o gancho de uma capa de borracha para que no fizesse barulho
quando chocasse com as pedras da muralha. Subiu a ladeira
rapidamente, a pensar em Lisette e a reflectir sobre tudo o
que deveria ser feito nas prximas horas, em que alguns
minutos poderiam representar a diferena entre o xito e o
desastre.
Ao aproximar-se dos rochedos, as trevas j envolviam a ilha, e o cone do Gurung Merapi brilhava furiosamente contra o
ceu negro. Houve um estrondo surdo e a colina estremeceu a
seus ps, mas gradualmente foi estabilizando de novo. O cone
do vulco expeliu um jacto de fogo, que logo desapareceu entre
o fumo.
Ficou encostado  rocha, a segurar os binculos com uma das
mos. Cuidadosamente, como se fizesse pontaria com um
revlver, apontou a lanterna para l das rochas e acendeu-a...
uma, duas, trs vezes. A resposta veio imediatamente. Trs
clares curtos, um pouco ampliados pelos binculos, mas ainda
pequenos e incertos como a sua prpria esperana.
Colocou a lanterna no bolso, desceu a rampa e embrenhou-se na
mata. O caminho era-lhe agora mais familiar e os riscos
menores. A longa prtica fizera com que conhecesse o terreno
que pisava, levando-o ora para um tronco cado, ora para um
emaranhado de cips, depois para um declive e para l do
barulho de gua que vinha da esquerda...
A arquejar e a cambalear, chegou  base da muralha e
encostou-se a ela para tomar flego. Consultou o seu relgio
de pulso. Fizera o percurso em quarenta minutos. Tinha
melhorado o seu tempo, mas no podia desperdi-lo.
Subiu a rampa um pouco mais devagar, at ao local em que a
grande magnlia pendia sobre o muro. O solo

183

estava escorregadio por causa das guas que vinham da colina e
tinha de ter o mximo cuidado para no escorregar.
Desenrolou a corda e pegou no gancho revestido. Tentou
atir-lo, mas foi cuidadoso de mais e o gancho caiu aos seus ps com um baque surdo. Tentou novamente; o gancho prendeu-se no muro, mas quando puxou a corda, a borda
do muro esboroou-se, provocando uma chuva de pedras.
McCreary espalmou-se contra a muralha, a tremer. No ouviu
nenhum rudo no jardim, a no ser o murmrio da fonte.
Com o mximo cuidado, tentou de novo. Desta vez o gancho
prendeu-se. Fez uma experincia com um puxo forte, que
repetiu vrias vezes. Continuava firme. Ento comeou a
iar-se pela corda acima, protegido pela sombra dos ramos.
Quando chegou ao cimo ficou pendurado e espreitou para o
jardim pelos pequenos intervalos da folhagem.
Um momento depois o seu corao ia parando.
O sulto estava no jardim com Lisette. Passeavam
descuidadamente ao lado da fonte sob as rvores em flor.
No se atreveu a subir mais. No podia retroceder, com medo
que Lisette sasse do jardim sem ele saber. Ficou ali
pendurado, agarrado  rvore, at os seus msculos o comearem
a torturar e a transpirao a ensopar-lhe a roupa. Teve de
morder os lbios para no gritar. O tique-taque do seu
relgio parecia um dobre de sinos e ele sentia o tempo e as
foras a abandon-lo.
Nessa altura eles pararam de caminhar. A figura morena e
diminuta do sulto afastou-se e, em seguida, voltou-se. Por
um instante falou em voz baixa a Lisette, que concordou com um
movimento de cabea. Depois girou bruscamente nos calcanhares
e saiu com passos rpidos, deixando Lisette sozinha.
McCreary elevou-se um pouco mais na corda e esforou-se por
encontrar foras para assobiar. O som que

184

saiu dos seus lbios foi assustadoramente estridente. Viu
Lisette voltar de repente a cabea para a copa da magnlia.
-  voc, Mike? - perguntou ela num sussurro que, para ele, foi
como um rufar de tambores.
- Sou eu! - A sua voz era contida e enrgica. Suba j para a
rvore... depressa!
Ele ainda conseguiu manter-se ali o tempo suficiente para a
ver subir os primeiros ramos em segurana, sustendo a
respirao com medo que os estalos dos ramos secos fizessem
surgir as pessoas do palcio, a gritar e a correr atrs de
Lisette. Seguidamente deslizou pela corda e aguardou,
impaciente, at que a viu aparecer, como uma mariposa branca,
no alto da muralha, entre as folhas escuras.
- Salte, querida! Eu agarro-a!
Viu-a hesitar um instante e depois pular. O impacto f-lo
escorregar pelo declive, mas ps-se logo de p, e, sem a
beijar nem abraar, puxou-a~ para as sombras e embrenharam-se
na mata aos tropees.
No tinham ainda andado um quilmetro j ela estava a arfar e a sentir-se enjoada com o odor pestilento que vinha
de todos os lados. McCreary parou, puxou-a para si e
amparou-a. Olhou para o relgio. Passavam trs minutos das
sete. No havia tempo a perder, se quisessem estar de volta
antes da chegada de Rubensohn.
Segurou-lhe o rosto e beijou-a ternamente. Depois com
rapidez, entusiasmado:
- Escute, Lisette. O tempo no est a nosso favor. Temos uma
hora para chegar ao acampamento e meia hora de comdia que
eu preparei para si, exclusivamente. Depois diremos adeus para
sempre a estas paragens e partiremos. Vou lev-la s costas
parte do caminho, depois  preciso que ande, e que ande com
toda a sua energia. No me v desiludir agora! Diga-me que
ser capaz!
- Eu... eu vou conseguir, Mike.
- Assim  que eu gosto, minha querida!
Ergueu-a e levou-a aos ombros durante algum tempo,

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at ela recuperar as foras; depois ela ps-se a caminho, com
energia e persistncia, atrs dele, at alcanarem o
acampamento, dez minutos antes da chegada de Rubensohn e Janzoon.
Guido ria-se, gaguejava, praguejava e afagava-lhe os ombros,
enquanto Flor Flamejante, imvel, olhava com espanto para
aquelas figuras andrajosas. McCreary,
impaciente, admoestou-os:
- Parem com isso! Os dois! O tempo voa! O tempo! No se
esqueam! Leve Lisette para a outra cabana, Flor Flamejante.
Ajude-a a lavar-se e empreste-lhe roupa limpa. Desculpe,
querida, mas quero que parea uma rainha quando Rubensohn
chegar, apesar de todo o cansao que est a sentir.
- Estarei pronta, Mike! - ergueu, orgulhosa, a cabea, e a
exausto pareceu abandon-la.
- Fique na cabana at eu a mandar chamar, No saia de l.
Agora vo... rpido! Guido!
- Pronto, amico.
- Ligue a caixa dos detonadores.
- J liguei, Mike... est ali fora. Pensei que a queria
ali.
- ptimo! Na minha sacola h uma srie de pedras sortidas e
objectos de jade. V busc-la e entregues a Flor Flamejante.
Diga-lhe para a levar quando formos para o barco.
- Est bem, Mike. Mais alguma coisa?
- Sim, Guido. - A sua voz agora era calma e ponderada. Quando eles chegarem, teremos uma pequena cerimnia. No
quero correr o mais pequeno risco. Se Rubensohn fizer
qualquer movimento em falso, enfie-lhe uma bala. Sem
perguntas nem hesitaes. Mate
aquele canalha!
- Com prazer, compar. - declarou Guido emocionado.
McCreary sorriu e entrou na cabana. Levou exactamente trs
minutos a lavar-se e a mudar de roupa, e quando Rubensohn e
Janzoon chegaram, subindo

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pesadamente pela colina, ele j estava pronto, de cigarro na boca
e olhar triunfante.
- Ento, McCreary? - A voz de Rubensohn era estridente e
impaciente. Os olhos brilhavam-lhe de expectativa e na sua
cara suada e plida sobressaam os lbios avermelhados. - O
seu recado falava em boas notcias. Esperemos que elas
compensem o facto de termos jantado  pressa.
- Tenho a impresso que vo achar que a caminhada valeu a pena - respondeu McCreary com um sorriso. - Vo-me desculpar por eu
estar tambm um tanto agitado. Faam o favor de entrar,
cavalheiros, e sentem-se.
Entraram na cabana e instalaram-se  volta da mesa de bambu;
McCreary teve o cuidado de os sentar de frente para a porta.
Esse pormenor fez com que o olhassem com curiosidade, pensando
que ele tinha estado a beber. McCreary sorriu, encostou-se 
trave de bambu da porta e disse, muito suavemente:
- Meus senhores, tenho novidades... e grandes! O petrleo vai
jorrar!
- Meu Deus! - a voz de Rubensohn parecia um guincho de morcego.
- Tem a certeza? - perguntou Janzoon num sussurro rouco. Quando?
McCreary olhou para o relgio de pulso. Oito horas e quinze.
O tempo passava rapidamente. Com vivacidade, disse:
- No demora muito! Esta noite! Quando me virem inclinado sobre
um detonador, contem at trs, talvez cinco... e assistiro a
uma das cenas mais espectaculares do mundo: um poo ajorrar um
leo negro e nojento em direco s estrelas.  ou no  uma
notcia agradvel, meus senhores?
- Maravilhosa! - exclamou Rubensohn com uma gargalhada aguda. Nem imagina como a notcia  agradvel, McCreary.
- Mas, antes que isso acontea - continuou
McCreary -, quero mostrar-lhes uma coisa que para

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mim  muito mais maravilhosa que todo o petrleo do mundo! Elevou a voz e gritou: - Guido!
Um minuto depois Guido entrava na cabana acompanhado por
Lisette.
Janzoon fitou-a com os olhos espantados e a boca aberta.
Rubensohn deu um salto da cadeira.
- Sente-se, Rubensohn - disse a voz suave de McCreary. Sente-se ou enfio-lhe uma bala!
Rubensohn viu a arma nas mos dele e a morte naquele olhar
irlands. Voltou a sentar-se. Lisette ficou imvel a olhar
para ele, com um sorriso estranho a bailar-lhe nos lbios.
- Est louco! - gritou Rubensohn estridentemente.
Completamente louco! A qualquer momento vo tocar os gongos no
palcio e toda a ilha nos cair em cima!
- Eu sei - declarou McCreary. - J tinha posto essa
hiptese... muitas vezes. Guido tire-lhes as armas!
Guido contornou a mesa rapidamente e voltou com dois
revlveres. McCreary mostrou um sorriso.
- Ento ia matar-me, hem? Isso facilita as coisas.
- Oua, McCreary...
- Cale a boca, Rubensohn! - O sorriso desapareceu e a boca
estava apertada de raiva. - Ateno aos dois, Guido! Ao menor
movimento, dispare!
- Era exactamente o que eu tinha pensado fazer - respondeu
Guido.
McCreary levou a mo ao bolso pequeno da camisa e tirou uma
caneta e os documentos dobrados que tinha elaborado na noite
anterior. Abriu-os e estendeu-os sobre a mesa,  frente de
Rubensohn.
- Faa o favor de assinar os dois primeiros.
Rubensohn ergueu os olhos frios, cheios de dio.
- O que  que pretende que eu assine?
- Primeiro um testamento, testemunhado por Guido e Agnello, em
que deixar todos os seus bens, tanto os imveis como os
pessoais, a Lisette Morand, com ltima residncia em Saigo, 
excepo do Corsrio, que

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fica para mim, porque voc deve-me dinheiro e muitas outras
coisas de que nunca me poder reembolsar. Depois uma
confisso, tambm testemunhada, de que assassinou o capito
Nasa, em Jacarta, no dia dez de Julho.
- Est louco, McCreary! No assinarei nada disso!
McCreary consultou o relgio.
- Se no assinar - disse McCreary calmamente - Guido matar-vos- a
ambos dentro de cinco segundos. Mas garanto que lhe
arrancarei as assinaturas antes de morrer.
- E se eu assinar?
- Nesse caso farei o poo jorrar e podero voltar os dois para
o Corsrio.
- A tem uma prova de que enlouqueceu - retorquiu Rubensohn. O testamento no tem valor nenhum enquanto a pessoa no
morrer.
- Voc j est morto - disse McCreary brandamente -, s que
ainda no o sabe. Vou comear a contar. Um... dois...
- Assine, Rubensohn... pelo amor de Deus, assine depressa! disse Janzoon, transpirando abundantemente.
- Trs... quatro...
- D-me a caneta!
- Eu conheo a sua assinatura, Rubensohn - preveniu McCreary
muito calmo -, de modo que no se v enganar e fazer outra.
Rubensohn rabiscou a sua assinatura nos dois primeiros
documentos. McCreary recolheu-os, dobrou-os e guardou-os no
bolso.
- O que  isto?
Rubensohn olhava fixamente para a ltima folha de
papel. Friamente, McCreary respondeu:
-  a mensagem que Guido expedir para Scott Morrison, em
Darwin, a inform-lo de que no existe petrleo em Karang
Sharo e de que o negcio fica sem efeito. E, naturalmente,
ser como todos os outros, assinado por Janzoon.
O rosto de Rubensohn estava lvido; pela primeira vez

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desde que McCreary o conhecia, havia pavor nos seus olhos e
nos seus lbios retorcidos.
- Mas... mas aqui existe petrleo! Voc prprio disse que...
- Eu sei - atalhou McCreary. - Prometi-lhe petrleo e voc
t-lo-... pode at entupir-se com ele. Depois eu vou...
Ouam.
Todos ouviram a vibrao tremenda de gongos que ecoava atravs
das plancies, vinda do palcio da montanha, ao mesmo tempo
que a esse ncleo enervante se juntava um clamor estridente
que parecia o lamento de almas perdidas.
- L est! - exclamou McCreary . - O alarme. Desapareceu a
esposa do sulto. Dentro de vinte minutos faro uma batida na
ilha. Seria interessante vocs ficarem aqui a apreci-la.
Claro, seriam depois levados e liquidados. Neste instante, o
Corsrio est a partir da baa com o jovem Arturo ao leme e
Agnello na casa das mquinas, enquanto Alfieri bate com a
cabea na porta. Se eu conseguir, amanh ou depois, cham-lo
 razo, talvez ele fique no comando, Janzoon.
De repente, todo o horror da situao pareceu abater-se sobre
Rubensohn e Janzoon. Ficaram parados, boquiabertos, e Janzoon
fez uma tentativa para se levantar da mesa, mas desistiu
imediatamente quando viu a pistola de Guido. Rubensohn
irrompeu em splicas:
- Pelo amor de Deus, McCreary! Escute! Eu dou-lhe...
- Voc no tem nada para me dar! - interrompeu McCreary. - Perdeu
tudo! Terminou o jogo, Rubensohn! Convena-se de que no passa
de um z-ningum, um falhado! E aqui tem uma pequena
recordao desta ocasio... o isqueiro de Nasa! Tirei-o do
corpo dele!
Atirou o isqueiro para cima da mesa. Ento, enquanto
Rubensohn olhava fixamente o objecto, voltou-se e conduziu
Lisette para fora da cabana. Com um aceno do cano da pistola,
Guido ordenou aos outros que os seguissem.
A ilha ainda estava invadida pelo eco dos possantes

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gongos, mas McCreary estava firme, com a mo no detonador, e
Lisette estava a seu lado, altiva e de cabea erguida.
- Ateno! - disse McCreary, exuberante.
Ateno! Conte at trs... ou at cinco, e v-lo- jorrar: aquilo que
o fez matar um homem e vender uma mulher, aquilo que vai causar a sua morte, Rubensohn... o
petrleo
Apertou o detonador e eles aguardaram, um... dois... porm,
antes de ter terminado a contagem, a terra comeou a tremer debaixo dos seus ps e ouviu-se um estrondo mais forte do que cem gongos; enquanto cambaleavam, todos
viram o topo da montanha explodir e expelir uma
infinidade de partculas, como um sol dinamitado a
precipitar-se no espao. Comearam a correr desordenadamente
pelo carreiro, McCreary a puxar Lisette pela mo, logo depois
Guido com Flor Flamejante, e Janzoon e Rubensohn seguindo-os
aos tropees, enquanto sucessivas exploses abalavam o solo e
projcteis de fogo eram lanados como raios.
No carreiro encontraram um razovel abrigo contra os
fragmentos incandescentes, mas ouviam-nos cair com estrondo e
sibilar entre as rvores, que se vergavam; e se algum os
atingia de raspo chamuscava-lhes a pele, fazendo-os gritar de
dor.
Quando alcanaram o caminho que dava para a aldeia,
constataram, durante um breve instante, o crescente horror da
situao. Ao longo da costa os kampongs estavam em chamas
devido ao contacto das fagulhas que caam com a erva seca dos
telhados.
Viram as labaredas e escutaram a gritaria desvairada e violenta. Sem hesitar, McCreary arrastou-os pelo carreiro e
atravs do ltimo labirinto verdejante que os separava do mar.
Chegaram os quatro  praia uns cinquenta metros  frente de
Rubensohn e Janzoon. O mar estava agitado, furiosamente
encrespado, e ribombava como em dias de tempestade. Viram a
chalupa debater-se e forar a ncora,

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mas Miranda estava escondido debaixo dos arbustos, olhando
com pavor. Sacudiram-no para tir-lo do transe em que se
encontrava e empurraram a canoa pela areia
at  gua.
Depois de embarcarem, e quando j se tinham afastado um
pouco, Rubensohn e Janzoon surgiram atrs dos
arbustos em direco  praia.
- McCreary! - chamava a voz de Rubensohnl aguda e desesperada.
McCreary no voltou a cabea. Ele e Guido, curvados sobre os
remos, conduziam a canoa pelas ondas impetuosas em direco 
chalupa.
- McCreary! McCreary!
Agora ambos soltavam berros lancinantes, e quando ele
finalmente virou a cabea, viu-os mergulhados na
gua at  cintura.
Era desesperante o esforo que tinham de fazer para
conseguirem manter a frgil embarcao em movimento contra o
choque das vagas descomunais e impedi-la de se voltar, mas
finalmente conseguiram alcanar o lado da chalupa que estava
abrigado do vento. Ao subirem para bordo, encontraram a
mulher e os filhos de Miranda a gritar, apavorados, mas
McCreary empurrou Miranda como um demente.
- Ponha j esses malditos motores a funcionar! Guido, levante a
ncora! Os outros vo l para baixo, se no querem ficar
queimados! Depressa! Depressa! Depressa!
Fragmentos incandescentes projectavam-se no convs, que, em alguns pontos, j comeava a arder. A chalupa empinava-se
como um cavalo selvagem, elevando-se cada vez mais sobre as
ondas. Guido, sempre a praguejar, esforava-se por fazer
subir a ncora. Parecia que tinha passado uma eternidade
quando, finalmente, McCreary ouviu o ronco dos motores e o
grito de Guido, ao ver o barco guinar, incerto, com o impulso
inicial das hlices.
O mar estava encapelado simultaneamente em todas

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as direces, mas as enormes ondas que se abatiam sobre o
convs s lhes traziam alvio, pois apagavam as brasas cadas
alm de neutralizarem as que ainda cruzavam o espao.
Miranda levava agora o barco a toda a velocidade, rumo s
luzes do Corsrio a algumas milhas dali.
McCreary, de p na popa, olhava para a praia, onde Rubensohn e
Janzoon j tinham gua at ao pescoo, sem desistirem de gritar
desesperadamente.
- McCreary! McCreary!
Caiu uma nova chuvada de partculas incadescentes e as vozes
deles transformaram-se num grito de agonia, que se extinguiu
mal as guas impetuosas os tragaram.
"Acabei com ele", pensou McCreary. "Ali est... um rosto que
no posso ver e uma voz que no posso ouvir, engolidos em
poucos segundos pelo mar. Tirei-lhe a rapariga, o dinheiro e
a vida. Posso no me sentir muito orgulhoso do que fiz, mas
diabos me levem se sinto pena daquele tipo!"
Contornaram o pequeno cabo e, pela primeira vez, viram o
tenebroso espectculo. O vulco ainda vomitava fogo e
estremecia como um gigante demente, o ar estava impregnado de
uma fumarada ftida e sulfurosa e toda a costa ardia como se
tivesse sido salpicada com gasolina.
Os nativos corriam como formigas apavoradas em direco 
gua. Apesar do rugido da montanha, os seus gritos
estridentes ouviam-se atravs das ondas.
- Meu Deus! - exclamou McCreary num sussurro angustiado.
- Mike! Mike! No poderemos fazer nada por eles?
Lisette estava atrs dele, agarrada  popa. - No  possvel
voltarmos e salvar algumas pessoas?
McCreary negou com a cabea e teve de gritar para ela o
conseguir ouvir.
- O barco incendiava-se e afundava-se, em dois minutos. O
mximo que podemos fazer  manter o Corsrio o mais perto
possvel e tentar recolher os sobreviventes. Olhe! ...
Ela seguiu a direco do seu dedo; viu a primeira canoa a
afastar-se da praia e os pequenos mas resistentes praus a dar
guinadas, levando pessoas que batalhavam para se segurarem nos
bancos.
Antes, porm, de conseguirem afastar-se pouco mais de vinte
metros da praia, as guas enfurecidas viraram as embarcaes,
projectando-os borda fora.
- Que horror, Mike!
Ela enterrou o rosto no seu peito e McCreary apertou-a contra
si, enquanto Miranda, a praguejar, se esforava por manter a
chalupa em direco ao Corsrio.
- No olhe mais para l - disse McCreary energicamente. Feche os olhos, os ouvidos e o corao. J sofreu muito e
nada pode fazer para remediar aquilo. Agarre-se a mim, meu
amor, e escutar o rumor do vento na erva, o canto do melro e
o ressoar dos cascos das potras a subir a ladeira de regresso
a casa, no alto das colinas de Armagh. Escute isso tudo,
querida! Escute...
Todavia, enquanto ele falava, ouviram um rudo que parecia o
ribombar de mil troves e, paralisados de terror, viram toda a
encosta da colina abrir-se num enorme rio de fogo que deslizou
lentamente por cima do palcio em direco s aldeias e ao
mar.
